EJA na Chico Mendes: crônica de uma morte anunciada


Fonte: flickr

Sou professor em uma escola pública municipal de Porto Alegre; à noite, na Educação de Jovens e Adultos – EJA e nos outros turnos, no ensino regular.  Verificando a frequencia em uma das turmas da EJA, obtive os seguintes números:

Turma das totalidades finais.

Matriculados: 24

Total de aulas dadas de 2 a 27 de agosto: 37

Matriculados que jamais assistiram a qualquer aula no período citado: 19

Matriculados que assistiram até 20 aulas no período citado: 4

É claro que não é simpático publicar esses dados. Por outro lado, os light pedagogos terão uma multiplicidade de explicações e de justificativas para tais reiteradas ausências. O que é real, independentemente do que possamos querer em relação aos dados, é que (a) isso não acontece somente em relação a essa determinada turma, (b) não tem havido qualquer ameaça de violência no turno da noite e (c) a escola, os professores, os funcionários, a estrutura toda da escola funciona.  Apenas no período citado, 19 dos 24 alunos sequer puseram os pés em uma sala de aula. Não há planejamento que resista a isso, não há aprendizagem que resista a isso. De dizer que, dos que assistiram até 20 aulas, nem sempre apareceram na sua totalidade.

Se um dia a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre resolver simplesmente fechar a EJA da Chico Mendes, haverá uma revolução. Todos ficarão indignados, desde os alunos até a direção da escola e assim por diante. Professores serão removidos ou para o ensino regular ou terão de trabalhar em outras escolas. Essa infrequencia não é de agora, já faz tempo em que a escola vem alertando seriamente os alunos da noite de que corremos o risco de a escola fechar. Se isso acontecer, independentemente do que haverá em relação aos professores, a comunidade toda perderá. Adultos terão de procurar outras escolas, talvez não tão próximas de suas casas ou de seus trabalhos. Haverá menos estudo, haverá menos oportunidades, haverá menos ocupação com a aprendizagem.

No entanto, todos os esforços conjuntos de professores e da direção da escola esbarram na indiferença de boa parte dos matriculados em valorizar o que possuem e possuem de graça. Toda uma estrutura de escola funcionando, mas parece que alguns, infelizmente a maioria, preferem simplesmente não frequentar a escola.  Pensando sobre o assunto, não sei até que ponto alguns fatores concorrem para o fato. Vejamos.

(a) a juvenilização da EJA implicou no fato de que alunos com idade acima de quinze anos podem se matricular sem qualquer tipo de restrição. Alega-se, aqui, o direito do aluno, mas a convivência entre alunos do curso regular com adultos trabalhadores não tem sido uma receita bem acolhida. Os adultos se sentem acuados em face do desrespeito de uma boa parte dos jovens, e das suas linguagens sem qualquer tipo de considerações. Se antes da juvenilização isso não ocorria, hoje senhoras e senhores já adultos, maduros, convivem com palavrões e um desrespeito atávico, importado através dos costumes estúpidos do ensino regular. Nem todas as pessoas estão acostumadas com humilhações, com palavrões, com desrespeito. Afinal, nem todas são professores, óbvio…

(b) a enturmação no turno da noite muitas vezes simplesmente traz para a EJA aqueles alunos problemáticos no ensino regular, revelando-se como uma excelente válvula de escape, bastando aproveitar facilidades pedagógicas. Um aluno que entre na EJA pode se formar em até dois ou três anos, considerando que ele pode ser promovido a qualquer tempo, desde que demonstre condições para tanto. Ora, a EJA se estrutura através de totalidades iniciais, que normalmente se destinam a alfabetização e totalidades finais, que correspondem, em tese aos anos finais do regime de ciclos. Assim, um aluno que venha do ensino regular será enturmado nas totalidades finais, o que reduz mais ainda o tempo efetivamente dedicado ao estudo, se compararmos com o ensino regular. Assim, a migração é extensa, mas a mera enturmação não diminui problemas havidos no ensino regular e tampouco transforma moleques em estudantes. Por via de consequencia, os adultos acabam se afastando do ensino de jovens e adultos, enquanto os jovens não aproveitam tal oportunidade. Cria-se, portanto, uma bolha anacronica que apenas empurra para fora ou os adultos, em face de uma convivência forçada em um meio que não se apresenta como educador, ou os jovens, que não utilizam de forma conveniente a oportunidade que lhes cai na mão, apenas transferindo comportamentos caóticos para outro turno de estudo.

(c) a desestruturação ou a falta de uma estrutura formal curricular eficiente no ensino de jovens e adultos igualmente influi no afastamento dos alunos.

Em face unicamente desses três fatores, percebe-se que não há um sentido maior na preservação dessa estrutura da forma como ela está organizada. Por outro lado, os recursos públicos aportados continuam sendo utilizados da mesma forma. A escola gasta com professores, a escola gasta com iluminação, a escola gasta com serviços, e por aí segue a demanda. Na ponta que concerne a frequencia dos alunos, fator mínimo para a aprendizagem, considerando que o ensino é presencial, não há resposta, não há feedback.

Isso vai chegar a um ponto em que algum administrador com peso político e pensando de acordo com a Escola de Chicago dirá: “Esgotou-se. Chega.” A SMED, como sempre,  motu proprio, calará.  E calará tarde, pois não apresentou uma perspectiva mais real ao que se impõe no dia-a-dia e que ela conhece ou deveria conhecer. Nesse dia reunir-se-á a comunidade, os alunos, os diretores, talvez algum que outro jornal, mas, nessa altura do jogo, como diziam os romanos, tollitur quaestio.

Há um livro famosíssimo de Gabriel Garcia Marquez cujo título cai como uma luva ao que se apresenta: Cronica de uma morte anunciada. O livro foi editado em 1981, a história nada tem a ver com o que escrevi acima, mas o título do livro, sem dúvida, é bastante revelador para o que ora se mostra na educação de jovens e adultos.

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