Micro-inventário da violência (2006)


 

1 – O TAUBINHA

Posted on Monday 23 October 2006

Pois, sexta-feira passada, dia 20 de outubro, teríamos, no turno da noite, as aulas normais da Educação de Jovens e Adultos na escola onde trabalho, EMEF Chico Mendes, localizada na periferia de Porto Alegre. No entanto, já no final da tarde, por volta das 17h30min, começaram a chegar notícias perturbadoras: algumas mães ligaram para a escola, preocupadas com a segurança de seus (suas) filhos (as).

Haviam assassinado o Taubinha, que era um dos líderes do tráfico na vila. Outras informações davam conta que estavam ocorrendo tiros e guerra de gangues próximas à escola. Para completar o quadro, soubemos que na quinta-feira professores tiveram de sair escoltados pela Brigada Militar em uma escola muito próxima à nossa, em razão da falta de segurança.

Esperamos os alunos chegarem para o turno da noite e então os professores e a vice-direção da escola convocou uma plenária, onde decidiríamos se haveria ou não aula. De todo modo, nosso calendário prevê data para recuperação das aulas devidas Quase a totalidade dos presentes deciciu pela suspensão das aulas.

Alguns (algumas) estudantes quiseram ficar, justo aqueles (as) que tem alta infreqüência ou que, vindo à escola, criam subterfúgios para não assistir às aulas normais. Aqueles(as) estudantes aos quais a Educação de Jovens e Adultos se destina originalmente, pais e mães trabalhadores(as), optaram decididamente pela suspensão. Muitos (as) se retiraram, preocupados (as) antes mesmo do final da plenária. Em todos (as) as marcas do medo, da apreensão e da insegurança.

Poie é, mataram o Taubinha. O que, para outras populações de Porto Alegre não tem absolutamente nenhuma relevância, aqui tem o poder de suspender aulas, de inquietar um povo inteiro. O Moinhos de Veto, o Menino Deus, a Santana, o Bom Fim, por exemplo, são bairros em que a morte do traficante passou em branco, apenas notícia de jornal sem maiores conseqüências. Não que esses bairros não sejam atingidos, mas isso ocorre indiretamente, o impacto não é tão visceral.

Para nós, contudo, professores (as) e alunos (as) da periferia violenta, que convivemos com depredações, ameaças em um mundo paralelo que escapa ao interesse maior de governantes e da mídia, de um mundo que não consome e que portanto não interessa à sociedade burguesa nem à mídia, a morte do traficante A, B ou C não faz qualquer diferença; apenas informa que outro o sucederá nessa roda infame da qual, de um ou outro modo, somos todos vítimas.

Educadores reféns, educadores esperançosos que tentam, da melhor maneira entender o que se passa por aí; de todo, educadores públicos, presos nas malhas circunstanciais das quais não podem escapar.

No fundo, somos não tristes educadores mas, sobretudo, educadores tristes.

A questão de fundo, contudo é: quantos Taubinhas, de modo mais ou de modo menos claro estão agora na escola, circulando entre nós? O que fazer? Que tipos de situações ajudam a formatar muitos e muitos Taubinhas que estão a todo dia crescendo, se envolvendo com uma atividade na qual a morte, o desespero, o aleijume, a infelicidade são tão habituais quanto o lucro obtido às custas do tráfico, da prostituição precoce?

Será que a escola tem o poder messiânico de resgatar tais circunstâncias? A sociedade, organizada pelos mass mídia vivem tonitroando que sim; que a escola tem o poder de “mudar a sociedade para melhor”. Inegavelmente no bojo do direito à universalização do ensino vem, também, a aplicação do encarceramente citado por Foucault. O panóptico.

Crianças, menores, adolescentes que se iniciam em meio à criminalidade, que por vezes possuem pais que traficam ou que são viciados, e que acabam por trabalharem como “mulas”, todos juntos, no mesmo ambiente, visceralmente ligados em um espaço que busca a docilidade dos corpos e uma mente, não raro, acrítica.

O espaço físico e público das escolas, dos manicômios, dos quartéis, dos hospitais: confinado, vigiado, com uma disciplina que se impõe de fora para dentro. Necessária para a vida? Claro, você não pode simplesmente jogar a disciplina pela janela, achar que o mundo foi feito para você. No entanto, nem sempre alcançável, nem sempre possível.

