Fagocitose pedagógica


Fagocitose

Aqui se reclama, se eleva o reclamar à uma espécie de arte da aporrinhação. Parece haver, permeando o ambiente, um sentido e um sentimento de desgaste, provocados muitas vezes por situações reais e outras artificialmente. A regra geral é se mostrar insatisfeito, é contribuir para que o ambiente da escola seja o pior possível. Houvesse um balcão para acolher as reclamações e ele já teria ruído, se esfacelado. Alunos reclamam de alunos, que reclamam de professores, que reclamam das turmas, que reclamam dos funcionários, que reclamam da direção que reclama da instabilidade forçada pelas incessantes reclamações e pela falta de capacidade proativa, enquanto os professores reclamam dos serviços (SOE e SSE) que por sua vez reclamam da falta de condições para trabalhar, e assim forever et caterva.

O ciclo da reclamação é algo viciante, de tal modo impregnado e presente que passou a ser uma tendência uniforme e naturalizada, mesmo que por vezes sem muito sentido, a não ser purgar pecados individuais. Há aqueles que são mais ativos, outros menos, mas, independentemente do grupo a que pertença, todos contribuem para a infelicidade geral; engrossa-se cada vez mais a fila dos injustiçados, dos perseguidos, dos que acreditam estar dentro de uma instituição caótica. Poucos, como dissemos, são propositivos e autênticos. Há os cínicos descarados, que são capazes de estar xingando uma determinada pessoa para, no segundo seguinte, em um exercício de prestigitação, apresentarem às suas vítimas de falatório o mais feliz dos seus sorrisos e o braço mais amigável para o momento de solidariedade. É um constante exemplo de como podemos atuar.

Em tal ambiente as pautas de reunião, por exemplo, são normalmente vitimizadas. Sempre haverá alguém com a falta de discernimento suficiente para tratar de seus assuntos, de seus interesses, de seus problemas de modo extemporâneo, de maneira a levantar discussões inúteis, bizarras, inconclusas. Por conseqüência desse transe privado, no qual a verborragia, o teatro de comédia e a redundância redundante são os maiores protagonistas, poucos temas conseguem evoluir razoavelmente e em noventa por cento dos casos discussões de fundo, sérias são sumariamente relegadas para um futuro que, sabemos de antemão, não virá tão cedo. Há um desperdício monumental de tempo, de propósitos, de paciência, de talento. Não é possível, em sã consciência, entender que isso não seja orquestrado, que isso não seja uma estratégia articulada com o intuito mesmo de gangrenar de início todo o qualquer processo de razoabilidade.

Assuntos relevantes são postergados porque alguém resolve ter um ataque histérico por sentir-se, sabe-se lá quando, sabe-se lá porque, sabe-se  lá em que circunstâncias, atingido, ameaçado, ou porque resta indignado ante um ponto de vista opositor. Nas reuniões escuta-se piada, escuta-se choro, pessoas se desesperam, não respeitam hierarquia, tomam a palavra e não a largam, tal como amantes indignados; as pessoas vociferam, se enraivecem, continuam fomentando cada vez mais o desencanto, a desinteligência, a desarmonia. E há aquelas que simplesmente nada fazem. No entanto, como diria o poeta, a veia ainda pulsa. Os corredores são bolhas de boatos, de diz-que-diz-que qued se esvazia e que explode, engolfando a tudo e a todos. Como é que chama mesmo? Ah, sim, acho que fagocitose…

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