Evasão programada


São poucos os alunos que são diligentes em aula e que, ante uma nova situação, procuram resolvê-la por seus próprios meios, em termos cognitivos. Cada vez menos o número de alunos que se dispõem a pensar no que lhes é proposto. A maioria está acostumada a pedir. Pedir material de aula, pedir para entrar fora do horário em classe, pedir para entregar trabalhos em data posterior ao que foi agendado, pedir para ir ao banheiro, pedir para ir para qualquer outro lugar, mesmo dentro da escola. Enfim, pedir que expliquemos o conteúdo, pedir de novo a mesma coisa e, novamente pedir. O mundo da aprendizagem, assim, é o da redundância, do repetir ad nauseam, um incomensurável teste de paciência.

Mas há aqueles que realmente tentam aprender, como se algo indizível os levasse adiante. Esses realmente buscam saber, mas são continuamente desestimulados a tanto. Primeiro por salas de aula onde pessoas não se respeitam. Segundo por um sistema de critérios que trata do mesmo modo desiguais, ou seja, que valoriza dentro dos mesmos parâmetros pessoas que habitualmente possuem comportamentos sociais e cognitivos bem diferentes. Terceiro, porque a partir do momento em que os objetos cognoscentes entram em solução de continuidade, são eles, os que estudam, os prejudicados. Em termos gerais, a escola não resolve os problemas que surgem em relação aos alunos que, por uma multivariedade de fatores, não aprendem, enquanto cria problemas àqueles que aprendem. Ao não criar e tornar sustentável um ambiente educador, produz claro desestímulo para a aprendizagem.

Sempre o foco é nos alunos que não aprendem, raramente nos que aprendem, os últimos que, pacientemente suportem os primeiros, se quiserem. Na minha escola ( e isso não deve ser, por óbvio, privilégio exclusivo), bons alunos estão saindo, emigrando, buscando escolas onde se sintam mais seguros, mais satisfeitos, menos ameaçados. Considere-se bom aluno aquele que busca o conhecimento e que desenvolve, ao longo do tempo, uma estratégia de estudo que pode ser ou não mais satisfatória ao seu objetivo. Em outros termos, o currículo social, informal, a prática escandalosa de bullying, acobertada por uma política educacional compensatória, está ajudando a evadir tais alunos de suas escolas de origem. Os que ficam estão em nível médio de aprendizagem, além dos que são apenas e tão-só matriculados, sem qualquer compromisso com a escola, com a aprendizagem, etc.

A partir daí, há decorrências significativas em relação ao processo de aprendizagem, obedecidos os ditames do currículo formal. Ao cair o nível de expectativa da aprendizagem como um todo, há um elenco de predições negativas que se auto-afirmam: (a) complicadores substanciais na busca de uma educação de qualidade; (b) queda dos índices que (querendo ou não) valorizam quantitativamente a aprendizagem, em exames como a prova Brasil e o ENEM e (c) uma tendência amplificada nas questões que envolvem controle, gestão de pessoas e de processos administrativo-pedagógicos.

De todo modo a escola deverá ganhar em rigidez e as normas, que se pretendam aplicáveis, cada vez mais se perdem em um cipoal patrocinado pela indisciplina e pelo desinteresse. Alunos que tendem a uma história escolar de dificuldades sequer entendem, sinceramente, porque são aprovados. Mesmo eles, beneficiados, não conseguem chancelar uma situação na qual tem plena consciência que não contribuíram nem construíram ao longo do ano letivo, ou seja suas próprias aprovações, gentilmente doadas por um sistema educacional que privilegia antes a economia do que a aprendizagem.

O foco na aprendizagem se perde quando o momento de aprender se dilui em um ambiente hostil. Equipamentos são necessários, importantes, mas não induzem necessariamente à busca do conhecimento. Aprender exige mediação, exige que haja uma significância e valoração individual. Seja o que for, a artesania da educação prepondera, especialmente nos níveis fundamentais, onde há razões maiores para não confundirmos formação com informação.

Perdido ou prejudicado o processo de ensino e de aprendizagem, alguns alunos entendem que sofrerão perdas reais cognitivas se persistirem em tal ambiente. Mais um pouco e a decisão irá se consolidar e eles migrarão para outras escolas. Os motivos são ou a insegurança, ou o bullying ou simplesmente a perda de qualificação do processo pedagógico. E qualidade é o produto do desenvolvimento de um plano coerente do ponto de vista pedagógico, algo que não se dá por decreto, mas que depende não apenas dos professores e dos alunos, mas de opções claramente assumidas pela escola. Em não ocorrendo tais melhorias, formais e informais, assistiremos, entre medíocres e tensos, entre confusos e perplexos, a evasão programada dos que querem, de uma vez por todas, aprender.

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