Enquanto os taubinhas podem estar aqui, na carteira da frente, no pátio da escola, misturados à inocência infantil, a classe média, apreensiva, passeia. O sonho da mesma é se deslocalizar, na perspectiva de Bauman, é revisitar o paraíso perdido; enquanto isso, e enquanto possível, as instituições recriarão cotidianamente espaços públicos regidos pelo panóptico, pela vigilância incessante.

A lógica, cntudo, se desconstrói a partir do momento em que o assassinato, como uma profecia auto-realizada nos convida a refletirmos que o detentor do poder, para o bem ou para o mal, é a turma do taubinha e de seus asseclas, herdeiros de uma sociedade falida e doente, turma essa amparada pela lei do silêncio, pelos estampidos das armas, pelas ameaças diuturnas, pela banalização da violência física e mental que a todos submete e pela corrupção e perda de identidade ética.

Os taubinhas estão, portanto, criando e acirrando problemas emergentes que não podem mais ser ocultados discursivamente. Outrossim, os professores transitam cotidianamente entre esses mundos paralelos; não só eles, mas os funcionários públicos que trabalham em áreas relegadas pelo grande capital, pelas privatizações, pelas grandes companhias. Em outros termos, trabalham em comunidades desassistidas pelo poder público, atendendo a pessoas que, no dizer cirúrgico de Rifkin, o capital denominou e trata como economicamente irrelevantes. Tanto faz existirem ou não, já que não podem comungar do banquete infindável do consumo.

Embora irrelevantes, são populações que também são atingidas pelos desejos insuflados pela propaganda de massa. O desejo de um determinado bem, seja um tênis, seja um automóvel, seja o domínio sexualizado de um determinado produto, atinge tais populações de modo indistinto e o reconhecimento de suas impossibilidades mais ainda faz com que se acirrem situações de conflito.

A saída, portanto, para tais carências e distorções sociais que se revelam a todo instante não é exatamente a dos cartões de crédito, dos empréstimos e investimentos bancários ou da progressiva melhoria em atividades de formação. Como adquirir tais bens, talvez o Taubinha pudesse explicar bem melhor que eu.

Se estivesse entre nós.

2 – O TAUBINHA E A INSEGURANÇA

Semana retrasada e semana passada tivemos vários acontecimentos violentos no Bairro Mário Quintana. Duas gangues entraram em confronto, e provavelmente estão brigando até hoje, a não ser que tenham feito algum acordo. Então tivemos o assassinato do Taubinha, tivemos o assassinato de uma mulher grávida e tiros no seu marido, um outro assassinato de um homem, com requintes de crueldade, outro assassinato na frente da faculdade onde estudo, toque de recolher, tivemos pessoas alunas nossas do curso da EJA se sentindo pressionadas, vindo buscar seus filhos antes do final das aulas no turno da tarde, enfim, um clima de insegurança brutal instalado.

Ah, sim, esqueci dos disparos efetuados em escolas próximas da Chico Mendes, onde trabalho (mais ou menos uns dez ou quinze minutos a pé), esqueci que professores da EMEF Vitor Issler tiveram de sair escoltados pela Brigada Militar. Embora tudo isso tivesse ocorrido, a direção da minha escola encarou tudo com um espírito no mínimo temerário. Afinal, os acontecimentos estavam ocorrendo “prá lá” da escola e, segundo a cartilha administrativista, tais eventos não podem atrapalhar o calendário escolar, por isso, aula, independentemente do que possa acontecer.

Em uma das noites, os professores convocaram uma assembléia rápida dos(as) alunos(as) da EJA, que se retiraram rapidamente. Parece que os adultos que moram aqui não concordam exatamente que a escola funcione em condições de insegurança. Dá a entender que não gostam de tiros de revólver e pressão e medo, deixando seus filhos e companheiros pela rua ou mesmo em casa; não se sentem protegidos.

Na última terça-feira, a escola recebeu um telefonema que enfatizou que havia toque de recolher (mensagem dos traficantes) a partir das 21 horas, o que significa que qualquer pessoa estaria se arriscando se botasse o rosto na rua, a partir desse horário. Segundo a direção da escola, as confusões eram distantes de nós, pelo que não haveria problema em sairmos as 9h, fechando o primeiro turno da noite (são dois módulos na EJA). E assim foi feito. Nada melhor do que garantir um dia letivo, mesmo que gangues de traficantes estejam disputando territórios.

