Lástima


Escrito em 17 de novembro de 2006

Estou temporariamente sem a chave geral das salas de aula. Na escola onde trabalho, tudo deve ser fechado, lacrado, cadeado; nada pode ficar aberto. Há colegas que dão aula chaveados(as). Hoje, ao sair de uma das turmas, esqueci do caderno de chamadas na mesa do professor. Isso antes do recreio, que durou trinta minutos. Na volta, minha supervisora avisou que outro colega, ao entrar na mesma turma, viu que alguns alunos estavam mexendo no caderno de chamada e mesmo adulterando-a.

Esse, infelizmente, é o espírito da escola onde trabalho. Você deve tratar os alunos como estranhos, como pessoas nas quais não se pode confiar (e, verdade, pior ainda, muitas vezes realmente não se pode!). Objetos somem a toda hora e a tendência é você não questionar mais nada. Penso: fui ingênuo ao deixar o caderno na sala de aula? Ou simplesmente achei que isso não iria acontecer e que poderia confiar brevemente nos alunos?

Ah, sim, claro, eu liberei os alunos às10h10min exatamente no horário que bate para o recreio e, naquele horário, não havia mais ninguém no corredor, pois ficou informalmente instituído por alguns colegas que os alunos devem ser liberados às 10h, dez minutos antes, se possível. Se houvesse um professor no andar, eu teria para quem pedir a chave para fechar a sala. Como não havia, pensei que podia confiar, esquecendo que trabalho em um lugar no qual inexiste confiabilidade no outro. Os alunos que adulteraram sabem que absolutamente nada vai ocorrer com eles, que nada disso terá conseqüência, a não ser uma advertência que, teoricamente, é séria, mas que na prática é mero discurso.

Já com o professor, não. Fui chamado a atenção – justiça seja feita, minha supervisora foi gentil e mostrou-se pesarosa com o fato – terei de retificar o caderno, conferir data a data, etc., em um trabalho chato, maçante, burocrático.

A situação demonstra que questões de valores e de ética, que deveriam ter imensa relevância em uma escola, já que sua principal tarefa é a de formar pessoas, está esvaziada. Somente fazem o que lhes traga alguma vantagem. Se for preciso adulterar, se adultera, se for preciso mentir se mente, se for preciso passar como um trator por cima do outro, se passa. E isso, muito claro fique, não é de hoje.

Uma lástima.

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