Aprovação nem sempre significa aprendizagem


Diz o J. Quest que é “fácil, extremamente fácil, pra você, pra mim e todo mundo cantar junto”.  Dependendo da realidade, podemos adaptar a canção ao contexto da sala de aula, especialmente naquelas em que o que importa é a cópia, a decoreba, o fazer de conta, o laissez faire. Como é bom e simples compartilhar a incrível felicidade medíocre, simplesmente encher, lotar, abarrotar o quadro verde com fornadas de textos pré-selecionados dos livros didáticos e, implicitamente deixar o aluno ler: “decorem, é isso que eu vou pedir na prova”. E é verdade. No caso, os alunos responderão o que os professores querem como resposta. A situação descrita, no sentido do processo de ensino e de aprendizagem, é uma corruptela do que se deveria fazer, ou, pelo menos, do que se  deveria tentar fazer. A mesma, tão largamente usada é sistematica e insistentemente autorizada, de modo subreptício pelos sistemas educacionais e potencializada por uma cultura na qual o saber escolar deriva-se do binômio “folha-papel” e dos cursos que formam os professores.

Alguns poderão dizer que as questões são didáticas. Observemos a tendência discursiva à segregação da aula expositiva. O professor que insiste nas mesmas é, não raro, considerado pelos pedagogos de plantão, um retrógado, um dinossauro em plena era da informática e das redes sociais. Aliás, o professor deve ser atualizado on board, deve constantemente ser submetido a upgrade na sua forma de ensinar. As aulas não serão mais dadas, mas compartilhadas em termos de conhecimento. Eles serão atores em um palco multimidia de entretenimento e que ensine. O principal é que o princípio do prazer impere. Nada de disciplina, de pensar muito, de comprometer-se. A atual sociedade de consumo exige uma (re)construção diária de identidades, uma flexibilização de quase tudo e, assim como uma circulação de mercadorias infinita, uma tão apregoada circulação de saberes. Todos consumimos, todos somos consumidos, todos somos produtos de consumo, como Bauman apregoa sagaz e eficientemente em “Vida para Consumo” (1). Como, neste contexto, situar a atividade de ensinar?

A questão, portanto, não é só didática, e como tudo que envolve a educação, pode ser complexificada. Em princípio me parece que, no cenário atual, as escolas se constituem em uma natural resistência aos tempos pós-modernos, o que é bem-vindo no sentido da não-alienação, mas é defasado se tomarmos em conta as enormes modificações impostas pela tecnologia no mundo atual. A escola, de modo geral, não consegue conviver com tais mudanças, e parece pairar sobre as atividades de ensino algumas perguntas e atitudes desestabilizadoras da atividade de ensinar. Algumas delas:

“Para que isso serve? O que a escola vai me dar se eu efetivamente me esforçar? Porque tenho de aprender isso e/ou aquilo? Porque as aulas são tão chatas e monocórdias?”

Na sua tentativa frustrada de criar um feudo anti-realidade, a escola não ensina a lidar com a frustração, com a indisciplina, com a volúpia do consumo. Esqueceu-se de dizer aos alunos que a vida também por vezes pode ser chata, enfadonha, cheia de compromissos, repleta de rotinas e procedimentos, mesmo insuportável. Então os alunos querem o que a midia proporciona: prazer, entretenimento, fantasia. A escola no entanto insiste em não ser nada disso. Quando tenta, não apresenta condições internas de suporte.  Falta-lhe conhecimento, flexibilização, conhecimento do que é realmente importante em termos curriculares, falta-lhe comunicação interna e externa,  falta-lhe vontade política, falta-lhe espírito de corpo, onde sobra improvisação, achismos e sentido de culpa e frustração. Especialmente falta-lhe formação.

A questão básica da escola é ensinar a pensar. Somente a partir daí é possível ensinar e aprender. E o aprendizado de pensar é sair da condição de submissão para uma condição de autoria. Ninguém é autor no caos, a não ser que o tenha criado.  A autoria implica muito mais em responsabilidades do que em prazeres e hedonismos. Respondemos pelas nossas ações, mas igualmente por nossas omissões. Talvez bem mais pelas segundas que pelas primeiras.

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