Representatividade em outras mãos?


 

Escrito em 30 de outubro de 2007

Daqui a mais algumas semanas elegeremos a direção da escola onde trabalho. Até o momento, pelo que se saiba, não há chapa opositora, pelo que teremos um cenário plebiscitário: sim ou não. A direção atual será ou não aprovada pelos seus pares e ponto final. Isso significa que, pelo menos do ponto de vista formal, não há uma corrente de pensamento que tenha força política suficiente para propor algo distinto do que aí está posto, o que é interessante, pois as alternativas, do ponto de vista político são as seguintes:a) o grupo de professores está satisfeito com a atual direção, e por isso pretende mantê-la;b) o grupo de professores é indiferente ao que irá ocorrer, e está interessado mesmo é em alguém que fique responsável pela escola nos próximos três anos;c) as forças de interesses da escola estão baixamente tensionadas, com a admissão clara de um grupo dominante, que tem capacidade de submeter ou influir fortemente sobre os seus pares.

Em realidade, há uma interação descontínua destas posições. Na última hipótese, interessa ao grupo dominante respaldar uma posição conservadora, pois ele mesmo estende aí os seus domínios e as suas zonas de influência; nesse caso, o grupo dominante estaria muito mais pensando em manter seu status e aprofundar a sua consolidação do que preocupado com os rumos da escola. Se houver uma combinação da segunda hipótese com a terceira, novamente o grupo de domínio sai prestigiado. Se for, contudo, a indiferença que respaldar uma provável vitória plebiscitária, é mais que tempo de a escola repensar-se enquanto instituição e especialmente enquanto centro de formação.  

Discordo da imagem de uma escola baseada em consenso, como claramente entende a direção atual; entendo, sim, que há uma política de acomodações e conveniências. Consultemos a história mais recente.

Em 2004 a atual direção entendeu que  todos os professores poderiam apresentar projetos setoriais para a escola e que compunham a rede diretiva. Eram eles a área de supervisão e orientação escolar, biblioteca, coordenação cultural, laboratório de aprendizagem, coordenação de turno, entre outros. As regras permitiam a professores apresentarem projetos em conjunto e/ou separadamente, observando-se a carga horária prevista para cada um desses setores. Se houvesse multiplicidade de interessados pelo mesmo setor, os pares elegeriam a proposta vencedora.  Participei de um grupo que apresentou um projeto conjunto e integrado de orientação e supervisão escolares, que seriam unidas sob uma sigla única: SOPEC. O resultado obtido pelo grupo anunciava claramente problemas futuros, pois o projeto apresentado foi eleito por uma margem de menos de cinco por cento de votos. E isso para o braço pedagógico da escola. Foi, sem dúvida, uma caminhada tortuosa, dentro de um clima no qual a instabilidade emocional, os interesses pessoais e as simples estupidezas do cotidiano configuravam um cenário de instabilidade e de plena rejeição por parte de alguns professores que, fechados em seus grupos de influência, passaram a minar violentamente o trabalho que a SOPEC buscava fazer. Questões pessoais, idiossincrasias, modos errados de se trabalhar o conflito, raivas destilando e mentiras e desinteligências?

Ah, sim, houve, de lado a lado, para todos os gostos e calibres. Desde professora gritando que “tu não manda em mim”, “eu faço o que eu quero”, até sutilezas mastodônticas como criar listas em separado (claro que de consenso, obviamente que de comum acordo, ma chèrie,..) sendo levadas à atual direção para que o grupo da tarde e o grupo da manhã de professores simplesmente indicassem seus representantes. Os demais, que haviam sido eleitos, deveriam simplesmente sair para dar lugar aos novos ungidos. A posição da direção foi a de Pilatos: já agastada, de um lado por uma SOPEC que agia de forma aguda e pressionada por professores que compunham claramente grupos de interesse contrários à SOPEC, decidiu: se a maioria quer assim, que assim seja. Tollitur quaestio. Assim foi extinto precocemente uma proposta de trabalho de um  grupo que fez um projeto pedagógico de três anos e que nichos de influências assim não quiseram. Por questões internas e alguns desacertos daqui e dali, o que a direção da escola fez foi promover, junto com o mesmo grupo dominante, a incineração dos que não lhe eram mais caros.

Para alguns, escutar a voz da eminência parda é ser democrático.  Obviamente a nova indicação do grupo de prestígio foi  justamente para satisfazer seus interesses. E tudo foi cumprido de acordo com o que regrava a democracia…

Já em 2007 tivemos uma greve convocada pela categoria dos municipários. Qual foi a posição da escola? Fez uma assembléia interna para “saber a posição dos professores em relação à greve”. Ou seja: uma parcela, a menor, resolveu aderir à greve e outra resolveu aderir aos seus interesses particulares. Com isso, mais uma vez se produz um racha entre os professores, alguns mais políticos, outros mais obtusos, mas sempre uma situação de conflitos. Ora, se houve uma assembléia geral em que todas as categorias foram ouvidas, porque não seguirmos o que a categoria decidiu? Porque alguns professores assim não quiseram, os mesmos que encapsularam a escola dentro de seus precários limites de interesses. Pronto, temos aqui uma nova forma de administrar, pela qual eu escolho se vou ou não vou seguir uma decisão de maioria. Isso, para alguns (adivinhe pra quem?) é democracia. Em meu entendimento, decisão de categoria não deve ser objeto de novas discussões. No caso, a escola onde trabalho inovou. No seu intuito de ser mais realista que o rei, criou a possibilidade de acatar ou não o que a categoria de municipários já havia decidido.

Imagine-se o clima e as conseqüências criadas entre grevistas e não-grevistas, quando retornamos para a escola.Por agora, a direção convocou os professores dos três turnos para discutir se os possíveis concorrentes à direção (até agora ela própria) deveriam apresentar equipes já definidas ( inclusive para a área pedagógica), configurando-se como chapa ou se os professores, em seus respectivos turnos, deveriam indicar seus representantes. Adivinhe qual proposta ganhou? Bingo!A última proposta foi escolhida.

Assim, uma direção será eleita e terá de trabalhar com pessoas indicadas por outras pessoas, que não ela própria. Uma direção eleita, portanto com representatividade e legitimidade, abre mão de tal representatividade ao delegar a grupos de professores a capacidade real de indicarem quais pessoas deverão integrar a própria equipe diretiva! Obviamente os grupos dominantes indicarão pessoas afins para ocuparem posições estratégicas na escola, começando pela área mais sensível, a de coordenação pedagógica. A direção empossada, portanto, ao aceitar a regra que ela mesma colocou em votação vai ficar inteiramente à disposição e ao alvitre desses grupos. Não há absolutamente nada que indique que esses mesmos grupos não poderão mudar de idéia no meio do percurso. Se o fizerem, vai-se repetir 2004?

Outrossim, se tais cargos vão ser indicados, isso pressupõe um acordo ou um jogo de interesses entre aqueles que indicam e os indicados, que podem ou não ser inocentes úteis, assim como igualmente não supõe uma interatividade mais freqüente com a direção da escola. E essa sutileza, sem dúvida, é bastante expressiva. Parece que caminharemos não na formação de grupos de trabalho afins, mas pela concedida bifurcação do poder. Para uns, isso é democracia. Na votação, entendi que deveria votar pela escolha dos grupos. Há certos riscos que não quero correr. E, ao fim e ao cabo, se a própria direção da escola não se importa com quem trabalhará, devo eu pelo menos tentar assegurar o que considero melhor para a escola. Nessas horas, me questiono: representatividade prá que? 

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