Hoje, pais competem. E perdem.


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Mercado público,na década de 60, no centro de Porto Alegre. Me lembro até hoje da sensação de andar de bonde.

Mercado Público de Porto Alegre na década de 60

Quando eu era garoto, quando me criei ou quando fui criado por meus pais, seguia o padrão que eles me orientavam. Em princípio, era obediente, porque obediência era uma regra a ser seguida, e eu entendia que, para conviver com os adultos, para me tornar um deles, deveria seguir a sapiência dos mais velhos. Assim sendo, deveria seguir a autoridade dos pais. Para o dicionário Michaelis on line, obediência 1  é o a   ato ou efeito de obedecer, a submissão à autoridade legítima, o que é bastante diferente da subserviência 2 e do servilismo 3, que significam a anuência ou sujeição servil à vontade de outrem, a bajulação, a deferência, obsequiosidade ou submissão baixa ou abjeta e a imitação servil de um modelo.

É bom usar o dicionário de quando em quando.

Não me fazia mal, não me feria qualquer suscetibilidade ser obediente; contrariamente quando meus pais falavam me vinha a certeza de que eles estavam tomando a medida mais correta e, mesmo que eu não conseguisse apreender no momento o que eles estavam tentando me dizer, eu sabia que havia algo ali, mais profundo, e que havia uma lição no que eles estavam falando. Meus pais eram meus guias, minhas rochas e minhas melhores referências.

Então, eles estavam acima de tudo e de todos, eram meus modelos e somente comparável a ambos estavam os meus padrinhos, minha amada Malina e meu queridíssimo Benjamim. Deus foi generoso comigo, me deu dois pais e duas mães, me deu duas fontes de experiências, dois caminhos que me apontavam a retidão e um modo generoso de exercer justiça e de conviver com qualquer pessoa.

Sofri bullying na escola, mas não morri por isso. Era muito comum alunos se xingarem e as brigas mais sérias eram resolvidas após a aula, em embates nos quais os pontapés, os socos e as cabeçadas punham por terra toda e qualquer discussão. Também era comum que, após tais combates, ambos os envolvidos se reconciliassem ou, no mínimo, passassem a se respeitar. Havia um código a ser seguido, e quem não o seguisse, era marginalizado. Havia o que se podia fazer, o que não podia se fazer e se sabia a diferença entre ambos, normalmente baseada no senso comum e em regras não escritas.

Canalhas eram canalhas, lâmpadas e geladeiras eram feitas para durar, íamos na casa dos nossos amigos e os pais se conheciam, brincava-se com madeira, com carrinhos de rolimã, com pião, com bodoque e jogava-se botão de mesa. As meninas vestiam-se como meninas e os meninos como meninos. As novidades do mundo externo passavam lentamente a alcançar-nos através dos jornais, das estações de rádio, e, em casas mais abastadas, da televisão.

O máximo da maldade com que convivíamos era quando alguém era atropelado ou quando um irmão mais endiabrado simplesmente arrancava a cabeça da boneca da irmã para sacaneá-la. Na época, não conhecíamos termos como pedofilia, voyeurismo, sodomia, e havia em tudo um mistério, mas, de certo modo, confirmações que faziam com que o mundo pudesse ser desenhado de modo mais claro e definido. Amantes eram amantes, homossexuais ou se escancaravam abertamente e eram discriminados ou simplesmente se desconfiava que fulano fosse viado. Na época não existiam gays, nem movimentos GLS ou semelhantes.

Pobreza não significava marginalidade nem mendicância. De certo modo, havia um pudor social em expor-se. Não havia expressões politicamente corretas: negros eram negros e não afrodescendentes; judeus eram os assassinos de Cristo e carolas eram carolas, além do que se desconfiava fortemente de que padres não conservavam a castidade. Havia uma fala que afirmava que quem não fizesse isso ou aquilo era “mulher de padre”.

Especialmente, dentro das classes média e pobre, pais eram pais, e os filhos iam para as escolas públicas. Foi lá que me formei, junto a milhares da minha época. A escola se chamava Inácio Montanha e até hoje existe, com os problemas habituais. Estranho, mas me lembro que tinha duas professoras de português, uma para gramática e outra para interpretação, leitura e texto. Nas aulas de educação física, somente tocávamos em bola quando faltavam no máximo dez minutos para terminar a aula. Tive aulas de inglês e de francês. Pesquisas? Havia três possibilidades, ou pegávamos algum livro na biblioteca da escola ou na biblioteca pública. Os mais bem aquinhoados possuíam a Barsa ou a Enciclopédia Larousse em casa.

O tempo foi traçando seu destino, mas me lembro de que as famílias sentavam confortavelmente em frente das casas, nas noites, para comentarmos os assuntos do dia, conversarmos sobre nossas experiências, cumprimentar os vizinhos que passavam nas calçadas e que costumeiramente sentavam para que compartilhássemos temas em comum, falássemos das pequenas tragédias, dramas e comédias que formavam nossos níveis de companheirismo. Futebol, política, dinheiro, uma vizinha mais airosa, negócios, planos, piadas, tudo isso fazia parte de uma comunidade que crescia.

Os filhos cresciam como os pais os ensinavam a crescer. Filhos eram criados para respeitar negócios, para terem responsabilidade, para entrar em alguma faculdade de prestígio – medicina, engenharia (civil, claro!) e direito. O demais era o demais, vinha a reboque.

