Ciclos, pedagogias e afins


Durante algum longo tempo não consegui entender por que a educação, em termos teóricos, era tão sujeita a outras áreas do conhecimento. Era então um tanto quanto ingenuo, pois o tempo me demonstrou que, sendo a mesma um fenomeno social e complexo, não poderia prescindir dessas mesmas áreas. Uma manhã, então trabalhando na Escola Municipal de Ensino Fundamental Mariano Beck, estando todos os professores reunidos mais a direção, supervisão e orientação, soubemos que, por determinação da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED), o regime de estudos não seria mais o seriado, mas o regime de ciclos. Ficamos todos, claro, os professores, nos olhando,  enquanto a então diretora nos informava que a escola seria ciclada e adotaria como linha didática o construtivismo. Perguntei então o que ocorreria se os professores optassem pela continuidade do regime seriado. Meu objetivo, na verdade, era apenas ganhar tempo, entender o processo. Cheguei mesmo a pensar que como estávamos todos reunidos, nossa palavra poderia ter algum peso, que fossemos ouvidos, afinal éramos nós quem conhecíamos a realidade das salas de aula e os nossos alunos.

Tsk, tsk, tsk, nada disso, meu jovem professor. A SMED já tinha decidido. Em todas as escolas da rede o novo regime de estudos seria implantado, bem como o construtivismo seria a panacéia didática da vez.

Alguns meses mais tarde, em outra reunião, os professores de matemática viram sua grade de atividades rebaixada de três para dois encontros semanais por turma. O argumento pedagógico era o de que matemática e língua portuguesa não deveriam receber tratamento diferenciado em relação a qualquer outra disicplina, afinal, já que se desejava uma educação equitativa, não haveria porque privilegiar ambas. E, como nas sagradas escrituras, maktub! assim foi feito.

O tempo, esse grande mestre, fez com que nos dessemos conta de que a psicolingüística argentina Emília Ferreiro jamais afirmou que o construtivismo era um método didático ou uma teoria pedagógica específica, mas um estudo sobre o desenvolvimento da alfabetização, passando por quatro fases distintas (1) e que as mesmas se davam ao longo da apropriação da escrita. A essa evolução deu-se o nome de construtivismo, em razão de que a criança vai criando, construindo suas hipóteses de leitura e de escrita.

Evidentemente que alguns não perceberam isso na época e fingem não perceber até hoje, argumentando que o construtivismo é um método didático, como o “método Paulo Freire”, mas distinto daquele. Por não ser um método didático, obviamente não havia propostas para as demais áreas de conhecimento, que não a alfabetização, o que não impediu que muitos masters em pedagogia tentassem empurrar o construtivismo goela abaixo em outras áreas como matemática, geografia e assim por diante. Sem sucesso, como era previsível. Com a edição do Caderno nº 9 da SMED, a bússola, bíblia e manual strictu sensu do regime ciclado e do construtivismo, a mantenedora buscou expandir toda uma conceituação pedagógica estribada basicamente em um processo democrático de ensino que, contudo, trazia grandes nebulosidades em termos de aplicabilidade no processo de ensino e de aprendizagem.

É muito interessante dizer que o aluno é parâmetro de si próprio, e sem dúvida essa é a situação ideal, desde que se saiba aplicar tal conceito em um processo avaliativo e se disponha de meios coerentes e direcionados para fazê-lo.

O sistema de ensino ciclado começou a apresentar uma estrutura no qual não se vislumbrava pesos distintos, contrapesos e válvulas de ajuste, seja, por um lado, pelo caráter intervencionista da SMED em termos pedagógicos, seja pela falta de recursos de gestão do projeto e, afinal, pela erosão do papel do professor emquanto responsável direto pelo processo de ensino e de aprendizagem. A secundar, havia uma inflação de tendências didático-pedagógicas mesclada com um constante questionamento profissional. Por terceiro, a universalização do ensino fez com que camadas que antes eram simplesmente suprimidas do processo escolar, ingressassem no ensino formal, sem que houvesse qualquer preocupação efetiva com a qualificação do professor para enfrentar tais tempos diferenciados de ensino.

Um professor que estivesse em trabalho há quarenta anos atrás, se ocupava basicamente com a disciplina que ministrava, avaliações periódicas quantitativas e um ou outro procedimento administrativo básico, como o preenchimento de cadernos de chamada e atividades de planejamento. Embora não fosse um profissional bem pago, era respeitado socialmente tanto pelos alunos, pelos colegas, pelas direções e pelos serviços da escola.  Seguir uma carta de intenções clara, formatada no currículo formal lhe dava segurança quanto aos seus limites e tarefas, o que fazia com que o exercício profissional fosse, por um lado, conservador, e por outro menos sujeito aos tropeços e às interferências externas. Atualmente um professor tem uma imagem socialmente degradada pro inúmeros motivos e sua palavra enquanto profissional é constantemente posta em dúvida e deve ser provada no dia-a-dia, por ingerência de terceiros.

