Orientador educacional e os pais


 

Orientador Educacional e os pais.

Fapa, 2004

Hilton Besnos

 

Atrair os pais para a escola, no sentido de fazer com que haja uma efetiva participação dos mesmos na vida escolar de seus filhos não é uma tarefa fácil, mesmo porque essa interação depende de vários fatores que devem ser analisados e enfrentados diretamente pela instituição. Um deles é a questão da multiculturalidade; não basta dizer que os meios sociais são diferentes ou “que os pais não se interessam pela escola”. Outra é a questão da falta de comunicação eficiente entre pais e escola; normalmente os “bilhetinhos” dados aos alunos para serem entregues aos pais somente tem eficiência quando se trata de alguma festividade na escola, pois os que se referem a questões disciplinares são entregues mais raramente. Outrossim, quando se trabalha com classes sociais que são consideradas socialmente menos privilegiadas dentro de um contexto maior, há outros fatores exógenos que também influenciam bastante nesse afastamento. Um deles é a própria formação familiar. Não raro sequer a escola sabe efetivamente endereços, telefones ou meios de contato. A formação familiar, aqui, igualmente não é tradicional; um aluno pode viver com o pai, com a mãe, com ambos, com uma tia, um tio, com avós (para a escola haverá a saída dos “pais ou responsáveis”), mas igualmente a comunicação é truncada.

Como fazer, então?

Penso que o papel do orientador escolar é o de criar estratégias que passem longe, por exemplo, do fato de chamar os pais unicamente quando os filhos apresentem problemas. Se isso ocorrer, sempre haverá um signo negativo associado às chamadas da escola, o que proporcionará ainda mais afastamento real entre a instituição e os pais. O orientador educacional, por seu turno, se estiver atento a essa situação, poderá propor à direção da escola que inicie um diálogo com os pais, marcado por dois eixos principais: a questão da multiculturalidade e a questão de proporcionar atividades que tragam para a escola a comunidade.

Não se trata aqui do conceito de “escola aberta”, como se entende, nem de transformar a escola num clube recreativo onde possam os pais ou as crianças jogar bola ou bolão nos finais de semana, mas sim, de criar alternativas culturais e de convivência que sejam atraentes. Não somos contra tais jogos, claro que não, mas não podemos entender que se reduza a tanto tais esforços para trazer a comunidade para a escola.

Quais atividades poderiam ser essas? Como o orientador escolar poderia influir aí?

Creio que uma solução seria criar cursos gratuítos onde os pais pudessem freqüentar mesmo durante a semana e bem esquematizados em termos de interesses e horários. Outra atividade interessante seria envolver os pais em projetos pedagógicos, onde eles pudessem vir a escola para contar suas experiências de vida, suas passagens profissionais, enfim, que se sentissem valorizados ante seus filhos e a instituição. Ou disponibilizar meios para que os pais pudessem vir para a biblioteca ou discutir com os professores seus próprios entendimentos e projetos para melhoria de vida. Um curso interessante, por exemplo, seria na área de manejo (o termo é horrível, mas vamos lá) com adolescentes. Muitos pais dizem “não dar conta dos filhos”, deixando-os na escola para que a instituição, sim, faça a parte que lhes cabe. Como isso não é possível, pelo menos no quadro atual, nada se resolve e os problemas acabam se acumulando.

Tais projetos deveriam ter uma face amigável e contariam com o apoio da orientação escolar, fazendo parte de um critério multidisciplinar. Poderíamos citar aqui Paulo Freire, no sentido de que os pais devem situar-se em relação ao seu meio e buscar ser mais. O orientador escolar, então ajudaria a essa vocação ontológica propondo atividades que não tenham caráter de benemerência, mas que façam com que haja um progresso real em direção a uma maior consciência crítica (novamente Freire). Com isso, haveria um ressignificado da escola, que deixaria de ser um depósito de alunos, e passaria a ter um signo crítico e criativo.

Uma experiência pessoal

Durante mais de dez anos como professor da rede pública municipal de Porto Alegre, presenciei muito pouco a presença dos pais. Não conheci a maioria deles, e muitos se apresentaram apenas para as notas finais (na era em que o regime não era ciclado). O que observei, então foi que os pais somente compareciam com os filhos menores em datas festivas (dia dos pais, das mães, de São João, do aniversário da escola, em dias de feirinhas de vendas de artigos, geralmente roupas de segunda ou terceira mão vendidas a um preço simbólico). Contudo, como os orientadores vivem assoberbados de serviço, sem tempo para planejamento ou sem uma visão mais sistêmica da importância do comparecimento dos pais, não observei, durante todo esse tempo, qualquer projeto especificamente voltado para os mesmos. Assim sendo, não estabeleceu-se qualquer possibilidade de diálogo mais efetivo ou que tivesse minimamente uma face dialógica. De tal modo, nem os pais compreendem a escola, nem a última aos primeiros.

É mais que urgente que se abandone uma visão tecnicista e funcional da educação, e que haja tempo suficiente para que a escola possa estabelecer tal diálogo com os pais, mesmo porque não é raro que, para uma mesma situação, os últimos tenham um tipo de atitude muitas vezes marcada pela violência e agressividade, enquanto à primeira reste a imagem de liberalizante e moralmente ausente.

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