Verborragia redundante


Após assistir um show de verborragia redundante em uma reunião na minha escola (Chico Mendes) sábado último que tratava de plano político-pedagógico, resolvi dedicar este post àqueles que, de modo tão destemido, se entregam a tais elucubrações mentais.

 

Às vezes é necessário um gravador. Mais do que isso, uma filmadora. Ou talvez uma filmadora com um gravador embutido. Para que tudo isso? Para registrar, documentar, explicitar, sem nenhum corte, sem nenhuma edição o que significa, na essência, o fenômeno da verborragia redundante.

O mesmo é basicamente é uma expressão do eu desatinado: todos devem conhecer as minhas opiniões e os meus pontos de vista, mesmo que opiniões e pontos de vista semelhantes ou mesmo iguais já tenham sido expressos. Não importa o que os outros digam, mesmo que eu concorde com eles, pois eu tenho de repeti-lo, se possível à exaustão.

O verborrágico não consegue, simplesmente não consegue aguardar a sua vez de falar, pois parte do princípio de que o que ele (ou ela) vai dizer é o mais importante, é o fundamental, é o que mudará o rumo das coisas. Por isso, ser verborrágico e redundante prima pela deselegância, pela mesmice e até pela grosseria, por não respeitar o espaço crítico-social do(s) outro(s). Quando muitos verborrágicos redundantes se unem, não há o que possa ser mediado, pois cada qual é ou quer ser a medida de todas as coisas.

A situação mais se agrave pois todo verborrágico redundante se julga uma referência a qual os demais devem adorar, de preferência se submetendo à tão infalível ideia ou opinião.

É-lhe impossível ser coordenador, organizador ou mediador de uma mesa de trabalho, simplesmente porque fica em uma dúvida muito cruel: ou segue a pauta, ou inscrições para as falas, ou não dá a mínima para isso, falando quando bem entende. Esse é o nó da verborragia redundante. O desejo de falar é maior que o de organizar e escutar. Aliás, escutar é um martírio, quase uma ofensa. Prefere sempre que os outros o escutem.

Todo verborrágico redundante tem o ego inflado, mas apresenta algumas falhas interessantes na construção do superego, por isso às vezes faz o papel de ridículo. Tem um prazer dionisíaco em cortar os argumentos dos outros, tentar manipulá-los, dizer o que já foi dito, fazer perguntas desnecessárias para então responder aquilo que todos já sabiam. É irresistível para o mesmo aconselhar na hora indevida, assessorar quando não há mínima necessidade, explicar quando o assunto já está entendido, discutir apaixonadamente por uma bobagem qualquer e sentir-se ofendido pessoalmente quando um outro argumento não é a sua opinião. Uma de suas preferências é dizer ao outro o que deve ser feito, sem ter dado a esse mesmo outro a chance de fazê-lo.

Em certo sentido, a verborragia redundante pode ser epidêmica. Se pensarmos seriamente, podemos dizer que a mesma é o post-mortem da educação, na medida em que não é nada educado, ou crítico, ou democrático fazermos com que os demais escutem cantilenas, catilinárias repetitivas ou sejam miseravelmente cortados em seus raciocínios.

É possível que o verborrágico redundante queira, no fundo, uma admiração especial, uma platéia que o adule e o faça feliz e que, no final da apresentação no palco, seja carregado em triunfo. Desde que o texto da peça, claro e evidente, seja um monólogo.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s