Aprovação automática


Hoje é 17 de dezembro de 2007, e estou na escola. Curiosamente os alunos que mais se comportaram de maneira displicente, mesmo mentirosa e que absolutamente não se responsabilizaram em relação às suas aprendizagens, são os primeiros a perguntar: “professor, eu passei?”. Existe uma variação, na qual o aluno diz: “professor, o senhor me passou?” E, por fim, aquele que tem plena consciência de que não pode passar pelo que apresentou durante o ano letivo: “professor, eu tenho certeza que não passei, né?”

Nesses momentos eu poderia repetir o gesto que vi infinitas vezes: dar de ombros, dizer “tô nem aí”, “não dá nada” e assim por diante, mas não seria a alternativa correta. Porque, de certo modo, a grande, a enorme maioria dos alunos serão promovidos, exceção feita a alguns casos de infrequência ou outros, nos quais inevitavelmente o professor deverá realizar um dossiê com provas que demonstrem o que ele e o aluno já sabem. Mesmo os alunos que deveriam ser retidos (ou mantidos) por excesso de faltas terão defensores entre os meus pares, embora o ensino fundamental seja presencial e não uma modalidade de ensino a distância (EAD).

Assim prevalecerão as mentiras institucionalizadas: as da Secretaria Municipal de Educação, as dos pais, as dos meus pares, as dos alunos, as da direção: todos unidos em um só ideal, tão citado quanto desprezado: a aprendizagem, o conhecimento, a valorização de uma educação acessível a todos e de qualidade. Com tal mote, recheamos pedras com maravilhosas coberturas de chocolate.

Seguindo pois o caminho standard, as perguntas quanto às aprovações fazem parte de um ritual quixotesco, onde quem pergunta sabe, de antemão e independentemente do que fez ou deixou de fazer, a resposta que lhe será dada, ou, pelo menos, a mais provável. Deste modo a educação se reduz a uma hipótese, a algo mecânico e com um sentido meramente utilitarista. O que importa a tais alunos é se “vão passar de ano”, do mesmo modo como importa se, no Natal, ganharão este ou aquele celular, ou tênis, etc. Os sentidos vários da educação se encontram abandonados, na mesma medida em que, por exemplo, cultura não é mais algo a ser fruído, mas meramente consumido.

É claro que a angústia de saber se foi ou não aprovado, a expectativa de sentir-se ou não inserido dentro de um processo pessoal e intransferível de aprendizagem, foi substituída por um vago sentido de sensação, e não de reflexão. E um dos motivos é o gerenciamento dos ciclos de ensino, que, para atender interesses político-educacionais e especialmente econômicos, desestimulou pedagogicamente o desinteresse e o descaso pelo ensino formal. Com aprovações praticamente automáticas, com professores cuja auto-estima não é irrigada pela formação permanente e constante, com alunos que vêem na educação apenas um meio ganhar mais dinheiro, com a escola transformada em uma grande creche, um grande social club, realmente valorizar o estudo passou a ser uma grande intenção.

Em muitos casos liquidificou-se o ensino, massificou-se a educação, aniquilou-se as iniciativas dos professores, sejam para a melhoria de condições de ensino, seja no sentido crítico-social. Ao não escutar os professores, findou-se por transformar as escolas públicas em pavilhões nos quais se burocratiza a criação, se retém boas parcelas de adolescentes que, na rua, incomodariam a classe média e perturbariam as infindáveis peregrinações pelos shoppings da vida e outros locais de intensa movimentação.

No último dia letivo de 2007 em uma de minhas turmas C20 (correspondentes à sétima série do ensino seriado), escrevi no quadro verde a palavra “revisão” e disse aos meus alunos que estava à disposição para esclarecer quaisquer dúvidas surgidas em 2007. Eu estava ali, disposto e presente, mas o público não. A turma me afirmava que “não precisava” que “queriam ir para a informática”, “ir para o pátio” ou qualquer outra coisa, menos o que eu estava propondo. Fui atropelado pelo “não dá nada” institucionalizado e as vezes, eu confesso, fica muito difícil lamber as próprias feridas.

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