Modelos epistemológicos


1 – Empirismo – Skinner – Pavlov

2 – Apriorismo – Roger

3 – Interacionismo – Vigotsky, Piaget

A lei do talião é hoje imensamente criticada por todos os seus aspectos aparentemente rudes. Tal lei, anterior ao cristianismo, foi suplantada por aquele, em termos ideológicos e humanitários. Não há dúvida quanto a isso. No entanto o que menos se comenta é que ela foi um avanço, pois, antes da mesma, tribos inteiras promoviam massacres comuns, e onde deveria existir um crime, uma vítima e um criminoso, passava a ocorrer linchamentos, torturas e toda sorte de arbitrariedades sem nenhum sentido. A Lei do Talião circunscreveu o ódio da vingança (ou como queira se falar, se não gostarmos dessa expressão) a figura do pretenso criminoso, ou seja, o raio de alcance da vendeta passou a ser muito menos do que era até então.

Pois me lembrei da lei do talião ao iniciar este trabalho a respeito dos modelos epistemológicos educacionais, especialmente Skinner e Pavlov. Mas poderia ter-me lembrado também de Isaac Newton (“a toda ação há uma reação de mesma intensidade e sentido contrário”) ou, enfim, de qualquer outro sítio que abrigue uma situação de encadeamento, ou seja, ao comportamento “a” corresponderá uma resposta “b”. Para Skinner a aprendizagem dá-se através da formação de hábitos.

Pavlov não era educador, mas suas experiências foram adaptadas ao ensino, na conformidade do que adotou Skinner. O modelo skinneriano é extremamente aplicado porque é um reflexo de um modo social que impera no mundo atual. É um modelo que implica em que se diga, momento a momento que não há nuanças, que não há zonas de indecisão, mas que somente existe à noite e o dia, a punição e a recompensa, o fazer ou não-fazer, tudo sendo uma decorrência do circuito de informações que atualizam o complexo de estímulo-resposta.

O sentido do modelo skinneriano é o da adaptabilidade, do ajustamento do aluno ao ícone de uma sociedade voltada para o consumo, e não para a cidadania. Assim sendo, questões como disciplina, avaliação e alto conteudismo passam a ser eixos esperados e pontos de requerimento de um sistema behaviorista.

Isso significa que o empirismo perdeu totalmente sua validade? Significa que devemos execrá-lo? Não, pois os atores educacionais não se encontram isolados do mundo e de sua cultura, especialmente a familiar, que dependendo do substrato social em que se encontre, cria expectativas razoáveis para seus filhos, no sentido da manutenção do status quo adquirido pelo clã ou por sua melhoria, o que inclui melhorias econômicas acrescidas de reconhecimento social. Para as mesmas nada melhor que Skinner, nada melhor ou mais palatável que uma política educacional que irá valorizar tais pontos, no sentido de não ser criativa e indagadora, mas de reproduzir standards sociais.

Por outro lado, e por incrível isso possa parecer, nas escolas públicas em que a clientela é mais despossuída de bens materiais/financeiros e tem altas necessidades sociais desassistidas – acesso à saúde, a educação, ao lazer, a habitação, etc – também ali o modelo mais adotado é o de Skinner, pois o mesmo possui características que reforçam seu caráter de controle sobre os alunos, bastando para isso citar-se o enfoque dado ao conteudismo e a avaliação. Nada melhor para “ser alguém na vida” do que seguir um modelo epistemológico que já foi testado e que já foi considerado “socialmente interessante”. E que atenda aos interesses de uma sociedade consumista.

Não tem tal modelo características de incentivar um pensamento divergente, de onde decorre uma baixa capacidade de crítica e de criatividade, passando muito mais tal modelo a ser reprodutor do standard social do que algo que vá concorrer para a eliminação das injustiças que grassam ao longo dos séculos.

Uma alternativa ao empirismo é o apriorismo de Roger que parte da concepção da tabula rasa. Somos um vazio a sermos preenchidos culturalmente, e nossa educação formal será estruturada a partir do que entendermos ser de nosso interesse preencher, passando o professor a tomar o papel de orientador.

