Ralé cognitiva


Embora haja pesquisas, estudos, seminários, encontros, formações, etc, em relação à educação, grosso modo,  concluo que, pelo menos na escola onde trabalho, com a anuência expressa da SMED e com a conivência de todos nós, estamos criando uma ralé cognitiva. Sei que o termo pode ser discriminatório, forte, fora dos padrões normais com os quais se trata a educação, e, sinceramente, se os meus eventuais leitores se desagradarem, estamos por aqui, para suportarmos as possíveis críticas.

Antes, quero deixar claríssimo que isso não se aplica a todos os alunos, claro que não, mas ao sistema com o qual somos obrigados a conviver. Vejamos.

Uma turma inteira de sexta série (vamos deixar os eufemismos de lado como as siglas C isso e aquilo) simplesmente não sabe, não se interessa em saber sequer como se aplica uma operação inversa em matemática.  Será que é preciso que eu vire um showman para entenderem que 7 + 2 é 9 porque 9 – 2 é 7? Será que é necessário que eu consulte tratados pedagógicos para que os alunos aprendam que, se 12 : 4 é 3, então 4 x 3 é 12? Será que eu tenho que fazer mais formações para que meus alunos aprendam que, se m – 4 = -15, então m = -15 + 4, e que, portanto m= -11? Perguntei em uma sexta série quanto é 4.000 dividido por 1.000 e me disseram que é 2, ou ficaram olhando pela janela, ou me olharam simplesmente aguardando a resposta. Dizem eles que 500 dividido por 500 é zero. Meu Deus, seré preciso escrever um tratado para explicarmos isso?

Me lembro do Ginásio Estadual Inácio Montanha, onde estudei há mais de quarenta anos. Escola pública. Média sete para passar de ano. Não atingia os sete, babaus. Me lembro de ter professores de inglês e de francês. Me lembro de ter estudado gramática, de ter lido Machado de Assis, de ter lido todos os clássicos que as escolas exigiam e que os meus professores conheciam de trás para frente e o contrário. Me lembro de ter aprendido equações, me recordo de que muitos alunos eram simplesmente expulsos, quando transgrediam as regras da escola. Que fossem para outro lugar, mas não permaneciam ali, não naquela escola. Era justo, era injusto? Os discursos variam, mas a verdade é que eu aprendi. Fui o único? Não, claro que não.  Então porque, como professor, meus alunos não aprendem? Não se interessam, ficam debochando, conversando e rindo o tempo todo? Isso é ensinar? Claro que não é.

Mas eu vivo em um momento democrático da educação, no qual um professor é cobrado insistentemente pelo sistema, que é o mesmo que instaura a bizarria na escola, elege e protege a irresponsabilidade coletiva, privilegia o laissez faire, privilegia a falta de ética e de consequencia nos atos perpetrados pelos alunos. O resultado disso tudo, além dos discursos compensatórios e das teses acadêmicas é, sem dúvida, a criação de uma ralé cognitiva. O preço será cobrado mais tarde pela mesma sociedade que se aliena da educação, que pensa que escola é depósito e que professores são “substitutos” naturais de pais e mães. Eu não estarei mais ensinando, mas tenho certeza de que a formação de uma ralé cognitiva não será em vão. Muitos vão pagar a conta pelo que não fizeram.

Sem dúvida, muitos.

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