Gritando!


Uma característica que me impressiona bastante e que contribui para o meu processo de desgaste diário e de estresse é a gritaria, o berro, o falar alto na escola onde trabalho. Aqui isso é comum, a convivência com vozes humanas que não tem nenhuma polidez. Como a comunidade que é atendida pela escola tem problemas de toda a ordem (embora haja uma sensível melhora geral, se pensarmos em quatro ou cinco anos atrás), incluindo-se aí a violência patrocinada especialmente pelos grupos de tráfico, pela agressão doméstica, pela desocupação, e pelos problemas típicos de uma comunidade acossada pelo dia-a-dia, não é de se esperar que possamos encontrar grupos de adolescentes que se destaquem pela valorização da aprendizagem e pela urbanidade; simplesmente seguem um modelo de convivência que é muitas vezes cruel.

Dentro desse cenário o gritar, o ameaçar é quase que imperativo. Maiores ameaçam menores, que choram. Há uma disputa pelos espaços de poder e muitas vezes a escola sugere a idéia de confinamento consentido, acrescido de um panóptico legalmente instituído. Não há como esquecer Foucault, assim como não podemos nos furtar a citar Bauman, que, em “Globalização: conseqüências humanas” refere a criminalização dos que não tem acesso ao meercado de consumo, dos que se encontram marginalizados e muitas vezes são cooptados pela violência. “Vigiar e punir” de Foucault pode lembrar esse clima de tensionamento, esse simbólico agressivo de que igualmente trata Bourdieu. As pessoas, enfim, falam alto, gritam e ao fazê-lo reeditam, com um sucesso razoável o episódio bíblico da Torre de Babel, onde a descoberta de novas línguas pelos povos envolvidos é apenas uma metáfora para o processo geral do desentender-se e da impossibilidade real de comunicar-se.

É claro que também entoamos hinos e participamos de situações festivas dando gritos e hurras de alegria. Imaginemos, por exemplo, uma formatura ou um estádio de futebol. A diferença básica está na intenção: aqui não há a intimidação, a execração, a malícia real encoberta (nem sempre) por uma tênue camada de verniz civilizatório, a ameaça velada, a agressividade nem sempre contida. Gritamos para expressar nosso contentamento, nossa felicidade, e confraternizamos. No caso em que nos referimos no início há um comprometimento bastante grave do ambiente de aprendizagem, o sacrifício deliberado de um ambiente educador, cujos maiores prejudicados são os estudantes que efetivamente vem à escola para aprender e que ficam à merce de um centário que conspira francamente contra as suas pretensões. Se o processo de ensino e de aprendizagem já é insitamente complexo, mais dificuldades se agregam quando há um tensionamento anormalmente grave, no sentido da agressividade e de um local que se torna quase uma ameaça em si mesma.

A cultura da escola pode reforçar ou não tal cenário, mas não depende somente da mesma resolver, de modo isolado, todas as questões das mais diversas ordens que a comunidade escolar atendida ou que a sociedade – lato sensu – lhe impõe. No entanto, parece razoável que a própria escola se entenda e faça a sociedade compreender de uma vez por todas, que ela, escola:

a) não é um clube social, embora seja interessante que concorra ali um bom relacionamento, de modo geral;

b) que a escola tem um fim precípuo, que é o de proporcionar uma educação formal de qualidade, pelo que depende igualmente da educação não formal prestada por familiares, comunidade e outros meios de interação social;

c) não é pai nem mãe, nem babá substituta, pelo que não lhe é possível assumir esses papéis intransferíveis e inderrogáveis;

d) não é área de confinamento nem depósito ou guarda temporário de estudantes;

e) não é um oásis nem um templo, portanto não conta em seus quadros com salvadores de carteirinha nem com devotos compassivos;

f) ela não opera como operava há quarenta anos atrás, e que a idéia romântica agregada ao papel da escola não é mais que isso, uma idéia romântica e, finalmente que

g) no espaço escolar não existe a solução para os problemas mundanos, mas que, sem ela, os problemas mundanos poderiam ainda ser maximizados.

A agressividade é um problema que pode ocorrer na escola e que também pode ser incentivado ou mesmo patrocinado pela instituição, na medida em que pode ser uma disseminadora da mesma violência que, pretensamente, busca atacar. A escola também grita. Às vezes por ajuda, mas também comemorando lamentavelmente sua auto-comiseração.

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