Em princípio, poucos notaram que as mulheres passaram a se tornar mais independentes, e quando a pílula anticoncepcional surgiu, somente a leitura da liberdade sexual passou a ser a entendida, mas a ascensão feminina passou a lo largo, sem muitas referências. Começava um mundo diferente, e as cadeiras que abrigavam as lendas e as conversas foram, pouco a pouco sendo consumidas pelas poltronas da sala, na qual a televisão passaria a tecer fios de irrealidades que nos tornavam todos cativos. Festivais, novelas, noticiosos – quem mais ouvia rádio? – e especialmente a publicidade fazia sua estreia nas casas das classes médias.

Um pulo mais adiante, e num átimo, as mulheres ingressaram firmemente no mercado de trabalho. Ninguém mais discutia se isso era bom ou ruim, apenas se indagava de sua conveniência. Famílias novas surgiam e se desmantelavam rapidamente. Discutia-se se o Brasil deveria adotar ou não o divórcio. Meu Deus parece que decorreram séculos!

Menos de quarenta anos após, os pais saem de casa, e o mundo da publicidade passa a reger as vontades, os desejos, as conveniências familiares, e dentro disso, não escapam as possibilidades da infância gerar dividendos e lucros no espectro do mercado. Hoje se inundam as crianças, os jovens e os adolescentes de apelos sexuais, mercadológicos, visuais, e, especialmente, do modo de influir na vida dos pais que, parece, perderam a identidade a partir dos anos sessenta, justamente quando a reivindicação social, política e a emancipação sexual assumiram lugares de proeminência cultural bastante acentuada.

Atualmente, os pais perderam se não totalmente, em grande parte, o rumo da convivência com os filhos e foram substituídos pelos I Pods, Mc Donalds, games, celulares, netbooks, notebooks, internet, web, Nike, Asis, e, especialmente, para a voragem do mercado. A grande tendência no momento é o distanciamento inter-relacional e o desconhecimento intra-relacional. O mundo atual globaliza sentidos, sentimentos e torna pais e filhos seres que não trocam nada além de informações casuais, que não discutem o que seja de relevante entre ambos. A linguagem que os novos meios de comunicação e as novas tecnologias trouxeram serviu ainda mais como um abismo entre pais e filhos. O acesso é ilimitado, e a influência dos filhos sobre o perfil de compras dos pais chega ao percentual de setenta por cento. O mercado, através da robotização das mentes, azeitada pela publicidade e elevada ao nível de mantra pelos mass media é o verdadeiro pai dos nossos filhos.

Quanto mais aumentamos a nossa capacidade de conversar, como nossos pais e avós faziam cotidianamente a cinquenta anos, de dialogar, de aprofundarmos nossas dúvidas e de questionarmos nossas histórias e tecermos nossas linhas de argumentação, menos o fazemos. Não importa se temos e-mail, computadores, celulares, telefones sem fio, e toda uma parafernália voltada para isso, se utilizamos toda essa tecnologia tão-só para marcarmos encontros voltados, no fundo, para a mercancia e para o desfrute das frugalidades que os mercados impõem a todos nós. Conversamos pouco, nos entendemos menos.

Quanto mais dispomos de máquinas, de calculadoras, de planilhas eletrônicas, de videoconferências, de telefones, de copiadoras, de processos de trabalho, de tecnologias de ponta, de novos materiais, de especialistas em gerência de pessoal, de administração, menos tempo nos sobra para gozarmos a vida, como Sócrates ou Platão faziam.

Os pais, por seu turno, de modo amador, continuam em sua tarefa de competir com os meios eletrônicos e com a capilaridade de necessidades artificiais impostas pelo mercado, para educar seus filhos. Estes, quando crescem, contudo, tem em si já inoculados os valores da mercancia, do laissez-faire, da falta de comunicação, partindo do princípio absolutamente irreal de que ser independente é ser solitário, é não dar atenção às pessoas que verdadeiramente as amam e que estarão sempre dispostas a melhorar suas vidas.

Nunca fomos tão distantes, nunca nos esquecemos tanto dos papéis amorosos e amoráveis de sermos irmãos, pais, filhos e do que significa solidariedade e laços familiares. Os outros sempre parecem ser os melhores, os mais afinados, os mais inteligentes, os mais espertos, os mais agradáveis, os que realmente sabem a diferença entre fazer um download, o que significa uma tela wide screen, quem é Naruto, Super Homem ou Spiderman ou, especialmente, onde fica o Japão, a Disney, a Motorolla ou a fundamental diferença entre um I Pod e um Tablet.

No mundo real, os pais competem contra o que instintivamente sabem não ser o ético, o educativo, o melhor para os seus filhos, para que eles vivam um mundo melhor e menos preconceituoso. Mesmo assim, os filhos perdem horas no computador vendo e jogando games e se alienando, ao invés de pensarem em como seus pais construíram tudo que existe apenas estudando, lendo e utilizando o velho Delta Larousse. Os pais, esses, deviam ser milagrosos, pelo menos no que tange a processos. Ninguém se lembra disso, parece. Os pais, mesmo assim, competem. E perdem.

1, 2 e 3 os termos obediência, subserviência e servilismo foram retirados do dicionário michaelis.uol.com.br

hILTON

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