De alunos, provas e ao final, de Machiavel


De alunos, provas e, ao final, de Maquiavel.

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Nesses tempos de alta tecnologia, de acesso ao crédito, de consumo desenfreado e descarte idem, nos quais o ter cada vez bate mais forte no ser, não poderia a educação formal deixar de se juntar aos demais rebanhos de distorções acumuladas. Entre as mesmas, surge a figura do aluno tarefeiro, aquele que não estuda e apenas trata seu desenvolvimento cognitivo formal como se fora uma prestação de serviço. Sua relação com o saber é uma extensão de um capitalismo de resultados, na qual a contraprestação é a aprovação, que se constrói metaforicamente através das notas ou conceitos obtidos.

Em outros termos, o conhecimento em si passa da categoria de valor à de mercadoria. Talvez por isso alunos insistam em que um determinado tema só deva ser desenvolvido ou aprendido se houve logo ali a infalível contraprestação: se ela não se adequar aos desejos dos alunos, a própria prestação, ou seja, o aprender, será descartado; não haverá entusiasmo,nem outra motivação senão a da aprovação pela aprovação. Aqui, ser aprovado não é uma consequencia, mas um objetivo.

A consequencia imediata é a frustração e o estresse de quem ensina, um buraco na formação do aluno e uma preocupação dos gestores. Pior ainda são os efeitos mediatos, a médio e longo prazo e, sem dúvida, mais dramáticos: o sistema educacional, massivo e do modo como proposto e implementado, incentiva um aprender raso, superficial e estimula a memória em detrimento do raciocínio. Decoram-se fórmulas, nomes,acontecimentos, lugares, mas, justamente porque não é conferido uma significação e um valor essencialmente educacional aos mesmos, são igualmente descartados e jogados no limbo.

Passadas as provas, de todo igualmente superficiais, assumem-se os valores in negotia das mesmas. Aprovações e não-aprovações mantêm a mesma matriz de resultados. Para as classes média e alta, as benesses que uma possível carreira em alguma profissão de prestígio social e para as classes economicamente excluídas, algum curso técnico ou algo que possa melhorar, se não sensivelmente, pelo menos de modo mais sutil sua presença no mundo do mercado. No primeiro caso, busca-se a manutenção/ascençãosócio/econômica e no segundo, a inserção. Em ambos, há uma configuração já préconcebida, ajustada para o acesso à categorias mais ou menos limitadas.

O que se quer deixar claro é que a escola de resultados é, também, filha de um capitalismo de resultados e não raro, ambos, tanto a escola quanto o mercado, são faces de uma mesma moeda que implica em predar, competir e fazer-se cidadão pelo que se disponha e não pelo que se acrescente à vida social.

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Pedagogos de plantão sugerem que as escolas são culpadas pelo fracasso escolar de seus alunos. Prospera a tese basicamente ingenua de que a falta de conhecimento não deve ser superada pelo valor e pela ética, mas sim pelo incentivo à essa mesma política educacional que querem combater. Criam-se, a partir daí, práticas compensatórias (a mais notória é a aprovação automática) que fazem o jogo do capitalismo de resultado.

O resultado é a aprovação em magotes de alunos despreparados cognitiva e socialmente e que irão competir com a classe dominante, em condições de absoluta desigualdade, expressem ou não os diplomas formações equivalentes.  No entanto, não há um pensamento pedagógico ou uma práxis que incentive o pensamento, a  lógica e a formação de uma crítica social. De um modo ou de outro, criticam-se currículos, mas não há uma ocupação a respeito do sentir,do aprender e especialmente, do importar-se com o outro.

O sistema educacional, pois, convive com escolas para as classes dirigentes e com escolas para as classes submissas e proletárias. Convive, incentiva e conta com a participação efusiva de pedagogos que creem que a sua missão no mundo é semelhante à dos jesuítas que catequizavam os índios nas Missões do Rio Grande do Sul, então Província de São Pedro. Infelizmente, como eles, a práxis demonstrará que restarão, sim, as obras, mas que os índios definitivamente foram assimilados e que seus valores principais e culturais foram friamente liquidados em nome da boa vontade que hoje assola tais pedagogos compensatórios.

Exclui-se por dentro do sistema; antes, isso ocorria ou pela falta de acesso à escola ou pela simples expulsão dos que não se adaptavam ao mesmo. De um modo ou de outro, exclusões são sempre exclusões, e os meio de operá-las variam mas sobre tais meios e objetivos, mais sabe Maquiavel do que Hilton Besnos. Poderia argumentar-se que Maquiavel falava sobre política mas educação é o que?

HILTON BESNOS

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