A quebra da inocência


 

Em 17-02-2009

PROFESSOR É AFASTADO ACUSADO DE APOLOGIA AO HOMOSSEXUALISMO PARA ALUNOS

Fonte g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL1005945-5604,00-

 

O afastamento de um professor de inglês provoca polêmica no Distrito Federal. Ele foi acusado de fazer apologia do homossexualismo na sala de aula. O caso aconteceu em uma escola pública da cidade de Brazlândia, próxima a Brasília. O professor de inglês Márcio Barrios decidiu usar uma música da cantora e compositora americana Katy Perry em uma das aulas. Na letra ela conta a história de uma garota que depois de beber beijou outra garota. …  O professor afirma que a aula era sobre verbos no tempo passado e que a música, um sucesso, seria um bom exemplo.  Os verbos da música, todos eram no passado e eram o foco que eu tava trabalhando com os alunos na época”, disse o professor.  A escola orientou o professor a escolher outra musica porque o conteúdo não seria adequado para alunos de 12 a 14 anos. Mas Márcio não concordou. Levou a letra para a sala de aula e foi afastado pela direção da escola em novembro do ano passado. … A Secretaria de Educação apoiou a decisão da escola, pois considerou que se tratava de uma apologia do uso de álcool e do homossexualismo.  ”Reflete um comportamento inadequado e, portanto, acabou do jeito que acabou” disse José Valente, Secretário de Educação do DF. 

O contrato de Márcio, que era temporário, venceu em dezembro e não foi renovado para o ano letivo que acaba de começar. Ele diz que foi vítima de preconceito. ”Não interessa a opção de ninguém. Interessa que as pessoas que estão ali com a responsabilidade de educar os nossos jovens, os eduquem de acordo com a educação pedagógica da escola”, completou o Secretário de Educação.

 

 Eu comento. 

 Muito para escrever e mais ainda para discutir. Ao fim e ao cabo, a questão central gira sob um tema: inadeqüação.  Podemos abordar o tema sob uma visão educacional lato ou strictu sensu, podemos cogitar sob a ética envolvida ou, claramente, sob as questões de gênero. Isso em princípio. Óbvio que a face que mais se escancara e parece absolutamente ansiosa para ser discutida aqui: nossa velha conhecida hipocrisia e sua inefável amiga, a intolerância.

Haverá aqueles – e muitos – que dirão que os jovens e adolescentes de 12 a 14 anos estão acostumados a ouvir e ver muito mais erotismo de péssima categoria do que o que foi apresentado pelo professor de inglês Barrios aos seus alunos. Para os que assim entendem,  toda a situação passa pelo falso moralismo de uma sociedade hipócrita, da qual o principal alvo é Barrios e seu algoz, o  secretário de educação do DF., Sr. José Valente.

Para outros, Barrios errou e, aqui, o moralismo e a ética prevalecem; a secretaria de educação do DF está correta, ao afastá-lo da escola. No meu entender, ambos estão errados.

Barrios sabia da orientação da escola em relação ao uso de tal música como recurso didático. O fato de os seus alunos de 12 a 14  anos terem acesso às barbaridades midiáticas que se perpetram a todo instante ( e muitas vezes com o  beneplácito ou a omissão criminosa de pais, professores e alunos que aqui hipocritamente se dizem ofendidos)  não o autoriza, de per si, a utilizar o mesmo critério em sala de aula. A estupidez e a ignorância não são autorizadores didáticos, a não ser sejam essas patologias sociais o foco do que se está processando enquanto conhecimento, mas o foco, segundo o mesmo Barrios era o de explorar verbos em inglês.

Na mesma reportagem, Barrios diz que se sentia excluído pelos colegas, em função das roupas que usava, etc. Há, portanto, uma cultura do corpo docente contrária ao acolhimento do professor entre seus pares, e aí temos novamente uma cultura interna que pode ser intolerante  e preconceituosa, fazendo ressaltar as questões de gênero e de sexismo. A intolerância dos pares deveria ser objeto de atenção por parte do mesmo serviço que orientou Barrios a não utilizar mais a música de Katy Perry em aula. Aí a segunda inadeqüação. Por que, afinal, Barrios chocava tanto, e se o fazia qual deveria ser o caminho a ser percorrido pela instituição, no sentido de acolhimento ao colega?

E, por fim, a terceira inadeqüação. Há muitos caminhos para serem seguidos antes de se excluir um professor, que no caso era responsável por uma turma e estava normalmente trabalhando. Aqui, a total inadeqüação é da secretaria de educação que, ao que parece, utilizou critérios medievos para banir Barrios da escola.

Nesses momentos me lembro de duas referências: que a estupidez não pode ser algo que deva se perpetuar e, por último, da história do lobo e do cordeiro, se não me engano, de Perrault. De qualquer modo, sem dúvida, tais inadeqüações revelam mais sobre o sistema do que sobre o fato em si e desmascara um velho mito que muito engana a vida do professor. Muitos se sentem quase profissionais liberais, entendendo-se livres para adotarem os critérios que quiserem em suas salas de aula.

Rematada mentira: são funcionários públicos ou são empregados. E aí, quando o sistema quer eliminar, o faz com a mesma indiferença com a qual um peão é despedido pela empresa que o contratou. Talvez essa seja a principal lição a ser aprendida, assim como a de que a inocência se quebrou já há um bom tempo atrás.

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