Limites, professores e alunos


Pessoas devem ser tratadas como tal. Respeitosamente, sem que lhes retiremos ou inviabilizemos suas reais possibilidades de crescimento, e aqui a escola e o estudo tem um papel importante. Para Maturana (1)  o que caracteriza o ser vivo é a aprendizagem, desde micro-organismos até o ser humano. Quando, contudo, se trata da aprendizagem formal, é necessário dizer que ela não é absolutamente natural. A aprendizagem formal não se dá por uma necessidade biológica, mas é uma imposição bio-sócio-cultural. Aprender exige disciplina, renúncias pessoais, esforços. Por isso ela é individual, embora não possa prescindir da presença do Outro. Por outro lado, implica em responsabilidades, em compartilhar com o Outro a trilha do aprendizado. Nesse sentido o prazer de aprender implica, igualmente, no de saber-se responsável em relação ao que se busca e ao esforço que dedicamos  a tanto. E saber-se responsável não é pouco, sendo um dos valores que imprime caráter e confiabilidade não só em relação a nós mesmos, mas que também projeta nossa auto-imagem em relação ao Outro.

Em uma sociedade regida pelo consumo e por uma necessidade artificiosamente construída e cada vez mais premente de auto-afirmação, as pessoas não serão cabresteadas para seguir determinados caminhos. A estratégia é bem mais eficiente, e passa pelo convencimento edulcorado. Por que, então, eu deveria migrar de sala em sala, desde pátios e corredores, de um a outro prédio para buscar alunos que sabem exatamente os seus horários de estudo? Por que eu deveria ir atrás de tais atuadores, que agem de acordo com seus interesses, entre os quais o fabuloso direito de matar aulas e perambular, qual partícula no caos, pelos espaços escolares? Me parece que entre as tarefas de um educador não se encontra a de ser um temerário caçador de adolescentes que, desde muito, ostentam buços e seios.

Formar não implica em dar-se braços à repressão, ao confinamento ou aos aparatos de controle mas, antes disso, implica em reforçar a ética, a confiança e o caráter. Se estiverem ausentes tais características, certamente não será a reprimenda vazia que irá construir no adolescente e no estudante um sentido de pertencimento e de empatia que lhe possibilite melhores possibilidades de aprendizagem em um ambiente voltado ao estudo formal. Não será um professor enlouquecido a trotar pela escola que ajudará seus alunos a crescer.

Se os alunos não demonstram em sua prática respeito consigo próprios e com os outros, esse ponto é crucial e deverá ser objeto de intenso trabalho não apenas por alguns professores ou por estrelas iluminadas.  Além da cultura da escola que, no fundo talvez seja a propiciadora de tais situações de indisciplina na medida em que endossa um comportamento inadequado, há setores que devem se responsabilizar diretamente por projetos que sejam efetivos no combate a tal endemia, e esses setores são a Orientação Educacional e a Supervisão Educacional, braços diretos da Administração e da Gestão da escola e que devem trabalhar em conjunto e de maneira concatenada para o benefício dos alunos, da escola e da comunidade. Por seu turno, os pais devem estar implicados no processo.

Ao professor cabe entender que sua atuação profissional não presume o papel de pai e de mãe, não compreende as tarefas e atribuições de um sociólogo e de um psicólogo e o conhecimento claro de que a medicina não é exatamente seu curso de graduação. Portanto, não lhe é possível ficar eternamente buscando cumprir papéis sociais,  afetivos e profissionais que extrapolam de sua competência. Isso, embora seja claro, apresenta uma prática recorrente por meio de professores que entendem que são “responsáveis” pelos alunos ou que buscam apropriar-se indevidamente de um papel sócio-afetivo que não lhes cabe, como se fossem “pais”, “mães”, “tios” e – gloria in excelsis Deo – “tias”. Aliás, há um texto de Paulo Freire que conta pelo menos quinze anos no qual o educador analisa a tendência a tornar de um profissional um tio ou uma tia. Para Freire não há sentido nisso.

Ninguém cresce sem limites, ninguém cresce sem acumular frustrações e responsabilidades. Professores histéricos não ajudam seus alunos, além de envenenar todo um ambiente que deveria ser voltado à cultura, à produção intelectual e à formação dos estudantes. Não é necessária uma rigidez de tropa militar, é indispensável que haja respeito e mesmo carinho pelos alunos, mas há um limite muito claro ao paternalismo e ao regime de matriarcado. Se o ensino é universal, seu sentido também o é. Compete, portanto, aos professores não saírem pela escola mendigando que alunos vão para as salas aprender. A experiência diz que a aprendizagem não acontece quando nossa vontade é invadida, e quando nossos interesses estão voltados para outro(s) foco(s). Em tais situações, o professor pode escolher: ou está agindo como um agente de confinamento, ou está agindo como um tolo.

Responsabilizar-se por alguém não é uma brincadeira pedagógica segundo a qual a mão pesada pode ensinar sem qualquer problema e na qual possamos acreditar. Especialmente quando os direitos se esgotam tão cedo e tão rapidamente quanto palavras soltas e tolas jogadas ao vento. Se você quer que seu aluno cresça, aponte caminhos; se isso não funcionar, mobilize quem pode fazê-lo. Em todo o caso, pense no seu papel e, especialmente no que implica a falta de limites e de conhecimento. Talvez, a partir daí, a luz se faça. Até então, acostume-se ao confinamento e às trevas.

Como disse Chico Buarque, cantando o poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto, a cova “é de bom tamanho, nem largo, nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio”.

(1) Cita-se Humberto Maturana, neurocientista chileno crítico do realismo matemático e criador da teoria da autopoiese e da biologia do conhecer, junto com Francisco Varela, fazendo parte dos propositores do pensamento sistemico e do construtivismo radical. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_Maturana

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