Tô nem aí… passo de qualquer jeito!


 

Posted on Monday 13 November 2006

 

 

O aluno a quem dou aula (correspondente à sexta série) desde março de 2006, me pára no pátio para me perguntar se terá aula hoje comigo: desde o início do ano ele possui o calendário semanal de aulas, mas aparentemente ainda não sabe que deve consultá-lo, ou simplesmente acha que é melhor perguntar. Muitos outros perguntam que dia da semana é, ou que dia do mês é, isso pelo final da tarde. As variações são infinitas. Professor, eu não trouxe lápis, professor o senhor tem caneta? professor, esqueci meu caderno. Professor, … , professor…

Se eu negar a caneta ou o lápis, ou uma folha, a revolta vem sob a forma de uma sentença: “então não vou fazer nada, então não vou copiar coisa nenhuma, então não,… então não,…, então não.” No subproduto da variação, muitos pedem para ir à secretaria. Muitos voltam quinze, vinte minutos depois, com ou sem caneta ou lápis. Dependendo da situação, ter ou não um instrumento de escrita não faz a mínima diferença.

Embora venha para a escola todos os dias, alguns não se conscientizaram ainda que devem trazer o mínimo possível. Nas suas concepções, esse mínimo deve ser dado pela escola, ou por qualquer outra pessoa; tais alunos tem a convicção de que isso deve ser suprido de alguma maneira. Especialmente a convicção de que a escola tem a obrigação lhe dar o material que ele (ou ela) não trouxe. E assim transcorre o dia.

Em uma das turmas eu havia agendado um trabalho de verificação. Ao ingressar em sala, percebi que os alunos ainda tinham dúvidas sobre o assunto; então ponderei que talvez fosse melhor não fazer a verificação, e sim dar-lhes um tempo maior para que dirimissem questões que envolviam cálculos. Coloquei-me à disposição e resolvi que aquele horário deveria servir para que os alunos se sentissem mais à vontade com os problemas que propus.

Uma das meninas (a turma aqui corresponde a uma sétima série) multiplica doze por quatro e acha dez como resposta. Quando as próprias colegas lhe chamam a atenção (Ô guria burra! Como é que tu multiplica o doze por quatro e acha como resposta um número menor que o dez?), ela ri, dá de ombros e diz: “tô nem aí, não vou fazer mais nada porque, de qualquer jeito, eu vou ‘passar de ano’”. Após, se dedica a olhar pela janela da sala. A vista é a mesma de todos os dias, a vida é a mesma de todos os dias.

A explicitação ”irá passar de qualquer jeito” revela que ela confia no sistema de ensino: pode não saber que sistema é esse, pode não ter idéia do que ele propõe mas, mas, por experiência, o que importa para ela é que “algo” a fará ser promovida ao ano-ciclo seguinte, independentemente de sua própria aprendizagem. Cursa uma C20, que corresponderia à sétima série no regime seriado e tem a mais absoluta convicção de que, dali há um ano, concluirá o ensino fundamental. No entanto, ela irá para o ensino médio, onde será avaliada por notas, dentro do regime seriado.

A discussão de fundo teria como foco o regime ciclado, ou seja, o discurso da profecia auto-realizável da aluna. Na minha modesta opinião, baseada em bibliografia e em experiência em sala de aula, o regime de ciclos é, sem dúvida, um avanço: é bem melhor que o regime de seriação.

No entanto, o regime de ciclos exige muito, mas muito mais do que lhe é dado, em termos econômicos e em termos de infra-estrutura para que funcione como deveria. Não tenho dúvidas de que a combinação entre o regime de ciclos e um sistema avaliativo que privilegie o processo de aprendizagem e não as circunstancialidades do mesmo processo, indicam formas de alcançarmos algo próximo à excelência.

Contudo, a viabilidade das propostas pedagógicas é regida por secretarias que detém recursos financeiros e de gestão administrativa que absolutamente não contemplam as necessidades estabelecidas pelo regime de ciclos: atualização constante, baixo número de alunos em sala, de preferência dois professores por turma se auxiliando mutuamente e em contato direto com os alunos, volância que funcione e não seja meramente uma substituição em turmas desconhecidas pelo professor, trabalho interdisciplinar onde as reuniões pedagógicas não sejam tomadas pelo administrativo e assim por diante. Enfim, os recursos não deveriam ser administrados por secretarias públicas que não tem a mínima vocação para a educação, mas que simplesmente gerem recursos públicos. Uma política de RH, por exemplo, não pode ter mais poder que uma política pública educacional, mas, ao que se vê, é exatamente isso o que acontece.

Aprenda-se: existe um discurso absolutamente favorável à educação, mas ele, em grande parte, é retórico. Não vivemos em uma sociedade que efetivamente esteja preocupada com seus cidadãos, especialmente com aqueles que não tem condições para participar do consumo e se encontrem à margem social. Assim, embora a midia enfatize a necessidade da educação e isso seja claro como um dia de sol, os recursos para uma educação de qualidade não correspondem à retórica. Não se trata de simplesmente pagar melhor o professor mas de implementar condições melhores de trabalho.

Como a educação ainda é vista apenas como uma fornecedora de mão-de-obra para o sistema produtivo, especialmente a escola pública deve se contentar com os recursos que lhe são destinados. As classes dominantes podem pagar até oitocentos ou mais reais por mês para educarem seus filhos (quando não o fazem no exterior), preparando-os para comandar e para ascenderem socialment. A escola pública deve se contentar em manter os adolescentes e as crianças, muitas em situação de risco, “retidas” na instituição por algumas horas, para que não perturbem nas sinaleiras e para que os índices de criminalidade sejam controlados.

Em muitos casos, a escola ou serve como um grande clube ou como um local de confinamente não oficial, embora oficioso. Se o termo confinamento é demasiado duro, podemos trocá-lo por qualquer outro; de todo modo Foucaut continuará tendo razão.

A aluna que deu de ombros está certa. Ela sabe exatamente o que vai ocorrer, desinteressando o esforço que faça para aprender. Daqui há um ano, estará formada no primeiro grau.Aliás, talvez esse aprendizado seja uma das poucas coisas que aprenderá não na escola mas, infelizmente, a respeito da escola. Com o tempo, quando necessitar de emprego, de saber de uma língua estrangeira, de capacitar-se, só então reconhecerá o esforço dos seus professores que, como ela, por uma questão de retórica, foram igualmente enganados.

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