A sociedade, os gestores pelas políticas educacionais, os pedagogos de ocasião e os pseudo-psicólogos descobriram no papel do professor um filão interessante para alimentar suas intermináveis discussões e teses. Hoje se pretende que o professor dê conta, resolva ou se empenhe profundamente a resolver papéis sociais que extrapolam a sua função estrita que continua sendo, quer queiram ou não, que gostem ou não, quer se interessem ou não, a de ensinar, buscando uma formação melhor para si próprio e para o seu aluno. Entre as novidades no seu campo teórico e prático, o professor deve se condoer de si mesmo, tendo consciência de que está desatualizado e out of order se pretender ensinar em aulas expositivas, promovido a fórceps que foi a entertainment pela fashion pedagogy. O professor deve envolver-se com FICAIS, portanto com a infreqüência dos alunos (2), deve participar de todas as festas programadas pela escola, e especialmente a função magister de conter alunos. Os mesmos alunos que tem comportamento habitualmente anti-social, com alguns chegando à patologia, devem ser acolhidos pela escola e pelo professor, que cumprirá o papel de pai, de mãe, de xerife, de responsável pelo aluno ipso facto, ocorra o que ocorrer. Em compensação, se for agredido moral (disso, evidentemente nem se cogita) ou fisicamente (às vezes disso se cogita) poderá ingressar em reclamatória cível de modo solitário porque aí a escola absolutamente não o apóia juridicamente, muito menos a mantenedora. Tmabém deve saber, entre otras cositas o que é o caderno 9 da SMED,  o que é PS, PPDA, PSAE, M, INF, INF-P, turma de progressão e assim por diante.

Os professores tem de se dar conta de que os alunos são os primeiros a saber que serão aprovados de modo automático, o que lhes ensino, portanto que ter prontidão e aprender não tem o mínimo sentido, sendo a responsabilização pelo ensino algo que lhes soa demodée e obsoleto; também cabe aos primeiros incentivar o protagonismo juvenil, no que tenha de distorção e, por fim, acostumar-se com uma indefinição genérica quanto ao que deve ou não deve, ao que pode e ao que não pode fazer, além de orar fervorosamente para que tenha uma supervisão pedagógica que não se consubstancie em um pau mandado.

Os professores devem saber claramente de que “dar aula” é apenas uma parte do que fará. É necessário estudar cada vez mais, não apenas no sentido da formação profissional mas para não ingressar de tolo ou de despreparado em um discurso fragmentado e fragmentário. Tal formação faz parte de um extenso self learning, a não ser que você queira, como profissional, se tornar em outro a não pensar. Caso contrário, não deve prescindir de outras áreas de interesse como, por exemplo, cultura de modo geral, sociologia, psicologia do desenvolvimento, um pouco de política, economia, teatro, etc, enfim, a construção de um background que lhe permita filtrar e avaliar o que está acontecendo não só no seu entorno, mas no mundo. Hoje não apenas existe um fog informativo mas uma sociedade na qual procedimentos e bases pedagógicas assumem uma versão puntiforme, algo que se dissipa no ar. Somente uma boa formação impedirá que o professor não se torne um zumbi a mais a andar manquitolando pelos corredores escolares, enquanto é objeto de escárnio de seus alunos e de serena indiferença à tempestade por parte dos gestores educacionais.

Evidentemente tal formação irá se dando ao longo do tempo e dependente basicamente de você próprio, dos seus esforços e dos seus sacrifícios e renúncias pessoais. Dificilmente você receberá algo gratuito, mesmo um mero afago profissional. Dentro da mediocridade a qualificação profissional é vista como custo institucional, pelo que se prefere que o professor pague pela sua formação; depois os benefícios serão divididos no cotidiano didático da escola. Enquanto as atividades voltadas ao desenvolvimento tecnológico e ao mundo simbólico são objetos de cursos on board, muitas vezes terceirizados, muitas vezes formais no ambito de faculdades ou universidades, a educação é tratada como se fosse algo precário, incipiente, mal-formado. Especialmente lembre-se: se ensinar é um dom (com o que concordo parcialmente), o resto da ópera deve ser aprendido. Caso contrário, você cairá na fugaz, improvável e sempre movediça arte do improviso.

(1) Os níveis estruturais da linguagem escrita podem explicar as diferenças individuais e os diferentes ritmos dos alunos.  Segundo Emilia Ferreiro são: Nível Pré-Silábico – não se busca correspondência com o som; as hipóteses das crianças são estabelecidas em torno do tipo e da quantidade de grafismo. Nível Silábico – pode ser dividido entre Silábico e Silábico Alfabético. Silábico- a criança compreende que as diferenças na representação escrita está relacionada com o “som” das palavras, o que a leva a sentir a necessidade de usar uma forma de grafia para cada som. Utiliza os símbolos gráficos de forma aleatória, usando apenas consoantes, ora apenas vogais, ora letras inventadas e repetindo-as de acordo com o número de sílabas das palavras. Silábico- Alfabético- convivem as formas de fazer corresponder os sons às formas silábica e alfabética e a criança pode escolher as letras ou de forma ortográfica ou fonética. Nível Alfabético – a criança agora entende que:   a sílaba não pode ser considerada uma unidade e que pode ser separada em unidades menores;  a identificação do som não é garantia da identificação da letra, o que pode gerar as famosas dificuldades ortográficas;  a escrita supõe a necessidade da análise fonética das palavras. In http://www.neaad.ufes.br/subsite/psicologia/obs08emiliaferreiro.htm, em 07-07-2010, 17h20min.

(2) Ficha de Comunicação de aluno infreqüente.

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