Sobre métodos de alfabetização


 

A deficiência na formação do professor desabilita uma opção consciente do método de alfabetização. Em razão de tal deficiência o professor optará pelo método que lhe der maior segurança pessoal, o que pode não significar o melhor para o aluno. Assim, o comportamento do professor e sua visão de mundo determinarão a didática utilizada na solução dos problemas de alfabetização.

Métodos de alfabetização

Tradicional Sintético (centrípeto) : sentido da sílaba para a palavra e para a frase.Tal sistema entende que a aprendizagem do sujeito ocorre da parte para o todo, seguindo a linha empirista, ou seja, do simples para o complexo, sendo o método alfabético o mais ortodoxo e antigo. Implica em decorar o alfabeto em vários sentidos, utilizando a memorização. Decorado o alfabeto, partimos da letra A e fazemos combinação com as letras. Exemplo: CA + AS = CASA. Temos também o método fonético (pesquisar)

Global  analítico(centrífugo): sentido da frase para a palavra para a sílaba.  Há uma adulteração do método global, no qual o sentido é diretamente da palavra para a sílaba, utilizando muito a estrutura do conto, do cartaz, do teatro, com o envolvimento das crianças com a leitura, ocorrendo letramento com a presença de historicidade.

No Método Misto há um tensionamento entre o método sintético e o global, caso do método Paulo Freire, que  parte do todo para a parte e vice-versa.

O método não é tudo, não é a salvação do trabalho. Metodologias não garantem eficiência, mas, sim, a postura profisisonal é que a possibilita.

A aquisição da representação escrita da linguagem tem sido tradicionalmente considerada como uma aquisição escolar. O conhecimento tem início, contudo, no período pré-escolar e portanto, igualmente, a aquisição da língua materna. Há uma evolução da escrita na criança que é influenciada pela ação das instituições educativas; há uma psicogênese nesse domínio (existem etapas sucessivas que são interligadas em termos de mecanismos constitutivos que justificam a seqüência dos níveis sucessivos).

Emília Ferreiro Piaget
Pré-silábicaSilábicoSilábico-alfabéticoAlfabético Sensório motor (zero a dois anos)Pré-operatório (dois a sete anos)Operatório concreto (sete a doze anos)Operatório formal (doze e acima de doze anos)

Piaget Para Piaget, as trocas de níveis dão-se em nível interno, intercambiáveis em relação às fases propriamente ditas (ver box acima). Encontramos assim três níveis ou funções da teoria piagetiana. São elas a assimilação, a acomodação e a adaptação. Ocorre assimilação quando o sujeito estrutura e/ou transforma o meio externo de acordo com as suas estruturas internas, acomodação quando o meio pressiona o sujeito, gerando um desconforto no mesmo, o que faz com que o primeiro reorganize suas estruturas internas. A adaptação é o caminho, o intermédio entre a assimilação e a acomodação.

Psicogênese da língua escrita

1º período do nível pré-silábico; 2º período pré-silábico; 3º período silábico

Fonetização período da escrita silábico-alfabético

Alfabético

Antes do primeiro período a criança confunde letra e desenho. O que caracteriza o primeiro período é justo a distinção que a criança fará entre letra e desenho.

Fase icônica – o sol se confunde com o desenho do sol

1º período do nível pré-silábico – a criança entende que desenho não é escrita ou, melhor ainda, tudo que não é desenho é escrita. A primeira relação da criança com a escrita é o desenho. A criança não sabe ainda que a escrita traduz a fala.

Assim, se a criança ver o desenho de uma árvore ela dirá árvore, mas se for apenas escrito “árvore” ela não lerá, porque associa firmemente o que se diz à imagem, e não à escrita. Em tal período a escrita não é uma representação da realidade.

Aqui a criança “lê” cavalo. A escrita faz parte do objeto-animal cavalo.

Cavalo

Aqui a criança não “lê” cavalo, porque ela não relaciona a escrita com o objeto-animal cavalo. Em outros termos a escrita depende da presença pictórica do objeto, sem a qual ela perde o sentido e assim também o objeto. Nessa fase a criança entende que a escrita tem no mínimo três caracteres; os símbolos não podem ser repetidos e é necessário um contexto, representado por um desenho, para contextualizar a escrita.

‌ Ộَ

2º período do nível pré-silábico – Aqui, a criança passará a dispensar a imagem. A escrita passa a ser entendida como uma representação da realidade. Um dos motivos para o abandono da imagem é o fato de que a criança entende que não há um repertório tão imenso para dar conta da escrita. A criança passa a se preocupar com a qualidade da sua escrita;  agora os caracteres podem ser repetidos desde que os conjuntos sejam diferentes. A criança irá trabalhar comanálise combinatória, no sentido de formar tais conjuntos empregando ou não os mesmos caracteres. Um outro fato interessante é que a criança passa igualmente a se interessar pelo fato de que ela escreve uma palavra de um jeito e o seu colega escreve a mesma palavra de outro modo.

