O homem aprende


Magister.  Magistério.  Cathedra.  Cátedra.  Council.  Conselho.  Aconselhamento.  Aconselhar. Dizer. Ele disse que. He said that she’s sick. Doente. Ela está doente. From what? Do que? Da melancolia, do não-sentido, do não configurar-se, do esquecimento, da memória. Ela esqueceu do que não poderia, do que não queria. Ficara ali, olhando o relógio. O tempo transitava. Dizia, a cada momento, ele mesmo, o autofágico, de sua morte, de seu desaparecimento. A angústia do tempo trazia sombras. Cinzas. Recordações do que procurou entender, mas não conseguiu. O entendimento, o conhecer se transforma assim em fragmentos, em fímbrias não tocáveis; ninguém o condena nem coordena, apenas roga-se-lhe que se entregue de modo fugidio, se requer um mínimo de atenção. Ele, o conhecimento sorri, anjo desnudo a deixá-la assim, morna, com um quê de desapontamento, uma inquietude típica de quem não aprendeu, não apreendeu, de quem implora, de quem se submete. Ele sorri.  Os anjos sorriem. The shadow of your smile. Clowns.

Magister. O anjo circunda a sala, observa, flui sobre si próprio. Cabeças brancas e negras, jovens, menos jovens se inclinam sobre as classes, tentam decifrar, reter, entender o que ali se põe como um oráculo. Esmiuçar, buscar a alternativa, enquanto o anjo brinca com o tempo. Ali, naquela clausura apertada, entre estreitas paredes, na sala de aula prisão, ela aguarda, entre um catre desconfortável e uma mesa de amianto. O tempo flui, o anjo percebe o instante em que ela decide uma definição e em que, por conta própria resolve navegar, enfrentar o desconhecido, aprumar a mudez do corpo e a convicção da alma. Ela decide aprender, por si, o que dela outros supunham ser seu sacrifício.

O corpo, a altiva fronte quer agora arriscar-se, infletir sobre si mesma, pensar o simples, o complexo, o parvo, o irredutivel. Tudo de uma vez, mas com calma. Diriam os tolos que ela queer simplesmente aprender, saber; os mais sábios, contudo, se comprazem em admitir que ela meramente cansou da sua mesmice, da sua falta de opções. Não suportou mais ser da canga, objeto. Livrar-se de suas miçangas, máscaras, apoios, conselhos, livrar-se das amarras. Desnudar-se e estando nua, experenciar uma pele nova. Descascar-se a si mesma para recriar-se apenas com o que de melhor possa ter, possa expor. Obliterar-se da pele obscena da escravidão que se vive de modo tão natural e tão intensa que a achamos vívida como uma única opção, um único destino. Ali, naquela sala-presídio, ela quer reconhecer a si mesma como capaz de meergulhar, de afastar de si a letargia, a preguiça, a modorra, a desconfiança que, durante tanto tempo a tornouo refím dos outros, da vida, das circunstâncias, das conveniências, do que se esperava que ela dissesse, fizesse, comentasse e do seu comportamento tão claramente narcisista.

Sabe ainda que seus movimentos serão lentos, que os músculos das pernas, que os tendões talvez não sejam tão rápidos nem tão fortes quanto gostaria, para iniciar a jornada e que seu arco de respiração a reterá mais do que gostaria, pelo menos no início da aventura. Reflete, desconsolada e medrosa, que deverá ainda presenciar sua vontade se partir inúmeras vezes e desconsolar-se mais tantas, até que possa renascer em si mesma como feniz, ave milagrosa das migrações da alma. Deseja, quer, contudo, arriscar-se, enfrentar obstáculos e derrubá-los, um a um, contorná-los se preciso for, mas, ao fim e ao cabo, ser outra sendo ela própria.  Defesa contra os véus da ignorância e de suas malhas tão convenientes quanto insalubres. Curriculum. Arco de uma corrida, passos incertos, mas ainda passos, cada vez mais fortes. Músculos e nervos em conteúdo de busca fremente. Infla seus pulmões, curva-se como uma flecha a ser disparada. O olho esquerdo e o olho direito querem agora um ponto de equilíbrio, um caminho entre o desejo e sua satisfação.

O anjo, um pouco ali, um pouco adiante revoluciona e torna sobre si mesmo. Há em tudo uma suave simetria, uma suave nesga de luz deixada pelo tempo. O anjo, por ser anjo, e por ser educado, compreende que não há educação sem que haja, em cada um, o espírito do artífice, a cumplicidade da artesania. Cunhar a si mesmo, refazer-se como uma borboleta, antes casulo, como uma águia, antes tão-só ave, como um dia, que já fora o véu da noite e como noite, que já fora a poesia da indústria. O ciclo do aprender exige cautela, perícia, perseverança, amorosidade. O anjo, educado e educador, promessa e avis-rara já se foi. As primeiras luzes se acendem. Noites, primícias, estações de vento. Algo para lembrar, cheiros e decisões tomadas em meio à incerteza.

O mundo, talvez daqui a pouco, talvez antes, inflete sobre si mesmo ou ainda no universo. Universo. Universitas. Prime. Magister. Cathedra. Cognitio. Cognição. Há em tudo sombras difusas, há expectativas, anjos que conhecem brincando de rodas. O corpo se arqueia e finalmente mergulha.

 HILTON BESNOS

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