Discursos, cadeirantes e realidades


As políticas inclusivas esbarram nas realidades.

Aqui na Chico Mendes, nós temos um aluno cadeirante. Por outro lado, temos também sendo implantadas neste ano as salas-ambiente. Pois bem. Acontece que as salas referidas, onde os alunos serão atendidos no III Ciclo, correspondentes às sextas, sétimas e oitavas séries estão situadas no primeiro andar de um dos três prédios da escola. Ora, como os discursos nem sempre são adaptáveis ao que existe de fato, não há ainda aqui nenhum tipo de equipamento de acessibilidade para alunos cadeirantes.  Não há rampas, não há elevadores nem acessos especiais para cadeirantes. Pronto, está instalada a discussão.

Alguns pretendem que carreguemos o aluno em sua cadeira de rodas de cima para baixo, via escada.  Outros pretendem que a turma toda seja atendida em uma outra sala do térreo da escola. No primeiro caso, alguns professores disseram que se dispõem a carregar o aluno, que tem 1 m 80 cm e peso indefinido. No segundo poderia haver um descarte temporário das salas-ambiente, em face da segurança que o andar térreo conferiria ao aluno e aos professores. A minha posição é a segunda. Não entendo que alguém, que não tem nenhum preparo técnico para lidar com cadeirantes deva, em razão de um discurso que alterna boa-vontade com inexperiência, assumir tais responsabilidades. Por outro lado, creio que o atendimento no andar térreo atenderia não somente à segurança do aluno, mas também à possibilidade real de integração.

Notei que alguns, que levantaram a bandeira das salas-ambiente,  tiveram mais resistência à tal ideia, porque haveria um prejuízo à turma, caso isso ocorresse. Penso então que se refaça a localização das salas-ambiente e que elas passem para o andar térreo. Todos ficariam bem atendidos, e o que haveria de pior seria algumas pessoas contrariadas, especialmente aquelas que, em hipótese alguma conseguem se colocar no lugar de outros, não conseguem ter empatia.

É óbvio que a responsabilidade por tornar um ambiente público acessível a todos os cidadãos, sejam portadores de necessidades especiais ou não, é da mantenedora, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre  e é ainda mais claro que, no momento em que não há elevadores ou rampas ou acessos especiais, tal responsabilidade é transferida diretamente para a escola, até o momento em que o poder público resolva agir como tal. Enquanto isso os professores que arquem com as sempre possíveis possibilidades de acidentes com um cadeirante. Afinal de contas, quem corre o risco de ser processado civilmente é o professor, até porque, nesses momentos, a escola e a Prefeitura, zapt!, somem por completo.

Por outro lado, penso ainda que, entre a segurança do aluno cadeirante e a falta real de acessibilidade às salas-ambiente, sem dúvida a primeira opção é a melhor. Se a inteligência, a solidariedade e a ética não estabelecerem seu primado, que se sacrifique, pelo menos temporariamente, a sala ambiente para aquela turma. Afinal, as mesmas são o início de uma experiência pedagógica, enquanto o cadeirante é um ser humano que deve ter prioridade sobre qualquer coisa.

Acho descabido professores tomarem à si responsabilidades que extrapolam as suas condições de trabalho, menos ainda se responsabilizarem pelo transporte vertical de cadeirantes. Se trata, sim, de uma condição de respeito com o mesmo, e da preservação de sua integridade física.

 2010 – HILTON BESNOS

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s