Era um menino tão inteligente…


Escrito em 2004

Em 2004, na escola Chico Mendes, onde trabalho, um aluno invade a sala onde estou dando aula, para bater em uma menina. Tumulto geral. Separo ambos, conduzo o menino para fora da sala, um adolescente em desequilíbrio. Ele grita, esbraveja, xinga, me ameaça porque não o deixei bater na (e segue um palavrão)…

Estamos no corredor sendo assistidos por vários alunos e professores e de repente estou no meio de um conflito. Ele diz que eu estou “jurado”. Na linguagem acessada, significa “vou te apagar”. Sou xingado, humilhado verbalmente pelo adolescente. Dá-me vontade de desistir, abandonar a escola, e mergulho num misto de amargura e desilusão. Ameaçado de morte por um adolescente porque impedi que o mesmo, em uma escola, agredisse fisicamente uma aluna minha, em pleno turno de aula. Vou pra casa à noite, e existe um vácuo dentro de mim, uma sensação de que a educação efetivamente não é isso. Converso com minha mulher, refletimos juntos, acabo decidindo ficar na escola.

No dia seguinte, e nas semanas seguintes, permaneço alerta, e sinto-me, no mínimo, observado pelo adolescente. Dois meses após, à tarde, estou subindo a escada que leva ao refeitório da escola, quando o meu possível algoz me chama e diz que “gosta de mim, que eu sou legal e que me ameaçou porque estava ‘cheirado’ (drogado)”.

Ainda volta atrás nas ameaças e fala que “nada vai acontecer comigo”. Eu então resolvo terminar o episódio com um aperto de mãos e um abraço e a vida continua. No final do ano, ele sumiu da escola. Nos encontramos no ônibus que me levava para a escola, mais ou menos um ano depois. Ele estava bem, conversamos bastante e ele estava feliz porque tinha conseguido se desintoxicar, se livrar da droga. Não o encontrei mais após esse dia. Meses depois, na sala dos professores, uma colega relatou tê-lo visto atirado em uma esquina próxima à escola, “como um bicho, totalmente bêbado ou drogado, jogado à própria sorte”. Outra colega ainda comentou: “Logo o fulano, um guri tão inteligente…”

O dia transcorre normalmente, a semana transcorre normalmente, o mês vira rotina e o tempo, como sempre, tragou não só o ex-aluno, assim como, tenho quase que certeza, um pedaço das nossas combalidas humanidades.

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