Um mundo mobile


UM MUNDO MOBILE

Interpretando realidades fluidas

Hilton Vanderlei Besnos

Porto Alegre, 26 de outubro de 2004.

Introdução

Estamos em uma sociedade informacional, na qual o processamento da informação é focalizado na melhoria da tecnologia do processamento da informação, o que traz o desenvolvimento de um novo paradigma. Se o industrialismo é voltado para o crescimento da economia, para a maximização da produção, o informacionalismo visa o desenvolvimento tecnológico, ou seja, a acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processamento da informação (CASTELLS, p. 35).

Vivemos em um mundo complexo que se interconecta com base em alta tecnologia e na qual essa integra as sociedades, mas o faz de forma desigual, porque os impactos sociais dependem das diversas configurações locais: cultura, modo e meios de produção, desenvolvimento industrial, poder político e as relações estatais estabelecidas.

As desigualdades sociais habitam em nichos regionais estatais e esses, por igual, cada vez mais se encontram ligados entre si através de uma política de homogeneização econômica capitaneada por transnacionais e pelos interesses de grupos de estados-nações que dominam a seara econômica e financeira, a exemplo dos países que compõe o G7 ou o Conselho de Segurança da ONU.

Por outro lado, as fontes de financiamento internacional dão-se através de instituições controladoras que impõe suas políticas próprias aos estados-nações (BIRD, BID, Banco Mundial, FMI, OIT, OMC, etc).

Dentro de tal cenário de limitação real dos poderes estatais em face da ingerência e do controle externo das políticas e das economias, como dar-se-ão as políticas sociais e, dentre elas, as educacionais?

As políticas sociais

O mundo vem assistindo desde 1950 o decréscimo do welfare state, ou seja, o estado vem deixando de cumprir suas políticas sociais. No Brasil, surgem óbices para a implementação de tais políticas, dentre as quais se inserem as educacionais.

O estado-nação brasileiro vem adotando um modelo de reorganização de inspiração neo-liberal e neo-conservadora, tendo esse processo e essa agenda política e econômica se implementado a partir do Governo Fernando Henrique Cardoso. Em razão de tal momento, o Brasil vem incentivando os processos de privatização, abrindo cada vez mais seus capitais, flexionando as relações de trabalho, promovendo ajustes fiscais para garantir superávit de sua produção objetivando pagar as dívidas internas e externa, assim como vem terceirizando os serviços públicos. Alivia-se no estado de despesas próprias ao setor público, como são os serviços básicos para a população(CIAVATTA, pag. 93).

Contudo, a sociedade civil reorganiza-se, em razão de sentir que as políticas sociais do governo estão atreladas a interesses que não os seus. Trata-se de uma democracia representativa, em que o formalismo das eleições periódicas e da existência dos partidos políticos não garantem em absoluto o privilégio das demandas das classes historicamente exploradas. O regime democrático representativo torna-se um simulacro útil às dominações oligárquicas que, na história constitucional de nossos povos, sempre foram tão excludentes quanto repressivas (op. Cit). (CIAVATTA, pag. 91).

Embora a história do Brasil tenha registrado justamente essa proteção às classes privilegiadas, atualmente os movimentos sociais organizados, especialmente ONGs e outros que possuem como característica ou a implantação de projetos de políticas sociais ou de proteção às mesmas, tem aumentado as possibilidades de participação popular em demandas que não são específicas das classes hegemônicas.

O país, contudo, tem dois nós górdios: um externo e outro interno. O externo é o mergulho do mundo nos processos de globalização e de mundialização,ou seja, na uniformização e na formatação econômica e cultural em atendimento a interesses internacionais, que ditam políticas econômicas e sociais aos países periféricos. O interno é a questão da distribuição de renda. A combinação de tais fatores traduz uma equação perversa sobre as políticas sociais, dentre as quais a educação.

As políticas educacionais.

