Escola: carta aos descrentes


 

Você que adora dizer que a escola é um inferno, uma instituição morta e que a mesma só serve para divertir-se às custas dos professores, das direções e dos funcionários, além do fato público e notório de que os professores são um bando de adultos idiotas; você que adora classificar tudo e todos, em um exercício reducionista social e que, evidentemente se coloca acima de todas as tribos, preste um mínimo de atenção. A novidade é que, caso você não tenha se dado conta, classificar é o que foi aprendido lá com a “professorinha” (você adora esta expressão pífia, não é?) lá das séries iniciais, com as relações estabelecidas entre binômios simples: grande, pequeno, gordo, magro, aparente, transparente, e, hoje mais atualizado, nerds, não-nerds, e todas os demais grupos sociais que você participa ou gostaria de participar, bem como aqueles que você execra.

Ou seja: portugues e matemática elementares, coisas que se relacionam entre si pela congruência, pelas inconstâncias ou por quaisquer outros padrões que você erija como constante e como variáveis.

Você que escreveu sobre a escola, somente o fez porque um daqueles adultos chatos – diríamos seu pai ou sua mãe – o enviou para que um outro adulto chato o alfabetizasse, o ensinasse a não apenas decifrar o código escrito, mas também a compreendê-lo, o que fez com que a possibilidade da escrita formal se tornasse realidade.

Você não foi a uma rede bancária para isso, você não frequentou escolas de samba para isso; você aprendeu naquelas aulas insuportáveis. Você vai crescer e seus textos também vão melhorar bastante e isso se deve, direta ou indiretamente, ao incentivo e ao trabalho anonimo e rotineiro dos seus professores caretas; você vai viver e acumular experiências e quando, finalmente, as necessidades se configurarem em algo além do discurso, vai começar a achar que, afinal, a escola não foi tão ruim, tão destruidora da sua criatividade, tão letal ao seu senso de cidadania. A vida, no seu componente hard fará você ver que, bem além da alfabetização, as relações construídas no ambito escolar lhe proporcionaram uma formação social.

Conhecimento embarcado, on board.

Com o tempo, vai se dar conta de que a famigerada escola, com suas classes alinhadas e suas redações e suas geometrias e geografias, com seus professores totalmente out, afinal de contas, ajudou em sua qualificação para o mundo sócio-produtivo, enquanto permitia que você se divertisse com seus amiguinhos de classe ridicularizando seus professores, enquanto você fazia os indefectíveis e altamente previsíveis exercícios de rebeldia e usava todos os demais recursos possíveis para se mostrar acima do bem e do mal, leader do seu séquito.

Mais: que a escola ruim, chata e prepotente apenas cobrou de você paciência e avaliou seus estudos através de uma didática quase medieval, usando o binômio folha-papel mas que, apesar disso, foi importante no desenvolvimento do seu sentido crítico, na massa de informações que você possui e que o nerd de hoje pode vir a ser seu chefe amanhã. Vai verificar ainda que seu bem-estar no mundo do consumo, da aparência, da auto-construção cotidiana da sua identidade, dos nichos de mercado vai ser objeto da cobrança contínua, constante e cada vez maior da sua formação. Just in time.

E um dia, talvez muito distante, talvez menos distante, ao se olhar no espelho, vai se surpreender pateticamente ao chamar o seu filho às seis da manhã para que ele vá estudar na escola e que ele repetirá, ad nauseam, a respeito da escola e dos professores, o que você diz hoje. A esse processo chamamos aculturação, mas pode ser traduzido como vida real. Os pais chatos que o (a) chamam hoje para estudar e para a rotina do dia-a-dia , em um átimo, se transformarão em você mesmo que, aliás, “estará em casa guardado por Deus, contando o vil metal”, como desde muito contou e cantou o profeta Belchior.  Além disso, somente uma previsibilidade: apesar da chuva e do sol, do calor abrasante, independente dos regimes políticos, das políticas públicas, dos esgares e deboches adolescentes, das violências sociais, do bullying, da chatice, das impropriedades do cotidiano, das reclamações, das greves, do avanço tecnológico e mesmo “apesar de você”, como ensinou Chico Buarque, uma das poucas referências que permanecerá serão os professores e as escolas. Permanência em sua insistente e por vezes estóica ocupação com o aprender e com o ensinar.

Não tenha dúvidas: não só a escola vai formar os seus filhos, no que lhe couber no processo social, quanto eles irão partir da imolação até a compreensão da escola e de seus problemas, sempre relegados para adiante e, talvez por isso, sempre urgentes. Como diz um adágio forense, tempus regit actum, as coisas se regem pela lei da época em que ocorreram. Assim, a vida vai lhe lembrar, para o bem ou para o mal, de que o que hoje é execrado, poderá não ser daqui há algum tempo. As nossas noções mudam na medida em que o tempo nos mostra novas perspectivas. Inclusive em relação a escola, a nós mesmos e, especialmente, em relação ao outro.

Qual outro? Aquele, o que media o conhecimento, a cultura, a criticização. O outro, grande interlocutor de nossa construção sócio-afetiva-intelectual. Discursamos em razão do Outro lacaniano. Mas isso tudo você pode aprender por aí, pelas esquinas, com os seus amiguinhosnerds ou emos ou góticos. Se houver alguma dúvida, você sabe onde procurar.

Sempre haverá um professor, um educador, um mestre para tanto.

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