Arauto de um novo renascimento


Arauto de um novo renascimento

Ler Edgar Morin e ensinar a partir de suas propostas metodológicas implica na revisão de posturas antigas e na abertura para o desenraizamento e o novo enraizamento do saber

18/09/2010 17:00 <!–

Atualizada às: 07Dez2009 – 01h18min

 

ODALICE DE CASTRO SILVA ESPECIAL PARA O POVO
“Sob a história, a lembrança e o esquecimento.
Sob a lembrança e o esquecimento, a vida.”
Paul Ricoeur
Combater a visão segundo a qual as pessoas, as coisas, a natureza, o mundo e o si-mesmo podem ser apreendidos como mônadas, defender a interrelação, a abertura e a imbricação como princípios são atitudes básicas para uma entrada ao método dos sete saberes como fundamentos ao pensamento complexo.
Para “escancarar o santuário” do Conhecimento, alguns pensadores, ao longo da história da inteligência humana, têm-se insurgido contra a compartimentação no entendimento e defendido a natureza plurifacetada, mas não auto-excludente das partes e ângulos do que aprendemos a considerar como o todo.
Ao tomar para si um ideário, a partir do qual o ensino e a aprendizagem deveriam abandonar a disciplinarização, em proveito da religação, Edgar Morin promove, juntamente com outros pensadores de mesma afinidade, uma proposta revolucionária. Através da leitura dos saberes, a busca de um caminho forjado pelo próprio conflito de antigas práticas, agora submetidas a outros motivos e objetivos. A religação dos saberes abraça as cegueiras do conhecimento, o conhecimento pertinente, a condição humana, a identidade terrena, as incertezas, a incompreensão e a ética do gênero humano.
Os princípios não são passos ordenados em linha reta; os princípios desenham uma forma inusitada, os cruzamentos em horizontal e em vertical, cujos pontos de toque criam, por sua vez, nervuras para sugerirem outros encruzamentos, até que um grande prisma, no formato de um diamante parece surgir diante do leitor, mesmo sem maiores pretensões pedagógicas, reorganizará o seu modo de apreender os diferentes ângulos das realidades que ajuda a criar e que, por outro lado, são construídas por outros, num relacionamento universalizante.
Ler Edgar Morin e ensinar a partir de suas propostas metodológicas implica na revisão de posturas antigas e na necessária abertura para uma medida: um desenraizamento e novo enraizamento do saber, tomando como ponto de partida figuras como a do prisma, do diamante, do entrecruzamento de linhas em profundidade e em superfície, para alcançar o desenho hologramático do saber, em mutação constante.
Desde O homem e a morte (1951), após as experiências de sua vida em contingências extremas na Segunda Guerra, inclusive como oficial do exército alemão, para alcançar o paradoxo “Beethoven/ Hitler”, ou seja, para entender como foi possível, dentro da mesma civilização e cultura, o princípio da exclusão: o sublime da música e a crueldade programada, ou genocídio sistêmico; com Autocritique (1959), o livro necessário com as reflexões para que as descobertas de suas contingências pessoais pudessem lhe aparecer como aquelas que dariam rumo ao seu destino.
De sua própria vida, das contradições de dentro de si, das contradições que desenham o rosto do outro e o contorno das relações humanas, a construção do Método, uma das mais importantes elaborações mentais do século XX e contribuição decisiva para a sustentação do conceito de complexidade, não apenas para a Epistemologia, mas para uma apreensão da vida e dos relacionamentos humanos no nosso dia-a-dia, tão prosaico, tão repetitivo, tão igual ao de todo mundo.
Para ler a obra de Edgar Morin com mais proximidade com as vicissitudes e conquistas, mais perto de sua humanidade conquistada nas perdas e ganhos, deu-nos em Meu Caminho (2010), as respostas simples, diretas, corajosas e reveladoras de sua trajetória, desde as origens até a senectude que ele contempla e vive como viveu outras etapas da vida.
O princípio da complexidade age como um ácido e como um bálsamo: o ácido ajuda a derreter as escamas que velam o olhar para a vida e o mundo; um bálsamo cheio de esperança e fé na regeneração da vida. As origens das promessas messiânicas pulsam de cada palavra, de cada frase, em cada livro, em cada entrevista. E ele ainda se afirma como alguém que sente falta de ter fé…
A Conferência Internacional sobre os Sete Saberes necessários à Educação do Presente, a acontecer de 21 a 24 de setembro de 2010, comprova a lucidez de inteligência de quantos tomaram a si a realização de um evento que marcará os novos rumos metodológicos para a vida de cada um de seus participantes.
“Manter sempre alerta a razão na paixão e sempre presente a paixão na razão.”

 

Odalice de Castro Silva é professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFC.

Fonte: Jornal O Povo, O POVO Online, Fortaleza, Ceará. Publicado em 18/09/2010

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