Conhecer e consumir?


Comecei a leitura de Vida para Consumo, de Zygmunt Bauman. O autor analisa três aspectos da sociedade ocidental de consumidores: consumismo e consumo, a própria sociedade de consumidores e a cultura que justifica tal sociedade. Profecia auto-anunciada: vou aprender muito, o autor é brilhante. Dele já li Amor Líquido e Globalização: as conseqüências humanas, ambos muito interessantes, sensíveis e agudos nos temas que trata. Recomendo e bastante.

Bem, estava em aula e o tema era racionalização de radicais; ia começar a minha fala quando um aluno anunciou que “não vou aprender porque isso é muito complicado”. Ele estava comunicando, antecipadamente, que não iria aprender, fato com o qual eu deveria me conformar. Mas, afinal, o que é algo complicado?

O complicado, o complexo, é o que pode nos induzir facilmente ao erro. Mas a dificuldade, o que havia de fundo é que, para entender e buscar alternativas de solução ao complexo, temos de desenvolver algumas habilidades (para outros, qualidades): a de sermos atentos e de nos concentrarmos buscando manter o foco no assunto que estamos examinando. Além disso precisamos de disciplina, vista aqui no sentido de criarmos e mantermos a melhoria qualificada de um cenário propício à aprendizagem, muitas vezes e preferencialmente desenvolvido pelo próprio estudante. E como condição primeira o desejo de aprender, normalmente associado à significação e aos valores que irão (ou não) se agregar em meio ao processo de aprendizagem.

Mas, afinal, o que tem a ver Bauman com o que escrevemos acima? Ora, o fato de não sermos mais, em grande parte, uma sociedade de produtores (ligados especialmente ao dever do trabalho, da produção e da produtividade) e sim de consumidores (especialmente ligados ao consumismo no mais das vezes alienante e alienado, à fruição de bens e de prazeres imediatos, mas vãos), implica em que “Entre as maneiras com que o consumidor enfrenta a insatisfação, a principal é descartar os objetos que a causam”. Citando Eriksen, prossegue Bauman (p. 57): “Em vez de um conhecimento organizado em fileiras ordenadas, a sociedade de informação oferece cascatas de signos descontextualizados, conectados uns aos outros de maneira mais ou menos aleatória. …. Apresentados de outra maneira, quando volumes crescentes de informação são distribuídos a uma velocidade cada vez maior, torna-se mais difícil criar narrativas, ordens seqüenciais de desenvolvimento. Os fragmentos ameaçam se tornar hegemônicos. Isso tem conseqüências sobre as formas como nos relacionamos com o conhecimento, o trabalho e o estilo de vida em um sentido amplo”.

Em sociedades regidas pelo consumo e pela competição é indispensável o entendimento não apenas de um fato, mas das possíveis variáveis que o constituem. Quando um estudante diz que “não vai aprender” porque o assunto “é complicado”, bloqueia as suas potencialidades e se auto-exclui do processo individual de aprendizagem. Essa passividade em relação ao objeto a ser conhecido pode se rotinizar e tornar a inércia sedutora e artificialmente conveniente, influenciando negativamente a auto-estima, erodindo-a, além de reforçar dependências. Instala-se um processo que naturaliza a acomodação, mesmo em nichos desconfortáveis, mas convenientes quando se trata de reforçar a culpabilização de outros pelas nossas ações ou inações. Envolvido pelas inesgotáveis ofertas de uma sociedade hedonista, voraz e veloz, o estudante tende a simplificar e reduzir o complexo, barganhando consigo próprio seu processo de conhecimento.

Por outro lado, o conhecimento não se dá nos moldes preconizados pela sociedade de consumo.

Primeiro, ele não pode ser adquirido e consumido vorazmente. Segundo, o estudante não pode escolher, em princípio o que estudar, porque esta prerrogativa pertence a um sistema gestor educacional que atende interesses de Estado. Terceiro porque aprender demanda esforço e tempo, sendo este último seqüencial, exigindo planejamento de longo e médio prazos e, por último, aprender demanda uma formação não apenas cognitiva, mas igualmente social.

Os pontos acima vão de encontro a uma sociedade de consumidores. O conhecimento exige maturidade, e os efeitos buscados se dão a médio ou longo prazo, se pensarmos de um ponto de vista estritamente material. Ora, estamos em uma época na qual o prazer da satisfação deve ser imediato, subsumindo-se especialmente à não privação das vontades individuais. Conhecer exige bem mais do que isso: requer que prazeres sejam adiados, que vontades sejam contidas, o que não condiz com um momento instantâneo de aquisição de prazeres.

O processo educativo formal, embora possa atender a pleitos comunitários, alinha-se, em seu aspecto macro, com objetivos políticos estatais, formatando um currículo que visa a atender tais demandas. Ênfase em determinadas disciplinas do conhecimento, bem como os recortes epistemológicos nas ciências (e que serão traduzidos sob a forma pedagógica do currículo formal) atendem a interesses que extrapolam meras vontades individuais. Pensemos por exemplo, nos clássicos exemplos das matemáticas e das expressões da língua nacional. Há toda uma expectativa no sentido tecnológico e na busca de atendimento a uma demanda de mercado que raramente são explicitadas. De todo modo, a interferência do estudante em tal lógica é basicamente nula, especialmente nos cursos fundamentais e de ensino médio.

Ao analisar a sociedade consumista, Bauman cita Malfesoli, que fala sobre um tempo “pontilhista, no qual “ …. não há espaço para a idéia de ‘progresso’ como o leito vazio de um rio sendo lenta mas continuamente preenchido pelos esforços humanos… essa imagem é substituída pela crença de que… o objetivo ideal pode e deve ser alcançado, talvez no momento seguinte, ou mesmo neste exato momento”. Ocorre que conhecer e aprender requer um tempo linear, caracterizado pelo encadeamento de fatos, pela lógica de progresso no qual há uma sucessão de demandas que implicam em desacomodação e em novas acomodações, dentro de padrões de coerência no qual se perceba claramente responsabilidade e a assunção de novos compromissos.

Por fim, o aprendizado não se dá apenas do ponto de vista cognitivo, mas social; como aprender não é somente captar informações e processá-las, mas compreendê-las dentro de uma visão crítico-social, é imprescindível que o outro participe do processo não apenas como um coadjuvante, mas como protagonista no próprio processo de conhecimento. Aprendemos com o outro e ensinamos com o outro; nada pode ser dissociado, e por isso nossas estruturas mentais, emocionais e cognitivas não seguem o caminho da dissensão; não são apartadas entre si, não podemos aprender somente com o nosso corpo e com as nossas experiências, mas com a interação com o outro. Aprender e compartilhar, esse é nosso caminho bio-psíquico para o conhecimento e ele, sem dúvida, não é solitário.

A simplificação do complexo somente pode ocorrer quando temos a possibilidade real de entendermos não apenas as partes do todo, mas sim como o todo interage em diferentes circunstâncias.

Segundo Maimônides, rabino da Idade Média, “o simples está na superfície, mas para compreendê-lo teríamos nós mesmos de sermos muito complexos.” E isso meus amigos(as), ajunto eu, já é metafísica, algo que julgamos tão afastado de nós mas ao mesmo tempo tão singular e tão próximo que sequer notamos sua presença….

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