Fa e o tempo fora da escola


Em 2010. Por motivos óbvios, vou chamar minha aluna de Fa. Enfim, o nome é o que menos importa. Ela foi minha aluna em uma C10 (sexta série), há cerca de dois anos. Deveria estar, hoje, seguisse o fluxo normal, em uma C30 (oitava série). Na época, 2008, Fa era uma menina de 14 anos. Como aluna, era mediana, com algumas dificuldades cognitivas, mas que também possuía um jeito muito interessante de se relacionar com a turma. Embora tímida, sorria constantemente, era gentil e educada e por isso não sofria das razoavelmente comuns rejeições que muitas vezes eternizam a adolescência.

Um dia, Fa sumiu das aulas, deixou de vir à escola. O motivo não lembro. Talvez seus responsáveis tivessem trocado de endereço, saído da cidade, … não sei. “Mais uma perda”,  pensei na época. Fa era uma bela adolescente, esguia, com lindos olhos castanhos e vinha de uma família desestruturada, paupérrima e com toda sorte de dificuldades. Ano passado, alguém comentou que ela teria sido vista se prostituindo com motoristas de ônbus, que havia “virado uma garota de programa”, o que me deixou bastante entristecido e chateado.  No entanto, quando somos professores das escolas do município de Porto Alegre, nos habituamos com a rotina cruel dos bairros periféricos: passsamos a conviver com alunos que se drogam ou viram mulas para o tráfico e com uma violência real que pode inclusive terminar na morte por assassinato. Não é nenhum fato novo que isso ocorra.  Nos acostumamos a viver com as possibilidades  estúpidas de termos em aula adolescentes que, de um modo ou outro, estão em risco social ou em marginalidade; que são abusados ou tratados com uma gélida indiferença por seus pais ou responsáveis.  Nos habituamos infelizmente a partir do princípio de que  o ser humano muitas vezes esquece do que é e do que os outros são. Ao cabo, todos  necessitando das mesmas coisas: um teto, carinho, atendimento às necessidades básicas, educação, saúde. Nos esquecemos disto na medida em que nos esquecemos  do que somos para além das máscaras sociais.

Hoje novamente Fa é minha aluna, não em uma C30,  mas em uma CP, desaguadouro dos alunos que não conseguiram manter o equilíbrio possível entre idade e nível de estudo. Em março último, quando a reconheci em aula, primeiro pelo nome e só depois pela aparência, ela pouco guardava de suas esguias formas adolescentes. Com apenas 16 anos, tem o corpo quase que de uma matrona. Engordou em demasia, seus quadris alargaram e as roupas que usa denunciam seu estado de pobreza. No corpo de mulher, de quando em quando surgem os traços da adolescente que conheci. O que houve entre a Fa de 2008 e a de hoje é uma história que desconheço, mas sei reconhecer onde e até que ponto a miséria pode conduzir.

Das informações que obtive, houve relatos de que Fa, linda menina adolescente, havia se envolvido com prostituição, como meio de resolver uma série de problemas que iam desde o abandono explícito da família,  até a miserabilidade completa.

Na aula Fa estava lendo a Bíblia, enquanto fazia anotações eventuais em seu caderno. Seu comportamento é pacífico e seu sorriso continua tímido, contido; de certo modo parece estar conformada em purgar o que passou. De quando em quando seu pensamento se volta para a sala de aula, mas não é consistente, e os cálculos de matemática efetivamente não lhe prendem a atenção. Compreendo,  sei que ela necessita muito mais matutar e afastar seus fantasmas internos e reais nesse momento do que calcular raízes quadradas ou tentar  se concentrar em simplificar radicais. A realidade impõe tal condição.

Algo destruiu a menina e a adolescente, e nada deixou para que a mulher amadurecesse. O corpo denuncia a tristeza da alma, e isso não é tão incomum Mas, de uma forma ou de outra, habitando mundos tão diversos e com todas as dificuldades possíveis, ela está de volta. Seja bem vinda, Fa.

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