O aluno nhé-nhé-nhé e o sistema educacional blá-blá-blá


1999.

O ALUNO NHÉ NHÉ NHÉ SÓ SOBREVIVE DENTRO de uma estrutura que o trate como coitadinho e quando o sistema é adepto da política do blá blá blá. Dentro do sistema blá blá blá, o pobrezinho do aluno é um ser em permanente risco social, a escola é um útero, professores são pais e professoras são mães que os devem proteger dos males do mundo. Toda e qualquer questão do mundo real (currículo, aprendizagem, responsabilidade, cooperação, esforço pessoal, atenção, solidariedade, etc) deve ser minimizada, até que cheguemos ao improvável.

Um exemplo claro aconteceu por esses dias na escola, comigo e em sala de aula, no noturno, na EJA. Três alunos (?), daqueles que tem barba na cara entraram em aula, sendo que um deles entrou em sala de aula com um skate. Juro. Com um skate. Esse não fez nada durante dez minutos, a não ser mexer em seu celular. Um dos outros três, que já havia saído na aula anterior com uma grosseria inominável, tendo abandonado a aula por seu gosto, abriu o caderno mas nada fez. O que estava sentado atrás dele, para participar do grupo, igualmente adotou uma atitude debochada.

Às tantas, perguntei porque os dois não estavam trabalhando em aula, e eles responderam “perdi o que tu disse”, “tu dita muito rápido”, “não entendi” e por aí afora. Eu estava ditando a respeito de radiciação. Todos os demais alunos estavam atentos e copiando o que eu ditava, sem nenhum problema. O terceiro aluno, o do skate, permanecia mexendo no celular, com sua mochila fechada.

Como nenhum dos três de barba na cara estava com a mínima vontade de fazer coisa alguma, disse para um outro aluno chamar alguém da direção ou do soe – serviço de orientação educacional – para que os alunos fossem fazer nada em outro lugar, mas não na minha aula. Sobe a vice-diretora e, em princípio, após ver um dos alunos jogado para trás com o caderno escancarado, outro igualmente sem fazer nada, e o terceiro, ainda mexendo no celular, com o skate ao lado, pergunta o que estávamos fazendo. Eu explico (sempre os professores explicam, não é verdade?) e a resposta que escuto da mesma é a de que “pessoas diferentes escrevem em ritmos diferentes”. Ora, minha aula não é de alfabetização, e tais alunos escrevem muito bem.

A questão não é se os alunos escrevem ou não escrevem bem. A questão é a atitude de deboche, de non far niente, de ausência da mínima possibilidade de contribuição para um ambiente de aprendizagem, a possibilidade de usar o professor em aula como se ele fosse um nada e a escola como se fosse um clube. Ver a direção da escola como algo que pode ser usado, manipulado, transformado em algo ridículo, tolo, inconseqüente, como se a instituição fosse algo que estivesse ali apenas para cumprir o papel que ele, aluno, determina de acordo com o seu tempo e a sua vontade. Em suma, tratar a escola como um nada ou, melhor ainda, como um lugar no qual o aluno trata a educação como algo que está ali em condição de submissão à sua vontade. O conhecimento como um nada.

Mais: a certeza de que não haverá qualquer espécie de conseqüência mais compatível com o seu comportamento. Que o que é público, de certo modo, abençoará as suas vontades, deles, alunos, a sensação de que os professores, a escola, lhe são submissos e, por claro, o desrespeito ao profissional. É o esquema blá blá blá que acaricia, que beneficia, que acolhe o aluno que é nhé nhé nhé, relapso por opção e néscio por conveniência.

Eles, alunos (pelo menos teoricamente alunos) sabem, de larga experiência, que tudo não passará de uma conversinha funesta, regada a possíveis fatores externos que explicarão o que eles fizeram, desde as perspectivas mais remotas às mais tolas, e que isso tudo será engulido on board.

O que me deixa muito aborrecido.

Enfim, após os rapapés necessários e as caras feias indispensáveis, saem os três heroes of marginality e eu consigo continuar, sem perturbação, a minha aula; inclusive alunos que estavam quietos começam a perguntar, se mostram interessados… No final da noite, a direção me informa que “quer conversar comigo na quinta-feira” a respeito dos três alunos.

Sinceramente, não me interessa saber. O que me interessa é que eles venham pra minha aula a fim de estudar, e não a fim de bancar os rebeldes sem causa e receberem tratamento VIP. Só isso me interessa.

Não tenho paciência para alunos nhé nhé nhé. Não os chamo para minha aula, não me considero responsável por eles. Converso e tenho um ótimo relacionamento com alunos que tem dificuldades para aprender, mas que tem, especialmente, uma relação honesta com a escola e comigo. Nunca me preocupei em explicar, em reesplicar, em tentar novamente, e os erros dos meus alunos não me colocam em estresse.

Só não quero é vagabundagem pura em minha sala de aula. Muito simples, muito claro, e isso é digo (em outras palavras e através de ações) já no primeiro encontro que tenho com meus alunos. Me nego a ser pai ou mãe ou tio ou responsável por quem tem barba na cara ou já menstruou há muito tempo. Simples e direto, consigo ser respeitado por todos, porque não enrolo, não fico pedindo desculpas, não dou a cara a tapa. Não bato, mas não me coloco passivamente na posição de mártir do mundo, nem tenho qualquer vocação para ser Cristo ou Madre Teresa de Calcutá.

Muitos não entendem a minha posição, que é de responsabilizar cada um por seus atos. Ser humano e dialógico não significa, de per si, ser tolo e leniente. Talvez por isso minhas turmas me respeitem; sabem exatamente os limites, mesmo as brincadeiras e entendem que um clima de aprendizagem não é um clima de barbárie. Prefiro que seja assim, para não ser confundido com um professor-marionete. Quero fazer a diferença e, por incrível que pareça, para isso temos que ser justos, e não, efetivamente, hordas de camelos a peregrinar pelo deserto reclamando da água que não veio.

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