Desabafo


Fonte: http://www.flickr.com/photos/nadjazz/3291871373/

Nada do que necessitamos se encontra aqui. Nem atenção, nem presteza, nem interesse, nem conhecimento, nem educação, menos ainda respeito.  Aqui não há nada, senão o deboche cotidiano, diário, orquestrado por determinadas pessoas e seguido por outras. Aqui nada se entende, nada se busca, nada se efetiva ou se declara. Aqui alunos, que nem isso são, caminham pela sala, gritam, fofoqueiam, se xingam, sentam em cima das classes e absolutamente debocham dos professores, dos colegas, da direção, dos serviços da escola, enfim de tudo. Mentem com uma desfaçatez impressionante, sem o mínimo senso de ética.

A república do deboche é, teoricamente uma sala de aula. Na verdade é só uma sala, porque não há condições de se aprender qualquer coisa. Os que ali tentam ensinar ficam na posição de reféns e enquanto ali estiverem, devem cumprir a sublime tarefa de bancarem os bobos da corte; irá, tal pessoa que busca ensinar, passar por uma série de humilhações, onde será depreciada, negligenciada, ridicularizada, mergulhada no túnel amargo do estresse e da crueldade adolescente programada. Quem pensa que tais adjetivos são um exagero, é porque ainda não provou da inesquecível experiência, na qual uma horda de mais de vinte adolescentes são comandados por meia dúzia de seus iguais, o que ocorre por vários motivos que não importam ser citados aqui.

Sua capacidade profissional é jogada no lixo. Você perde seu tempo, seu ânimo, sua paciência. Fica pior ainda quando se agrega a isso um elenco discursivo que visa infantilizar o adolescente, isentando-o de suas responsabilidades ou ainda desqualificando o trabalho que o professor tenta, muitas vezes inutilmente, fazer.

Há um desperdício fantástico de energia, que deveria ser voltada para o conhecimento; na maior parte do tempo você tem de cobrar comportamentos/atitudes e quanto mais você o faz, mais o deboche aumenta, mais cresce o exercício da estupidez. Então você começa a indagar qual o propósito de estar ali e qual o sentido em existir uma turma assim. Então você percebe claramente que o seu papel não é o do professor, o do mestre, o do educador: o que você faz é simples contenção social.

A mesma sociedade que cobra educação de qualidade é a que joga filhos sem cuidados afetivos, sociais, financeiros dentro da escola  espera que a mesma os mantenha lá, enquanto o resto do mundo trabalha, compra, vende, vai aos motéis, frequenta os shoppings centers. Deseja-se que a escola retenha os adolescentes que iriam atrapalhar o fluxo normal dos negócios; cabe a ela, investida do papel de instituição pré-carcerária, minimizadora dos conflitos sociais, resolver problemas, mantendo adolescentes problemáticos temporariamente fora das ruas. Enquanto o discurso campeia solto, invocando liberdades individuais, garantias e direitos, fica o professor abandonado à própria sorte.

Talvez falte ao professor um instrumento legal/protetor semelhante ao  estatuto da criança e do adolescente ou ainda um conselho tutelar, onde os mestres exerçanm seu protagonismo (infelizmente não juvenil).  O sistema está falido, e isso todo mundo sabe. A questão é ter coragem e assumir, de uma vez por todas, que câncer não pode ser tratado com bandaid.

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