Historicamente as políticas educacionais brasileiras privilegiaram as elites. Na medida em que o Estado abrigou em seu seio tais movimentos de sustentação de um poder paralelo econômico, pautou suas políticas educacionais por tais orientações.

Um exemplo claro disso está contido nos movimentos pedagógicos contidos em tais contingências. Quando, na década de 30, na ditadura Vargas a industrialização e o capitalismo expandiram-se no país, o “pai dos pobres” decidiu criar escolas agrárias e técnico-industriais. Já em 1940 há novas exigências quanto às formações profissionais exigidas pelo mercado, e lá está presente a promulgação de decretos-leis pelo Ministro Gustavo Capanema para criar reformas incentivando o ensino técnico.

O tecnicismo igualmente iria proliferar no Brasil na época da ditadura de 1964 a 1984, porque os interesses da elite militar e econômica do país buscavam um ensino acrítico. Conhecimentos como filosofia foram banidos e introduzidas disciplinas (aqui no sentido estrito e lato) como Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira. Era a época do Brasil Grande, depois do “Ame-o ou deixe-o”, et caterva. O regime de exceção para afastar a possibilidade de um regime de esquerda no país teve a duração de vinte anos.

Durante esses vinte anos houve o acordo MEC-USAID, com a interveniência vertical do governo americano sobre as instituições de ensino do país, especialmente as de nível superior; o estímulo a um ensino massificante, com uma rotação de alunos em turmas distintas, de modo a que os grupos não se tornassem efetivos e não se solidificassem lideranças. Cada vez mais o ensino passou à atividade privada, ou seja, o estado brasileiro passou ao empresariado responsabilidades que antes lhe cabiam.

Com o acordo MEC-USAID, procura-se reestruturar a universidade em função do técnico assalariado, semi-qualificado, requerido como mão-de-obra da grande corporação capitalista e diminuindo ao máximo os custos de sua formação. Impulsiona-se o desenvolvimento das escolas privadas (esta empresa capitalista da educação e seus mercadores de diplomas, ocupa hoje, 80% da rede escolar, ao passo que, em 1964, representava apenas 25%), ao mesmo tempo elimina toda uma parte das despesas orçamentárias do Estado criando uma espécie de novo imposto sobre a população (as anuidades pagas pelos alunos). (AJR)

Atualmente o governo brasileiro discute, para as universidades, sistemas de cotas para os cidadãos pertencentes às classes sociais desprivilegiadas. O ensino básico continua a produzir uma baixa qualificação de ensino e as políticas educacionais continuam engessadas a um modelo de desenvolvimento que retira-lhe recursos orçamentários para o pagamento de créditos devidos pelo país ao exterior.

Educação e trabalho

As políticas brasileiras de educação passaram-se a voltar para o trabalho, com a criação de programas específicos a partir da industrialização do país. Era necessária uma educação que preparasse mão-de-obra abundante e, maximamente, barata.

Os movimentos dos trabalhadores sempre estiveram à frente na luta pelos direitos sociais. O processo de globalização, contudo, ao reformatar as economias mundiais, criou condições para a desestabilização dos sindicatos graças a extrema mobilidade do capital internacional. Assim sendo, a era informacional que estamos vivendo permite a integração dos sistemas econômicos e confere às empresas transnacionais possibilidades enormes para o que BAUMAN (2000) denomina de “desterritorialização”, ou seja a intensa mobilidade do capital internacional finda por enfraquecer os sistemas sindicais.

Quando ANTUNES fale sobre estranhamento em relação ao trabalho está focalizando um prisma interessante no sentido de que o homem atual perdeu sua capacidade de influir sobre o produto que gera, pois tal geração está presa à empresas ou serviços. Citando Marx: “No estranhamento do objeto do trabalho só se resume o estranhamento, a alienação na atividade mesma do trabalho”. Em outras palavras, trabalho não voltado para a criatividade, mas à subsistência.

