Sobre o papel social da matemática: experimentando possibilidades


 

Sobre o papel social da matemática: experimentando possibilidades

 

Sou professor da rede municipal de ensino de Porto Alegre e durante minha experiência em sala de aula, constatei que há uma predição de que a matemática é algo que irá dificultar a vida escolar dos estudantes. Sinteticamente, podemos abordar dois pontos. O primeiro se refere especialmente ao rigor da linguagem matemática, o que, para muitos, é simplesmente um tormento. O segundo se refere à disciplina enquanto filtro social.

A escola pretende que o estudante aprenda matemática (e não só ela) em um determinado tempo e seguindo um padrão que envolve um tipo “especial” de raciocínio, dito lógico-matemático. Então, em princípio, o que é esse raciocínio? Basicamente é relacional, através do qual você explora possibilidades reais de encontrar meios para satisfazer determinadas situações que comumente são chamadas de “problemas”. Ora, uma boa parcela das pessoas gostaria de simplesmente não ter problemas para resolver, ou, pelo menos que eles fossem minimizados. No entanto, quando se pensa em matemática enquanto disciplina escolar não é possível renunciar a uma linguagem específica e formal e nem podemos escolher que tipos de problemas nos serão ofertados a resolver. Aliás, na vida também parece ser assim. Poderíamos pensar então a matemática como uma ferramenta para resolver problemas, e especialmente, para decidir.

Talvez esse seja o principal enfoque negado aos estudantes quando se pensa a matemática, ou seja, que ela é inerente ao processo decisório. Quando se estuda matemática somos chamados a nos manifestarmos. Não podemos nos negar da decisão, e esta implica em riscos. Uma escola que historicamente demoniza o erro enquanto possibilidade real e mesmo querida durante o processo de aprendizagem está, mesmo que de modo sub-reptício dizendo: a matemática é um problema. E nós não queremos problemas, já os temos demais. Talvez esse seja um aspecto bastante importante quando os alunos tem contato com a disciplina: a própria cultura escolar e a cultura comunitária não enxergam na matemática nada mais do que problemas. A matemática assim posta e entendida, é difícil, é complicada, é um manancial de frustrações e de erros.

Uma das principais tarefas do professor é tentar desmontar essa linha argumentativa e para isso ele terá de ter um manancial de informações que lhe permita demonstrar que a matemática faz parte da vida, e não que a matemática foi uma invenção para dificultar a vida das pessoas. Normalmente, especialmente no ensino de primeiro grau, os próprios professores de outras disciplinas dizem não gostar da matemática.. De uma forma ou de outra, há uma valência negativa que se agrega a idéia e, portanto torna nebulosa a relação afetiva que é indispensável no processo de ensino e de aprendizagem. Professores que pensam desta forma estão reduzindo o raciocínio lógico-matemático a um formulismo que é muito menor do que as interações relacionais que presidem tal raciocínio. Os mesmos alunos e professores que execram muitas vezes a matemática são convocados diuturnamente a tomarem decisões que podem ser extremamente complexas, relacionais e que envolvem muitas vezes uma gama de variáveis bastante significativas, mas simplesmente não atinam que estão lidando com um raciocínio lógico-matemático.

Estranho, mas real.

Essa negatividade agregada à disciplina é o que o professor enfrenta quando está em sala de aula e, contente, diz que é professor de matemática. O encanto termina aí. Não há outro modo de motivar o aluno senão desmontando essa argumentação formal. É necessário, então construir umas outras relações afetivas com a disciplina, mostrando que somos incessantemente informados por padrões matemáticos e, especialmente, enfatizando quais as centenas de aplicações da mesma no dia-a-dia e que passam por nós sem ser percebidas. Estamos em um mundo simbólico, mas não nos damos conta disso. Estamos em um mundo no qual parecemos simplesmente não raciocinar sobre como, porque e de que modo vivemos nosso cotidiano. Simplesmente embora respiremos raciocínio lógico-matemático todo o tempo, o negamos em razão de nosso próprio desconhecimento.

Essa perversidade somente é quebrada quando há um compromisso em quebrá-la e isso é papel do professor, não apenas no sentido da informação, mas, especialmente, da formação.

O papel social da matemática é também confundido com o papel de filtro social, exercido através de concursos públicos e privado, através de concorrências e outras instâncias que pretendem, senão verificar quem tem competência e capacidade para assumir determinadas funções (como, por exemplo, a de estudante universitário), mas, especialmente, de eliminar quem, segundo uma linguagem de privilégio, não tenha tal capacidade. Quem elimina em concursos? Física, matemática, química, enfim, as ciências duras. Esses são os filtros sociais. A matemática, então se debate e se reconhece como algo especial. Relevante, temida, não fazendo parte de um mundo soft. Novamente, aqui, o papel da formação é primordial.

As dificuldades em sala de aula nada mais são do que o reflexo do que temos fora dela. É aí, é em um campo sobre o qual muitas vezes não há a interferência explícita do mundo escolar, que os conceitos sociais são formados. No entanto, caberia à escola um melhor gerenciamento pedagógico e um maior envolvimento com as questões reais de aprendizagem, de modo a enfatizar não somente as obrigações às quais culturalmente se atrela mesmo a noção de matemática, mas, igualmente, atribuir à disciplina condições didáticas e políticas do exercício do pensamento lógico-matemático de modo a enfatizar o que ele tem de melhor: a capacidade relacional, o foco balanceado na solução de problemas e a criação de novos ambientes de desenvolvimento mental.

Hilton Vanderlei Besnos,

Professor da EMEF Chico Mendes.

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