Sempre retornamos


 

Escrito em agosto de 2008.

Há pessoas que se sacrificam por instituições, e outras que se sacrificam por pessoas. Vejo com mais grandeza e humanidade as segundas. Instituições são muitas vezes fortes, organizadas, elas podem ser arruinadas, podem ser absorvidas, passam por fusões, podem desaparecer através da vontade do homem, dependem de atos administrativos, muitas vezes de financiamentos, são agentes políticos, são entes ou pessoas jurídicas. Pessoas não, elas são frágeis, deixam filhos em vez de bônus, deixam viúvas, deixam terceiros muitas vezes em situações difíceis, e poucas vezes pais e mães podem ser substituídos.

Em Um certo capitão Rodrigo, da trilogia O tempo e o Vento, de Érico Veríssimo, um dos irmãos Terra pretende abandonar a família para ir lutar contra os castelhanos. O desejo do mesmo é um misto de querer abandonar a dura rotina da sua vida, conhecer um mundo maior, afirmar sua macheza, conhecer mulheres outras que não as putas que visitava quando ia para outras cidades, distantes há semanas de distância. Muito, havia muitos motivos para ir pelear contra os castelhanos. O seu pai, então, o velho Pedro Terra diz, então que não, que ele não irá, enquanto os homens do exército imperial aguardam a decisão. A revolta vem e ele retruca ao pai, dizendo que irá do mesmo jeito, para “defender a honra do império do Brasil”. O pai, então encerra a discussão: “A pátria de um homem é a sua família!” Ele fica.

O todo é de uma grandeza tocante.

Escrevo da Escola Chico Mendes, onde trabalho. Quando cheguei, antes das 13h30min, as notícias são as da guerra do tráfico aqui na vila. São histórias que envolvem mortes, queimas de arquivo, tiros varando a noite, inclusive com balas luminosas; as mais alarmantes possíveis são as novidades que mantêm uma comunidade refém e as pessoas com um medo frio e real. Mesmo assim, elas persistem; mesmo presas pelo temor, pela insegurança, as pessoas vêm para a escola, talvez seu último refúgio dentro da sanidade, talvez, aqui e ali, a parca chance de encontro com a cultura, com amigos em um ambiente no qual haja uma ilha de tranqüilidade.

Quantas vezes a escola recebeu ameaças veladas e persistiu? Quantas vezes saímos e ainda sairemos das aulas da Educação de Jovens e Adultos em comboios, todos os professores juntos? Quantas e quantas vezes alertamos a Secretaria Municipal de Educação de nossas inseguranças, de que muitos alunos estavam desistindo em razão da inoperância do Estado em garantir uma segurança efetiva para todos? Quantas e quantas aulas foram encerradas antes dos seus horários normais porque estávamos todos sob ameaça? Quantas tolices e ouvidos de mercador nos escutaram?

Mesmo assim, prosseguimos, a despeito de tudo, prosseguimos. Uma vez, ainda estudante de Pedagogia, por volta de 2005 uma professora disse que nós, futuros pedagogos tínhamos de entender que os professores não são revolucionários, não são de pegar em armas, não são de criar estratégias guerrilheiras; não, nós somos os que, a despeito de tudo, retornam ao trabalho, os que, a despeito de tudo, respeitam sua profissão, seus alunos, sua escola. Talvez por isso tudo, no fundo saibamos que as instituições são apenas retratos, muitas vezes mal esboçados da vontade do homem. O mais importante é o humano, o que é por muitas vezes relegado pelo poder político.

De todo modo, até que se restabeleça a educação, voltaremos.

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