E as cotas? Gostaria de ter errado.


 

Escrito em 2006, julho ou agosto

Dias desses na escola, tivemos um relato de duas colegas que assistiram a um workshopp promovido pelo Governo Federal a respeito da relação entre educação e etnia. Ambas fizeram um relato para os professores da escola, e eu assisti aos mesmos (um no turno da tarde, outro no turno da noite). As discussões que se seguiram eram razoavelmente prevísíveis. Alguns colegas dizendo que a partir do momento em que os negros aceitam serem chamados de afro-descendentes ou aceitam serem privilegiados através das cotas para cursar universidades públicas, estão sendo tão discriminadores quanto outras etnias.

Eu, particularmente penso que este país deve muito aos negros, e isso em duas vias: deve tanto em razão do que negligenciou, discriminou e desancou socialmente os mesmos, por um lado, e pelo proveito enorme e incalculável que a cultura negra trouxe a este país. Foram liberados da escravidão física para continuarem vivendo uma escravidão econômica, cultural e ideológica. No entanto, pensei eu, discordando de alguns dos meus colegas professores – nada tenho de dados reais neste instante que corroborem a minha posição, e não a deles. Pois um mês depos, cai nas minhas mãos a edição do Jornal da Cidadania, do IBASE.

Sem dúvida, eu gostaria muito de estar errado. Há situações em que não é nada confortável estarmos corretos. Essa, sem dúvida, é uma delas.

“Relatório lançado em 2005 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostra que 64% da população de baixa renda no Brasil é composta por pessoas negras, aproximadamente 25 milhões (podemos ver que a pobreza no Brasil tem cor); quase 80% de jovens assassinados, entre 16 e 24 anos, são negros e uma mulher negra ganha quatro vezes menos que um homem branco. E mais: dados coletgados entre as 120 das 500 companhias de maior faturamento mostram que apenas 3,4% de funcionários(as) em cargo executivos, 9% de gerentes, 13,5% de supervisores(as) são negros(as). Para um grupo que representa 46% da população brasileira, isso é pouquíssimo.”


FONTE: CERQUEIRA, Luciano, inVocê já descobriu, Jornal da Cidadania, IBASE, maio 2006. pag. 3.

 

ATUALIZANDO O POST

EM 01-11-07

Amiga nossa, agora em 2007 (esse post foi escrito mais de um ano antes|) ingressou na PUC RS, para cursar Administração, utilizando o sistema de cotas. Negra, trabalhadora, casada, extremamente bem educada mas sem nenhuma chance, em princípio, de ingressar numa universidade. Agora, está fazendo seu curso superior, e tenho a certeza de que toda a sociedade se beneficiará com isso.

É claro que as discussões continuam, e as reações também. Na UFRGS, por exemplo, as resistências ao sistema de cotas foram bastante incisivas, partindo de grupos bem localizados de professores, para “resguardar os interesses da universidade”. Balela. Se a Universidade é pública, deve repensar o fato de há décadas e décadas atender somente os filhos das classes médias e dos setores mais abastados da socidade, brancos, que  podem pagar por cursinhos pré-vestibulares, etc.

A sociedade, de modo geral, tem de repensar sobre um caminho de inversão. Considera normal que um estudante curse no ensino fundamental e no ensino médio escolas particulares e, no ensino superior, curse uma faculdade ou universidade pública. Enquanto isso, o filho do trabalhador faz exatamente o inverso: cursa o ensino fundamental e o ensino médio nas escolas públicas e, quando finalmente consegue ingressar no mercado de trabalho, quando consegue, aí tem de pagar a universidade ou a faculdade privada. Ou seja, quem mais precisa é quem menos se beneficia.

Esse sistema de exclusão que tem base em uma ideologia de domínio social tem de ser, aos poucos, minimizada.

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