Educação e escola: aproximações


Educação não deve ser deixada para depois, e por ser muito mais ampla que a educação formal, é maior que qualquer instituição. Isso serve para a escola, à qual cabe a educação formal, a curricular, que diz respeito às “disciplinas”, “matérias” e que correspondem a uma seleção prévia de uma dada ciência ou de um conjunto de conhecimentos que passam a ser exigíveis pela escola e pelo sistema escolar em uma determinada cultura e em uma determinada época. A educação formal é, portanto, passível de variabilidade, pois é uma escolha baseada em paradigmas culturais, econômicos, e correspondente a uma dada expectativa social.

A educação, contudo, é maior, é um universo no qual a educação escolar é uma parte. Na modernidade, talvez a escola fosse a mais significativa instituição no sentido de buscar que o estudante se socializasse na mesma medida em que também era a responsável maior para que as atitudes das crianças fossem, aos poucos, sendo aculturadas no sentido de participar de modo conveniente do processo produtivo. A educação escolar era revestida de uma importância ímpar em um processo que não era apenas social, mas também com vistas ao mercado do trabalho.

A escola, contudo, não atendia às camadas mais alijadas do processo produtivo, porque o processo de exclusão social e escolar não tinha qualquer freio. Ou os pobres não tinham acesso à escola ou, se não seguissem a cartilha comportamental da mesma, acabavam desistindo ou sendo expulsos. Hoje temos uma situação inversa. Há uma legislação que se preocupa com a criança e com o adolescente e uma universalização real da e na educação escolar, especialmente no ensino fundamental. Há conselhos tutelares. Há uma explosão de novas necessidades e uma sensibilização de temas que há cerca de trinta anos atrás sequer eram motivo de conversas abertas, muito menos de políticas públicas. Em apenas cem anos o mundo mudou e mudou muito. Para isso contribuíram novas tecnologias, novas fontes de energia e novas configurações de poder. Portanto, há uma absorção de estudantes de todas as classes sociais, com as mais distintas histórias pessoais e comunitárias, com experiências que não seriam objeto de estudo e de apreciação se pensássemos em décadas passadas. E essa universalização foi absorvida, na maior parte, pelas escolas públicas.

A escola se preparou convenientemente para esse boom populacional de estudantes e para as realidades tão distantes das expectativas daqueles em relação aos professores que provêm em sua grande maioria da classe média e da classe média baixa? Que formação tem esses professores e especialmente, que visão de vida possuem? Com certeza não a dos estudantes com os quais convivem no dia-a-dia, não com situações nas quais meninas de quatorze, quinze anos engravidam seguidamente e na qual impera uma violência física e simbólica que é o retrato de uma população normalmente desassistida pelo poder público e sem condições de acessar as condições de uma classe média e classe alta. Uma situação geradora de conflitos constantes, no qual o grito, o tapa, os reiterados xingamentos e o desrespeito entre estudantes colegas de sala de aula são as evidências mais claras de um fosso e de uma falta de capacidade de diminuir tais abismos sociais e cognitivos.

A escola prepara para a cognição, para o conhecimento; verdade que é uma cognitio parcializada, nem sempre atendendo à vontade, ao desejo dos alunos, mas o demais também é muitas vezes bem mais cruel e bem mais excludente do que a escola. Antes a escola expulsava o aluno e hoje não pode mais fazê-lo, porque a educação formal passou realmente a ser tratada como um direito de todos e para todos. O jeito que a escola então reinventou para se livrar do aluno recalcitrante, do aluno que incomoda não somente a si, mas aos outros possui duas formas operativas principais: (a) o aluno será promovido sempre ao nível seguinte de escolaridade, desimportando o que ele saiba ou deixe de saber, pois o que interessa é que ele saia da escola o mais breve possível. (b) o aluno é gentilmente convencido de que há outras escolas nas quais poderá desenvolver suas potencialidades (?!) e opta por sair dessa escola e se matricular na escola sugerida, na qual, normalmente o aguarda uma vaga conveniente e sempre bem-vinda. Pronto.

Por outro lado, o sistema convive com isso, até porque sabe muito bem de certas impraticabilidades pedagógicas. Há nisso tudo uma impropriedade, um sentido de mal estar, de frustração, à qual vem se ajuntar a famosa bandeira da busca de qualidade no ensino. Todos querem que o ensino seja o mais qualificado possível, mas isso é uma retórica bem ensaiada e conveniente, embora inconsistente no que se refere aos dados coletados em exames de proficiência.

Necessitamos de tempo para entendermos um tempo e um mundo mutável que encontramos todos os dias às nossas portas e o sistema de ensino formal também necessita desse tempo para que se adapte, para que as políticas públicas possam se desenvolver e para que a sociedade como um todo aprenda. Não é, portanto, de medidas salvadoras que o ensino, especialmente o público necessita, mas de uma visão consistente do que pretende, sem frases feitas e sem outras bandeiras a serem desfraldadas, numa sucessão infinita de palavras de ordens e de ações omitidas. Precisa-se, além disso, de certa coragem política para nos posicionarmos do ponto de vista educacional. Não encararmos a educação formal como se ela fosse um mero ganha pão ou uma sacola de gatos de frustrados profissionais. Há que se ter uma visão complexificada dos fatos, porque, se há cinco décadas eles pareciam tão sólidos e tão claros, hoje se apresentam como se fossem pontos desconectados, no qual a urgência parece ter sempre a primazia e a ação parece extertorar a cada dia que passa.

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