O professor e a didática


O PROFESSOR E A DIDÁTICA

 

Paulo Nathanael Pereira de Souza

“As faculdades de educação estão de um modo geral falhando na sua missão de formar, atualizar e qualificar docentes”Paulo Nathanael Pereira de Souza é doutor em Educação e presidente do Conselho Diretor do Centro de Integração Empresa-Escola (Ciee) Nacional. Artigo publicado no “Correio Braziliense”:Na esfera internacional (avaliação Pisa), o Brasil ocupa os últimos lugares na aprendizagem do ensino, notadamente de português, matemática e ciências. E, nas avaliações, tanto do MEC quanto da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, os resultados têm sido desanimadores, eis que grande número de alunos da 4ª e da 8ª série do ensino fundamental, bem como do ensino médio, se encontram na precária condição de analfabetos funcionais: estão na escola, mas não progridem na absorção do conhecimento.Muitas são as razões do descalabro, entre elas a famosa progressão automática, que acobou por degenerar em promoção automática, em que o professor não ensina, o aluno não aproende e tudo fica bem, porque ninguém é reprovado. Lembram-se de uma mãe desesperada que foi à Justiça pedir ao juiz que decretasse a reprovação da filha, porque, sem nada ter aprendido, estava sendo matriculada pela escola na série seguinte?

Daí que, para mim, com meu meio século de estudos, observações e participações na vida educacional do Brasil (professor, administrador, secretário de Educação, conselheiro estadual e federal de educação, reitor de universidades e tantas cousas mais) o busiles da questão está na formação deficiente e equivocada dos professores. As faculdades de educação estão de um modo geral falhando na sua missão de formar, atualizar e qualificar docentes.

Quando ministrava aulas de mestrado numa das grandes e tradicionais universidades de São Paulo, costumava submeter os alunos, todos licenciados em pedagogia, a testes do tipo: quem pode me dizer o que é educação? Como levar os alunos a identificarem a presença do teorema de Pitágoras no seu dia-a-dia? Quem sabe utilizar- se da internet em sala de aula? E cousas pela rama. Se me fosse possível, um dia, publicar as respostas que me davam, haveria material de sobra para editar uma enciclopédia intitulada: O besteirol pedagógico do Brasil.

Os professores, notadamente no ensino básico, e excluídas as raras exceções, mesmo os licenciados e até pós-graduados, não sabem exatamente o que fazer em sala de aula. Desconhecem as diretrizes curriculares em vigor, não aprenderam a lidar com a tecnologia avançada da educação (EAD e TI), não conseguem relacionar a teoria dos conceitos que ensinam com sua aplicabilidade na prática.

Talvez saiam do curso superior cada vez mais sábios em teorias pedagógicas — sobretudo as que estão a serviço de ideologias da extravagância — , mas incapazes de alfabetizar uma criança.

Essas considerações vêm a propósito da recente pesquisa levada a cabo pela Fundação Carlos Chagas, encomendada pela Fundação Vitor Civita, sobre a presença dos estudos da metodologia do ensino na formação dos professores. Aprender didática é aprender a transmitir o conhecimento e preparar o aluno para a autodidaxia na busca individual do saber, via bibliotecas e computadores. Deveria ser a maior carga horária dos cursos de formação docente. No entanto, a pesquisa constatou que apenas 20,7% do tempo se reserva à prática de ensino.

E nos outros 79,3% de duração do curso, o que se faz? Eis aí uma boa pergunta. Talvez que a resposta pudesse ser: aprende-se um punhado de saberes de duvidosa utilidade. Ora, se a pedagogia é, ao mesmo tempo, arte e ciência, haveria que dedicar, pelo menos, 50% à didática, que faz parte da arte, e o restante à erudição, até certo ponto dispensável das teorias pedagógicas de ontem e de hoje, que fazem parte da ciência.

Caso isso tudo pudesse ser mudado, a partir das conclusões dessa oportuna pesquisa, creio que muitas das deficiências que, hoje, frustram o processo ensino-aprendizagem e desesperam os professores, no que diz respeito aos resultados alcançados, seriam superadas e as futuras gerações de cidadãos brasileiros estariam melhor equipadas para ganhar a própria vida e ajudar no desenvolvimento do país. Nisso, a velha escola normal era imbatível.

(Correio Braziliense, 10/11/08)

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