Aprendendo com e através do outro


Em 21 Julho 2006

Sempre é um estresse emocional considerável tentar ensinar uma turma que tem uma atitude não receptiva, na qual existe questões sérias de convivência social e que apresentam um desinteresse claro pelos assuntos objeto da aprendizagem. Há uma série de comportamentos que impedem o aprender: palavrões em aula, bolinhas de papel, xingamentos pesados, risadas altas, intromissões, tentativas claras de ridicularização entre os colegas e do professor, mesmo gritos, conversas em voz alta. Por outro lado, igualmente deve ser extremamente irritante ficarmos à disposição durante horas de pessoas que insistem em nos querer ensinar o que não temos interesse de aprender.

Nesses momentos, é sintomático que haja um reducionismo de plantão, que insiste em dizer que o desinteresse e mesmo a falta de educação dos alunos tem a ver basicamente com técnicas de didática defasadas utilizadas pelo professor, assuntos desinteressantes, deficiências de formação do professor, o estigma pré-constituído da turma, ou dizer que a relação entre o professor e os alunos é ruim ou viciada ou ainda que o professor não tem “domínio de turma”, expressão que significa que os alunos não são disciplinados suficientemente pelo professor.

Quando esse tipo de situação ocorre, é muito provável que o professor: (a) receba um apoio solidário, muitas vezes sem manifestações explícitas, de seus pares; (b) avise a supervisão e a orientação da escola que não é possível que a situação continue como está, e solicite “urgentes providências” (não se sabe exatamente quais, se fugirmos de um parâmetro de exclusão da sala de aula, de suspensões, enfim, das soluções clássicas e tradicionais, ora obstadas pelos sistemas educacionais e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente); (c) cuide de solicitar uma “reunião com os pais dos alunos ou da turma”, o que significa um chamado desesperado para que a família assuma o que entenda ser a educação dos seus filhos. Mais do que isso, quase nada ocorre. Mesmo que os setores ajam… e a aprendizagem?

O reducionismo é imperativo e atua somente em uma direção. Resolver problemas de educação formal não é nada fácil; de um lado existe um sistema impositivo que obrigar a criança, o jovem e o adolescente a serem alunos e por outro inexiste forma de garantir a aprendizagem, especialmente se não concorrem em conjunto duas variáveis: recursos e o desejo de aprender aquilo que é proposto pelo sistema. Aqui se trata não de aprender o que é externo ao sistema, mas o que o sistema diz que é para ser aprendido: para isso a escola existe. Para ensinar o que o currículo formal diz que é para ser ensinado, dentro de uma visão conservadora de ensino.

Por outro lado não há relação de aprendizagem sem a participação dos envolvidos em tal processo. A pluralidade é fundamental. Desde a construção da auto-imagem física e psicológica, que podemos remeter à metáfora do espelho de Lacan, até o aprendizado de equações ou de construções textuais ou o entendimento de circunstâncias histórias ou a expressão através da arte e da música, em tudo a experiência humana se dá através do outro.

Negar o outro é negar aprender com e através desse outro. Isso implica dizer que a postura em relação ao cognitivo e ao afetivo, levando em consideração o outro como processo de aprendizagem é bem mais que uma simples e mera inscrição como aluno em uma agência formal de ensino. As matrículas apenas apontam índices que se voltam para a universalização do ensino. O número de matrículas, portanto, tem muito mais consonância com as questões de administração de uma rede de ensino do que com o processo de aprendizagem, vale dizer com a qualidade de ensino. HILTON BESNOS

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