Perda de tempo


Conversando a gente se entende? Concordo, mas na escola onde trabalho falta muito para conseguir conversar algo que não seja os assuntos circulares e sem futuro, além das reclamações acerca de quase tudo e todos na sala dos professores. Há uma enorme apatia para a discussão de temas relevantes, como, por exemplo, carreira profissional. Assuntos sensíveis sistematicamente não são analisados a fundo. Contudo o fato não pode ser debitado unicamente à direção. A dinâmica, em reuniões é a seguinte:

Primeiro os assuntos administrativos continuam desde sempre tendo prioridade;

Segundo, os assuntos privados continuam furando qualquer pauta, pois qualquer professor se acha no direito de interromper o trabalho proposto para resolver ou discutir os seus problemas o que demanda tempo e paciência de seus pares, mesmo porque assuntos individuais deveriam – é o que diz o bom senso – ser resolvidos em outra instância que não reuniões grupais de professores;

Terceiro, praticamente nenhum assunto é esgotado, porque não existe a cultura de um estudo anterior sobre temas relevantes e então os professores apelam para o famoso achômetro sem qualquer referência que possa colaborar efetivamente para um melhor encaminhamento do assunto;

Quarto, nessa altura da peleia, alguém levanta um caso específico e pronto! os colegas comentam sem qualquer critério além da suas próprias convicções e, num zás! troca-se de assunto, normalmente porque “não se tem tempo” para concluir o tema. Por outro lado cada um que quis ou pode falar fez a sua catarse psicológica e então pode, confortado (a) enfiar sua viola no saco e voltar para os assuntos da vala comum, a saber-se, desde seus achaques pessoais até a vida das suas empregadas ou algum comentário a respeito do nada.

O interessante é que a escola tem duas horas de reunião por semana o que, por baixo, perfaz cerca de oitenta horas em dez meses de atividade. Se pensarmos que são três turnos de atividade, são duzentas e quarenta horas por ano letivo. Não é pouco, então fica claro que o problema não é tempo, mas, de um lado a sua administração e por outro o papel convenientemente passivo dos professores.

Temas como avaliação, questões pedagógicas, carreira profissional, relações com a comunidade, papel dos diversos setores na escola, indisciplina e outros nunca chegam sequer a constituir um mínimo consenso mediado e menos ainda uma orientação clara e unívoca, o que leva a maiores confusões que tendem a fazer com que cada dia de trabalho seja um dia a mais de aventura, de acordo com as circunstância do cotidiano.

Para tanto concorre a alienação de colegas que pensam especialmente em acariciar seus egos, obter vantagens quanto a horários, discutir seus teréns e não dar atenção a qualquer assunto que demande estudo, posicionamento político ou o envolvimento com questões profissionais. Embora uma boa parte tenha qualificação em cursos de especialização e de mestrado, são raros os que se posicionam quando o assunto mereceria intervenções qualificadas, ficando todos reféns de quem grita mais, de quem chora mais, de quem se estressa mais e de quem controla mais os mesmos professores.

Por fim, alguma mente iluminada determina regras, regras e regras que, todos sabemos, existem para serem burladas, desrespeitadas, distorcidas. Por exemplo: não suporto mais ouvir a expressão “regras de convivência” e “direitos e deveres”, quando a escola não possui estrutura suficiente para responsabilizar quem burla tais semânticas lingüísticas. Assim como não suporto mais o psicologismo de colegas que sistematicamente tentam livrar a responsabilidade de alunos com o argumento de que eles “tem problemas”, ao que se segue uma lista infinda de atribulações et caterva.

Realmente um desperdício absurdo, no qual o tempo passa a ter uma valia cada vez menor e a qualificação profissional se perde em meio a uma situação onde a indefinição pedagógica parece ser o bem comum a ser incessantemente buscado.

Sugere-se que:

Primeiro, os professores reflitam sobre a possibilidade de que sua profissão tem um campo teórico próprio, e que conhecê-lo não é nenhum demérito, antes pelo contrário, é necessário para sua prática;

Segundo, que haja uma pauta permanente de estudos a respeito de vários temas que não são passíveis de soluções imediatas, porque são complexos, a ver: avaliação, currículo, relações ensino-aprendizagem, maximização dos recursos da escola, investigação sistemática sobre o plano de carreira, influência de empresas privadas sobre a vida dos profissionais da escola, plano político pedagógico, relações institucionais com a provedora, estudos sobre os conselhos de classe e encaminhamento das questões que prevêem retenção ou promoção de alunos, registros, tratamento de questões funcionais, relações com a comunidade, forma de atuação pedagógica e muito mais;

Terceiro,  que procure se objetivar as falas dos professores e que eles se comportem em respeito aos seus pares como gostariam de ser respeitados e que aprendam a escutar, a refletir não com base nas suas opiniões pessoais, mas à luz do que estudaram, utilizando argumentos que não sejam dispersivos, passionais ou simplesmente tolos;

Quarto,  que não se perca tanto tempo com questões administrativas. Não adianta haver uma pauta se ela simplesmente não é cumprida. Não adianta haver pautas que não tenham a ver, em primeiro, com as aflições dos alunos e dos professores, com as suas necessidades prementes;

Quinto,  que se proponha, se reconheça e se implemente uma cultura política na escola, de modo que a mantenedora também seja cobrada, responsabilizada e pressionada acerca do que faz ou do que deixa de fazer, deixando a escola de ser uma mera caixa de ressonância do que encaminha a secretaria municipal de educação, passando a constituir uma identidade própria e afinada com sua visão de educação.

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