Eu teria uma sugestão: fosse diretor de escola, reuniria os professores mais o Conselho Escolar e iria para a Secretaria relatar o que está acontecendo e solicitaria providências de segurança urgentemente. Procuraria fazer uma reunião de emergência com a guarda municipal e com a Brigada Militar, buscando uma viatura que ficasse permanentemente em frente à escola. No entanto, que eu saiba, nada disso foi feito.

Menos ainda me foi perguntado, mesmo porque sabe a direção da escola que eu não concordo em expor qualquer pessoa que seja à violência. Há muita responsabilidade e senso ético envolvidos nesses casos.

Como meu ponto de vista é claramente contrário ao da direção da escola, nada me foi perguntado. Não importa que eu tenha sido, nos últimos anos, presidente do Conselho Escolar e representante da escola no Orçamento Participativo da Cidade e que tenha colaborado para as melhorias que estão ocorrendo agora na escola.

O que importa é que a minha opinião seria contrária; o demais, se rasga, até que novas conveniências se lembrem de Hilton Besnos. Mas, provavelmente, Hilton Besnos não terá mais interesse em participar de novas irresponsabilidades que envolvam a segurança pessoal de seus colegas, de alunos e da comunidade. Por isso, agora, minha opinião não importa.

O que importa é o calendário. O resto, se houver problemas maiores, sempre se pode usar aquele velho e conhecido repertório: “eu não sabia”, “foi uma pena”, não era minha intenção” e o invariável “não pensei que isso ía acontecer”.Como diria Karl Marx, a ideologia é um instrumento das classes dominantes para se perpetuarem no poder. O poder, no caso, é o meramente administrativo. Atitudes pedagógicas e ações responsavelmente sustentadas servem sim: meramente para o discurso.

É o que todos merecemos.

3 – IL DOLCE FAR NIENTE

Posted on Monday 30 October 2006

Estou absolutamente sem qualquer motivação para continuar na escola onde trabalho. Na semana passada, o adolescente que me humilhou públicamente no pátio da escola andou agredindo outra pessoa, desta feita uma estagiária. Não sei se fisicamente ou não, mas ele declarou que na turma dele ela não entra. Novas confusões. Aí, semana passada, na sala dos professores, a direção da escola fala a respeito das agressões, e informa que foi à SMED (Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre). Segundo a mantenedora, o aluno não podia sofrer qualquer tipo de punição pelo que havia feito.

Mais: o professor que se afastou da turma fez mal (no caso, eu), pois deveria continuar dando aula normalmente. A escola disse que atendera ao meu pedido, no sentido de não retornar para a turma. Realmente, sinto-me enojado disso tudo.

Sou agredido, ameaçado e, segundo a SMED, tenho de voltar para a sala de aula onde se encontra o adolescente que provocou todo o fato e dar aula. Não consigo entender como isso poderia ser feito, uma vez que as manifestações da SMED são absolutamente favoráveis ao infrator.

Realmente, perdi a vontade de lecionar aqui. Não sei até onde vai a frouxidão pedagógica, mas estimo que seja bem larga. Não sei como falar nessas circunstâncias, e nessa turma, sobre educação, urbanidade e co-responsabilidade no ato educativo, quando posso, a todo momento, ser novamente desrespeitado pelo meu agressor, sem que absolutamente nada vá ocorrer.

A única atitude que a direção da escola tomou, foi determinar que o aluno retornasse para sua casa e voltasse com sua mãe. Isso depois de protagonizar contra a estagiária. No meu caso, parece, tudo terminou em uma ata. E na supracitada recomendação. Ainda durante o informe da direção, as respostas emocionais espoucavam. É preciso resgatar o aluno, as festas que foram promovidas na escola eram normais e necessárias, protagonizadas pelo mesmo aluno, que havia obtido autorização da direção para tanto.

O professor? Ah, esse não precisa de nada. Resgate? No, mister, you don’t need. Não sei que nome se dá a esse tipo de discurso, mas que não há qualquer suporte ao professor, isso é fato. Sou educador, e não creio que essa estudada omissão possa ajudar a educar qualquer pessoa. Cada vez mais criamos impossibilidades, para depois reclamarmos da vida. Cada vez mais convivemos com a banalização da violência, com a espetacularização da ignorância.

Isso, em meu entender, não é projeto educativo, mas, sim, desagregativo, na medida em que respalda a agressividade, culpabiliza a vítima e ignora o que ocorreu, para mascarar a realidade com um belo discurso edulcorado.Se uma escola não ensina os limites da convivência com os outros, pode ser qualquer coisa, mas escola não é. E se não é escola, o que estou fazendo aqui?

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