Lembranças de aprendizagens


Março 2007

Quando me graduei em licenciatura de ciências e iniciei minhas atividades como professor, tinha basicamente duas pretensões: “dar uma boa aula” e “fazer com que meus alunos aprendessem”. Era outra época, isso ocorreu há décadas atrás e minha formação era basicamente técnica no sentido curricular. Hoje tenho a visão de que a licenciatura nos preparava para sermos técnicos em nível médio para a indústria; aí acrescenta-se no currículo algumas poucas disciplinas genéricas da educação e – presto! – somos professores do ensino fundamental, além de potenciais trabalhadores na indústria e no comércio. Hoje, após tanto tempo, posso constatar o que políticas públlicas fizeram com o ensino e, especialmente, como a sociedade mudou, no sentido de também dar um novo rosto à educação. Em um mundo dominado pelo pragmático e pelo lucro, os valores sociais simplesmente acompanharam tais influências. Os homens e mulheres, hoje, aprenderam a banalizar e a mercanciar com seus próprios sentimentos, angústias, perdas. Conseqüentemente o fazemos com nossos valores, com nossas idéias e com nossos desejos. A educação hoje se instaura dentro desse processo de desgaste progressivo de humanidade, assolada pela compulsão da compra e do sucesso.

O tempo foi revelando complexidades que até então eu talvez supusesse, mas que eram absolutamente distantes. Em 2001 ingressei na FAPA, aqui de Porto Alegre, para fazer licenciatura em pedagogia, unicamente pela influência de minha mulher. Não fosse a Ana, isso não teria acontecido. Durante o curso, passei a ter um contato bem mais claro e acadêmico com tais complexidades. Repensando criticamente o meu início profissional me vejo como uma mistura, então, de ingênuo e de romântico. Enfim, todos temos um pouco de Don Quixote, mesmo que o tentemos sufocar. A visão que eu tenho da educação hoje passa pela complexidade que vai desde o processo de ensinar até a macro-economia que determina, não raro do exterior, as políticas educacionais brasileiras o que é, especialmente, uma lástima.

De todo modo, tais políticas, mesmo que não percebamos, estão dentro de nossas salas de aula, nos procedimentos de avaliação, no número de alunos por turma, no entorno da escola e na valorização ou não do estudo pelas famílias dos nossos alunos. Tais políticas influem sobre o salário dos professores, sobre a maior ou a menor carência material das escolas, sobre o fato de se inaugurarem ou não novas escolas, sobre a merenda escolar, sobre um mundo de necessidades nos quais a escola se insere. Não podemos simplesmente ignorá-lo, acharmos que apenas com nossa boa vontade e com uma posição de falsa neutralidade política serão corrigidos os problemas da educação. Eles passam por todos esses eixos, que se interpenetram, que dão um rosto atualizado do ensino. Para o bem ou para o mal. Queiramos ou não, somos todos atores, mais ou menos voluntários, mais ou menos envolvidos nesse processo.

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