Nós dependemos dos chapados


Ontem, 24 de novembro de 2009 não tivemos aula à noite na Chico Mendes. Anteontem à noite gangues rivais travaram uma batalha na Vila; segundo o que me informaram, munição não foi poupada, inclusive com a sofisticação de armamento pesado e balas tracejantes. Ontem de manhã novo tiroteio próximo à escola, pondo em risco as crianças do turno da manhã. Quando cheguei para trabalhar, por volta de 13h30min as notícias me alcançaram. Havia um clima de risco, de medo, de apreensão na escola.

Circulava um boato de que uma das gangues iria invadir a escola para matar um aluno, que estaria envolvido em uma dessas duas facções criminosas. O aluno não estava na escola. Durante a tarde tivemos a Brigada Militar rondando a escola. Conforme se diz por aqui, o dia é da polícia, a noite dos traficantes.

Não foi possível aula à noite; os poucos alunos que chegavam traziam consigo a dúvida se poderiam retornar para casa, enfim, se suas ruas não seriam consideradas trancadas pelo toque de recolher dos traficantes. Obtive relatos fidedignos de pessoas que convivem na comunidade e que “não se arriscam mais a sair de casa à noite”. Há um clima de terror na Mário Quintana, pelo menos até que alguma dessas facções de tráfico consiga o domínio que tanto espera. Assim mesmo: é necessário que os donos do tráfico possam exercer sua área de influência sem qualquer problema. Enquanto isso, o que resta do espaço público é leiloado, é privatizado pelas mãos do crime. Tudo que a escola poderia fazer, fez, não vou aqui dizer que não. Contudo, a escola não é garante nem de nossas seguranças pessoais, nem de quem mais circula ou estuda na escola, e nem poderia.

Presos dentro de uma ciranda que se arrasta pelo menos há dois anos, o funcionamento da escola, a educação, os cidadãos, seus filhos, mulheres e todos nós, independentemente do que façamos ou não, estamos reféns, submissos e submetidos a um cárcere dependente das demandas do tráfico. Se o poder público não toma conta do espaço público, os traficantes o fazem, seja guerreando pela Mário Quintana, seja matando por um toma-lá-dá-cá, seja impondo uma política de terror a toda uma população de pessoas carentes que tem todo o direito de morar, de transitar, de passear sem que suas vidas estejam constantemente ameaçadas por um nada, por uma decisão de alguém chapado, entorpecido pela droga.

Infelizmente é assim. Talvez o mundo não saiba, as autoridades desconheçam, a Secretaria Municipal de Educação apenas continue discursando, mas cada um de nós se arrisca muito para trabalhar e trazer educação à comunidade.

Somos reféns de nossa própria condição de educadores, e embora haja claramente riscos, isso não traz sequer uma linha de jornal. Como um rebanho, o tráfico nos controla, nos diz o que podemos ou não podemos fazer. É triste, é muito pesaroso, mas é real, tanto o que descrevemos quanto os cadáveres tão habituais nesse tipo de mundo que escapa à virtualidade. Passamos a ouvir tiros e sabemos dos assassinatos, mas a tudo banalizamos. Afinal, talvez ao cabo sejamos os selvagens de “O incrível Mundo Novo” de Huxley. Mas, sem dúvida alguma, não nos é dado conhecer de pleno o romance e menos ainda o roteiro onde fazemos, para todos os efeitos, o papel de ingênuos protagonistas.

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