Ensinamentos dos pais


Eu e meu padrinho Benjamin Irmann

Ensinamentos dos pais

Muitas vezes penso que meu mundo pessoal era razoavelmente simples, mas, em verdade, não era. Tendo a lembrar mais das coisas agradáveis que das desagradáveis, mas isso não é parâmetro para algo que extrapole das minhas próprias visões de mundo. Tive pais que me educaram dentro do melhor que criam, e isso incluía algumas premissas

(1) havia uma educação paterna, e isso era um assunto privado, resolvido em nossa casa e jamais transferido para a escola. Escola ensinava, pais educavam. Se a criança “não tinha educação” a questão era dos pais, não da escola.

(2) eu tinha de estudar, pois esse era o melhor caminho para ter uma vida digna que me daria acesso à cultura, lazer e um trabalho no qual houvesse condições de ascenção social; talvez a socialização e da convivência fossem o mais importante da educação, segundo meus pais.

(3) a palavra dos pais era única e mesmo que eu me contrariasse, não havia nada que pudesse fazer, senão seguí-la; meus pais me amavam profundamente e acima das expectativas de quem quer que fosse, por isso me educavam também de maneira profunda.

(4) eu devia obediência aos meus pais, o que incluía não desaforá-los, menos ainda ser irônico ou usá-los como instrumento de deboches. Tal obediência derivava do respeito e dos limites impostos pelos mesmos.

(5) quando desejava alguma coisa, eu era obrigado a esperar que meus pais pudessem adquirir essa coisa. Isso significava, por exemplo, passar o ano todo esperando por uma bicicleta ou por algum brinquedo mais sofisticado.

(6) eu devia ser verdadeiro e autêntico, mesmo que isso implicasse em desconforto; melhor uma reprimenda justa do que um castigo que poderia ultrapassar o que cometera, sendo que nunca um castigo corporal.  Quanto à mentira, de esclarecer que para os mesmos mentir e omitir se equiparavam em efeitos, portanto…

(7) Eu deveria ser uma pessoa solidária e confiável, no sentido de mesmo abrir mão de meus interesses quando havia um valor maior a ser cuidado. A confiança era um requisito indispensável, nos meus relacionamentos, fossem extrapessoais, fossem estritamente profissionais.

Esses eram princípios básicos. Dito assim, poderíamos pensar que eu estava sendo educado para ser uma santa criatura, uma pessoa pública ou alguém que, de algum modo, poderia ter e dispor de alguma influência social maior. Engano. Muitos foram educados seguindo e segundo esses parametros. Foram criados por seus pais para a honestidade, a seriedade de propósitos, a solidariedade, a polidez e a clareza de intenções.

O mundo que conhecíamos seguia uma estrutura verticalizada e o atendimento a tais requisitos, em conjunto com as habilidades e ensinamentos colhidos e desenvolvidos ao longo de nossas histórias eram significativos não-só para que fossemos conhecidos como cidadãos, mas também para alavancar nossas possibilidades e posicionarmo-nos de modo mais eficaz ante os posicionamentos e decisões que a vida nos imporia. Contudo, de 1954 até hoje, houve mudanças importantes não só no modo de pensar mas especialmente na vida produtiva, o que fez com que valores sofressem grandes alterações.

Quando reflito sobre o que tanto teria influído em tais mudanças e transformações, algumas palavras me vem a mente: tecnologia e perspectivas distintas no que concerne à economia, trabalho, movimentos políticos e sociais.

Em pouco mais de quarenta anos, especialmente após a década de sessenta, muito do que eu conhecia (e não era muito, pois, então, eu tinha menos que duas dezenas de vida) foi criado, relido, argumentado, pesquisado e mais uma miríade de verbos, palavras e significantes foram agregados, fosse no campo das ciências, fosse no campo social e de suas linguagens. Não só palavras novas, mas novas tecnologias, descobertas e profundas mudanças políticas, como se de repente tudo estivesse a ponto de mutação. No entanto, tendo nascido em 54, meus pais me educavam como haviam sido educados, mesmo com todas essas modificações que batiam às suas portas.

Penso que talvez fosse importante aos mesmos dotar seu filho de determinadas características de caráter, de um continuum ético que deveria e poderia ser moralmente explorado  em qualquer sociedade. Mesmo hoje lembro das lições aprendidas de meus pais. Israel Besnos, meu pai, ensinou-me que um homem deveria ter caráter (vergonha na cara), condições de negociar (crédito) e amigos (o melhor de tudo).  Meu padrinho me falou, não poucas vezes, das armadilhas da aparência e do consumo, até concluir: não importa o que um homem ganha, mas sim o que ele gasta, de tal modo que se você ganhar dez e gastar onze, estará devendo para alguém, e terá dificuldades nas sua vida financeira. Na época, era quase imoral, na visão deles, meus padrinhos e meus pais, desonrar compromissos. Vemos, pois, que muita água passou pela ponte, de lá até aqui.

Talvez mais do que pudéssemos dar conta.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s