O caráter ontológico do trabalho fica ameaçado por este estranhamento, por essa distorção na qual o homem passa a ser apenas uma peça para produzir outras peças. Aumentam-se as possibilidades da exploração do trabalhador a partir da perda do fortalecimento sindical. Ainda no dizer de BAUMAN (2000) há uma fixidez do trabalhador, em contraponto à mobilidade do capital.

Gera-se uma situação na qual resulta um mascaramento da atividade do trabalhador, que se vê simbolicamente constrangido em razão de sua não ingerência dentro dos processos sociais produtivos. Sua auto-estima é afetada na medida em que vende sua única “mercadoria”, que é a própria força de trabalho a preços cada vez mais vis. Basta, aqui, citarmos o caso da invasão do capital internacional na Ásia, para termos uma idéia mais clara da sua força.

Outro aspecto importante a ser citado aqui é a questão dos modos pelo qual a indústria e os serviços vem alternando suas capacidades de influência, de modo a que o trabalhador se sinta mais compelido a flexibilização proposta pelo capitalismo. Diz-se flexibilização quando o trabalhador finda por exercer atividades para as quais não foi contratado, seja como meio de garantir seu emprego, seja como forma conscientemente adotada em razão dos “benefícios” auferidos pelo seu empregador. O pagamento, contudo, continua o mesmo.

As grandes corporações abandonaram o fordismo, adotando uma linha mais adequada as necessidades dos trabalhadores e às vontades dessas mesmas empresas. Abandonado o fordismo, adota-se o toyotismo, que é uma forma horizontal de relações de trabalho e, portanto, de produção social. Agregam-se vantagens aos trabalhadores, que adicionalmente tem um caráter que se configura na “lealdade” do trabalhador à empresa: planos de saúde, promoções estratégicas, convênios entre entidades educacionais e creches, atividades físicas e uma série de vantagens que tornam o trabalhador “leal” à empresa. Até o momento em que o trabalhador reivindique melhores condições de trabalho.

A pretensão é que o trabalhador “vista a camisa” da empresa, que interiorize seu trabalho e especialmente sua empresa como algo que lhe é essencial, necessário. A partir daí não há sacrifícios por parte do mesmo, que passa a se sentir “integrante” real da empresa.

Em realidade, o toyotismo busca justamente, de modo artificial, que a sensação de estranhamento seja abandonada. É o contraponto ao que ANTUNES fala.

Conclusões.

O trabalho proposto é extenso em suas várias vertentes. Assim, procuramos captar o que entendemos que fosse essencial, não tendo dúvidas de que muito ainda resta a ser dito.

Procuramos fazer um painel dos assuntos referenciados, mas temos plena consciência de que não abordamos todas as e visões possíveis.

Sem dúvida, aumentamos nossa capacidade de criticização em face dos temas propostos o que nos torna mais sensíveis a um processo de humanização que deve ser constante e que é indispensável ao educador: poder olhar os movimentos sociais e humanos dentro de uma ótica que coloque o homem como centro de sua cultura, de sua comunidade e de uma preocupação constante com o processo educativo. Se assim não for, não estaremos tratando da educação.

Bibliografia

ANTUNES, Ricardo. ADEUS AO TRABALHO? Trabalho e estranhamento. Cortez Editora, 4ª ed.

CIAVATTA, Maria. DEMOCRACIA E CONSTRUÇÃO DO PÚBLICO NO PENSAMENTO EDUCACIONAL BRASILEIRO. A Construção da democracia pós-ditadura militar. Ed. Vozes, RJ, Petrópolis, 2002.

CASTELLS, Manuel. A SOCIEDADE EM REDE. Vol. I. Ed. Paz e Terra S/ª SP, 2000.

BAUMAN, Zygmunt. GLOBALIZAÇÃO: AS CONSEQUENCIAS HUMANAS. Jorge Zahar Editores, SP, 2000.

ALIANÇA DA JUVENTUDE REVOLUCIONÁRIA. Jornal eletrônico ligado ao Partido da Classe Operária. Disponível em: < http://www.pco.org.br/ajr/programaajr/17crise universidade.htm> Acesso em 25.out.2004.

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