Para Rogers o desenvolvimento é anterior a aprendizagem, o que é absolutamente lógico e congruente com a concepção de tabula rasa. A educação é centrada na pessoa. Consideramos, aqui, a importância do que “vem antes”, do a priori, pois a questão do déficit cultural será, pois, um divisor de águas. Se não tiver o indivíduo melhores condições genéticas, menos possibilidade terá de aprender, conforme veremos.

Em tal concepção educacional ou modelo o professor será um facilitador da aprendizagem. Contudo, aqui também encontramos a questão do déficit cultural, que atribui às classes sociais menos favorecidas uma dificuldade maior em aprender. Embora seja a que se auto-atribui como a mais democrática, a ênfase empirista admite justo esse déficit cultural, que não pode ser provado no sentido em que o apriorismo pretende.

Esse déficit, que seria algo impeditivo à educação das supracitadas classes sociais teria origem na própria definição de tal modelo, que entende existir uma bagagem hereditária que não pode ser ocultada, e que se revela como dificultadora da própria aprendizagem. Em outros termos, quando o aluno fosse “aprender por si mesmo”, partiria de uma situação de capitis diminutio, se é que assim podemos dizer. Ou de menos-valia, na concepção de Marx.

No entanto, o modelo empirista não propõe qualquer alternativa a tal déficit, mesmo porque aqui o papel do professor é unicamente o de auxiliar o aluno, sem intervenções maiores no aspecto pedagógico, cuidando tão-só de providenciar àquele o que for entendido necessário para tal auto-aprendizagem.

O modelo de Roger é criticado em razão do que se denominou laissez-faire ou seja, o não-direcionamento da atividade pedagógica, de modo que não detém o sistema de qualquer sentido de controle. Na verdade Roger criou sistemas visando administração enquanto atividade profissional. Igualmente o apriorismo , contrariamente ao empirismo, não usa livros didáticos. Aliás, nem poderia faze-lo, visto que não segue uma linha conteudista, mas tão-só replaneja suas atividades didáticas na conformidade dos interesses dos alunos.

O interacionismo possui em Vigotsky e Piaget seus pilares, embora ambos tenham visões diferentes entre si do que seria um modelo epistemológico de ensino. Aqui, contrariamente aos modelos anteriores, temos um ambiente alfabetizador para as salas de aula, no sentido em que todos os recursos serão usados e voltados para a atividade educacional.

Para Piaget é necessário um processo de maturação para que se dê o desenvolvimento, que é pré-condição para a aprendizagem. Piaget entende que a maturação e portanto a aprendizagem dá-se não de forma indeterminada, mas seguindo determinados critérios físicos e biológicos, de onde advém seus estágios considerados universais, no sentido do desenvolvimento de tais capacidades precípuas para a aprendizagem, que será sempre menor que o conhecimento.

Para Piaget o pensamento precede a linguagem, e a questão de disciplina é uma questão moral.

Diferentemente pensa Vigotsky, e por isso ambos não podem ser alinhados como se fizessem parte de uma mesma linha de entendimento. Para Vigotsky aprendizado e desenvolvimento se inter-relacionam, e a questão da aprendizagem é muito mais uma conseqüência histórico-cultural do que simplesmente a adoção de outros modelos pré-orientados.

Descabe totalmente para Vigotsky, por exemplo, a teoria de déficit cultural adotada pelo apriorismo do qual Roger é o principal defensor. Inexiste tal possibilidade para Vigotsky, que apostará sempre na historicidade do saber construído e na criatividade e senso crítico dos saberes em construção.

Vigotsky é mediador, mas, se no empirismo a mediação tem um caráter dúplice (premiação para o acerto e punição para o erro), para V. é apenas um dos caminhos naturais da construção do conhecimento, pelo que sempre terá um sinal positivo.

Também se descarta em V. ser o professor um orientador no sentido apriorístico. Deve o professor ser um desafiador constante, um desacomodador pedagógico, que instigue em seu aluno um crescimento constante.

Para V. o aluno deve aprender com a disciplina, de modo que consiga autogovernar-se e não ser tratado como um menino mimado, por um lado, ou como um enfant tèrrible, por outro.

Segunda-feira, 10 de junho de 2002.

Hilton Vander lei Besnos.

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