Matemática e aprendizagem


 

Matemática exige disciplina e não adianta tentar jogar conhecimento matemático na zona de memória, como estratégia principal para entendê-la. Matemática é filha dileta da filosofia, encantamento de Descartes e tendente à conceitualização. Para muitos alunos, a matemática, contudo, é sinal de duas palavras que, semânticamente, tem uma conotação negativa: problema e erro.

São poucos os que conseguem ver em uma situação-problema possibilidades reais de crescimento, de oportunidades, de melhoria de auto-estima. Referindo a palavra à matemática, uma boa parcela dos alunos associa o problema a algo a ser evitado, a ser afastado, a obstáculos incontornáveis. Problemas são sempre chateações e é esse paradigma que orienta a visão do aluno ao deparar com algo que irá forçá-lo a abandonar sua zona de conforto.

Quanto ao erro, essa é uma palavra totalmente estigmatizada; nossa civilização judaico-cristã apenas tolera o erro por não ter melhor alternativa. No fundo, o que de melhor poderia ocorrer seria que ele fosse de uma vez por outro expurgado: como isso não é possível, a convivência é a melhor alternativa e, sem dúvida, a única possível. Por outro lado, não estamos habituados ao duplo significado da palavra: errar também pode ser caminhar, trilhar, mas mesmo assim, o jugo pode ser posto, se este caminhar não for orientado, disciplinado, direcionado, se não for aquele com predestinação certa e sabida.

E essa orientação é determinada pela expectativa social, em uma época mergulhada entre conceituações mercanicistas e descartianas, onde prepondera a exatidão. Isso ocorre em sala de aula, quando o aluno se vê momentaneamente privado de sua liberdade de perguntar, por se sentir constrangido no sentido de que seu provável erro vá representar algo desviante, marginal do que seria esperado e mesmo passível de julgamento moral. Ao ser chamado de “burro” por seus colegas e perceber a indiferença do professor, o aluno tende simplesmente a renunciar a aprender, para refugiar-se dentro de sua paralisante zona de conforto.

Quando o aluno decidir ou for levado a se afastar da aprendizagem, precisará de um arcabouço psicológico que justifique tal situação. Poderá então tentar justificar para si mesmo tal renúncia; na maior parte dos casos, tal justificativa implica na negação do outro: da escola, dos professores e mesmo de seus colegas. Talvez aí esteja um dos motivos que alimenta a indisciplina, o desrespeito e o desinteresse na escola ou pela escola.

Dentro de tal universo, sem pensarmos absolutamente que a escola igualmente não pratica suas violências simbólicas, o erro maior a ser evitado é, sem dúvida, o distanciamento do processo de aprendizagem. Por outro lado, é totalmente frustrante ao próprio aluno que ele pretenda que seu mero desprezo por uma ou outra disciplina escolar poderá trazer-lhe qualquer tipo de progressão. Isso fica mais claro ainda se ressaltarmos o evidente papel que a matemática e a língua portuguesa cumprem como filtros sociais e de funcionarem como chaves de acesso para aprovações não somente na escola, mas em concursos públicos, exames preparatórios, cursos, etc.

Diz a mais rasa prudência que seria bem mais razoável a convivência produtiva do que a negação estéril em relação ao processo de aprendizagem. No entanto, se vivenciarmos um discurso semânticamente negativo e não houver uma postura didático-curricular que assuma uma visão crítico-social, serão reduzidas as possibilidades de sucesso de encaminhamento de uma melhoria nas relações que tradicionalmente irrigam o aprender matemático.

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