Sol                           бЇжк׃

Pirulito                     ׃кбж

Casa                         кЇж׃

No final do 2º período dá-se o realismo nominal, ou seja, se o objeto a ser representado é grande, haverão mais caracteres; se pequeno menos caracteres. A criança se desequilibra e percebe que esse tipo de escrita não se sustenta. A diversidade de escritas referidas pelos colegas é uma das fontes desse desequilíbrio. A criança não tem ainda conservação quanto à representação da escrita.

3º período do nível silábico é a fonetização da escrita, a criança se dá conta que a escrita representa efetivamente a fala.

No silábico inicial a criança pode trabalhar com signos, com caracteres e misturá-las com letras.

Escada           Α ‎  Ụ џ

Tatu                ₫ ọ

No silábico estrito a quantidade de sons é associada à escrita, mas a criança não se liga ainda nas letras em si.  Cad som emitido corresponderá a um signo correspondente.

Escada 9u#

Cadeira ?P *

Silábico com valor sonoro a criança, aqui, além de prestar atenção na quantidade de signos em relação aos sons emitidos, irá qualificar sua escrita, quando aparecerem as letras e seus sons em relação as palavras.

Escada EAD / EAA / ECD

Cadeira CDR / ADR / CRA

Pirulito PRLT/ PrtO

O nível silábico-alfabético é um híbrido entre o silábico e o alfabético

Escada ECDA

Cadeira – CADRA

Massa – MAS

Pirulito – PIRLTO

Nível alfabético se caracteriza pela transcrição fonética (a criança escreve como ela fala – não liga para convenções ortográficas)

Caza Jenti Muintu Leiti

Letramento

O homem possui linguagem emocional e inteligência prática. Desenvolve funções psicológicas superiores como a linguagem e a capacidade de operar com signos.  As mediações entre o homem e o meio ambiente se dão através dos instrumentos e dos signos. Tais mediações são históricas, sociais e culturais. Para o letramento a linguagem é um sistema diferenciado de comunicação; para Enília Ferreiro, que segue a linha piagetiana, a linguagem é um sistema de representação da realidade.

Letramento: a linguagem é a origem de tudo (Vigotsky)

Linguagem oral= sistema de simbolização de 1º grau.

Linguagem escrita= sistema de simbolização de 2º grau

A escrita tem um ponto de partida que é a fala, sendo a mesma, portanto, referência de comunicação.

F1 = fala pré-letrada.

E1 = escrita que transcreve a fala.

E2 = escrita convencional

F2 = a fala torna-se letrada

F1 è E1 è E2 è F2

Scribner Cole definem letramento hoje como a utilização da escrita nas práticas sociais, ou seja utilizar a leitura e a escrita no cotidiano. Letrado é quem se relaciona com a leitura e a escrita cotidianamente.

A estrutura da fala é diferente da estrutura da escrita.

Literacia é a capacidade de processamento da informação escrita na vida cotidiana. A pessoa não lê e não escreve, mas dá significado aos signos, faz inferências. Para o letramento, a alfabetização é o domínio da tecnologia da decodificação da língua. Considera-se a alfabetização inserida na literacia, que está contida no letramento.

Agências de alfabetização são modelos ideológicos que entendem que a estrutura cognitiva é dependente das mesmas ideologias.

Modelo Autônomo tem uma história de mais de 300 anos, e ideológicamente separa os que lêem dos que não lêem. Aqui só importa o texto em si e sua lógica interna, desconsiderando o contexto onde foi produzido o mesmo. Ler o texto é o que basta, sem qualquer outro significado ou função. O alfabetizado é considerado uma pessoa mais evoluída, mais inteligente que a não alfabetizado. Dessa forma, produz-se estamentos de poder dentro da escola. O discurso do Modelo Autônomo é excludente. Aqui a abstração é derivada da escrita, e não o contrário.

O Modelo Ideológico de Street diz que as práticas do letramento são relativas, e não absolutas. A escrita é fala, é poder. Valoriza a oralidade e entende a escrita dentro de uma perspectiva funcional. Para tal modelo a escrita é mutante, pois atrelada aos eventos sociais onde a mesma ocorre. A teoria da equilibração piagetiana embasa a psicogênese da língua escrita, de Ferreiro, enquanto a zona de desenvolvimento proximal de Vigotsky embasa o letramento.

Hilton Besnos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s