Imbroglio


 

Há pessoas que sentem prazer em incomodar, aborrecer os outros e não deixá-los trabalhar. Há todo um cinismo concatenado aí, de todo modo buscando desestabilizar um quadro que deveria ser mais ou menos harmonioso. Em sala de aula, os movimentos são cíclicos mas os comportamentos, previsíveis. O start desses hábitos podem ter iniciado há muito tempo, mas continuam do longo de todo um processo que deveria ser de aprendizagem; como esta não ocorre unicamente na escola, compreende-se que os mesmos são culturalmente estruturados ao longo de uma história pessoal. Não é obra de ficção, mas a realidade de cada qual é trazida à baila no processo educacional formal. Em suma, as pessoas repetem padrões. Poderão ou não aprender com eles, mas isso dependerá não apenas de tal reconhecimento, mas de situações que possam ou não ser apreciadas ou que as levem para alguma posição melhor do que a que se encontram, a partir do próprio conhecimento dos mesmos padrões, o que forçosamente se dá a partir de seu autoreconhecimento e da melhoria de sua autoestima.

Os padrões de comportamento influenciam na própria possibilidade de aprendizagem. Cada vez mais os professores tem de adotar posturas de autoridade para poderem trabalhar, pois as demais instâncias que poderiam ter peso de orientação no aprendizado se omitem, sendo massa de manobra nas mãos de filhos, especialmente de adolescentes que atravessam essa fase de vida sem um referencial consistente no que respeite a valores que deveriam ser adquiridos seja através da família ou da comunidade onde transitam. Adolescentes simplesmente se autodeterminam com base na resistência ou na omissão aos papéis sociais e familiares; sobra portanto, ao professor, o papel psicológico de corte, que deveria ser exercido pelo pai.

Por outro lado, o professor passa a ler sua imagem colada a uma autoridade que tanto os adolescentes querem negar quanto a papéis que esses mesmos profissionais não vêem como cumprir, nem tem desejo de que isso ocorra. O papel profissional do professor escorrega, então, para uma perigosa relação falsamente familiarizada e que não raro se torna artificiosamente naturalizada na medida em que aquele aceite epítetos como “tio”, “tia” ou se porte como se coubesse a si papéis sociais eminentemente paternos. A aceitação do professor passa a ser identificada com uma dose dupla de autoridade: a dos pais, que os adolescentes aprenderam a mitigar e manipular e aquela que deriva de um conhecimento curricular, que, para o bem ou para o mal, pouco interessa a muitos dos seus alunos, imersos em um mundo no qual dinheiro, consumo, sexo e poder foram elevados a uma condição suprema. De todo o professor vê a sua imagem profissional associada à repressão, especialmente em relaçâo àqueles que se habituaram a viver uma violência objetiva ou simbólica.

Nesse quadro, devemos admitir, por forçoso, que a escola igualmente produz violência simbólica, por um lado, e muitas vezes se omite quando há violência física. Ao proceder desse modo, simplesmente torna ainda mais exacerbado valores que tendem a redimensionar a incapacidade à sociabilidade, à convivência e à criação efetiva de um ambiente educador. Em tal cenário, aqueles alunos que buscam conhecimento na escola, assim como seus professores, tornam-se reféns de um ambiente no qual valores como ética, solidariedade, respeito ao outro, cidadania e polidez simplesmente foram volatizados pela estupidez de uma cultura que torna os homens cada vez mais ignorantes em relação a si mesmos e mais predadores em relação à comunidade que habitam. Há uma circulação cada vez mais densificada de critérios que apontam para uma negatividade no convívio social, o que obriga a que, bem prematuramente, violências sejam suportadas, máscaras sociais sejam empunhadas e, dentro de um processo de injustiça inominável, se aprofundem fossos entre aqueles que deveriam teoricamente buscar o conhecimento para uma melhoria cultural e aqueles que ali estão para, igualmente de modo teórico, serem vetores de tal processo. A estigmatização é real e, se de vez por todas, as influências extra muros ingressaram nas escolas, estas se quedam por aí, paralizadas ante um mar normativo e positivista ao qual interessa bem mais o assistencialismo e os métodos de contenção social do que os parâmetros de aprendizagem que deveriam presidir os movimentos das escolas.

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