Papo reto, mano!


Os dois alunos entram na sala de aula, com aquele gingar típico, ar superior, os indefectíveis bonés, tênis, tattospiercings, pulseiras. O ar indolente, estilo macho alfa sobrepassa a tudo e a todos. Com todo aquele aparato parecem dizer: I’m the fuckerI’m the big bossI’m the macho man. Estendem a todos a condescendencia de ali permanecerem, eles, os espertos, os malandros, os que ameaçam os menores, os terrores da Chico Mendes.

Estão aqui para dizer que a escola e tudo que há nela é seu território, o que inclui as cachorras e a fauna toda. Eu sorrio. São malandros de proveta, adolescentes que podem inclusive portar armas e que tem tudo para ser baleados ao se envolverem em alguma situação mais complicada. Ambos participam de bondes. “Serão motorneiros?”, penso, mas não encontro resposta.

A experiência me diz que suas aparências e o terror que  insuflam aos outros são reais. Também é claro que tentem um poder de imposição, visando submeter terceiros. É um poderzinho, uma coisinha menor, mas já incomoda. O sistema educacional não deixa de ser conivente. Chamar pais e falar com postes tem o mesmo efeito.

Fazer termos, atas ou coisas semelhantes somente serve para eles escarnecerem de todos nós, acostumados ao reino do “não dá nada”, o que, infelizmente é verdade. É claro que qualquer desses adolescentes aprendizes de bandidos ameaçam a todos que trabalham ou circulam na escola. Quero admitir que, dentro do que buscam, são mais competentes do que o sistema que os abriga, e eles sabem muito bem disso.

Estamos submetidos a riscos eminentes, potencializados na medida em que o professor, os introjeta, abrindo mão de sua autoridade de educador, vivendo sob o medo. E se os queridos adolescentes perceberem isso, você, professor, infelizmente, passa a ser um jester, um bobo da corte, uma marionete.

A lei diz que o estudo deve ser universalizado. OK. Isso significa que, tendo idade, todos devem ir para a escola para exercer o direito de estudar. Os pais, contudo, tem o dever de matricular os filhos no ensino regular e os mesmos tem o dever de permanecer on board. Caso isso não aconteça, tome Conselho Tutelar, secretarias mantenedoras, as decisões dos sistemas educacionais, o Ministério Público e os Juizados de Infância e de Juventude que empurrarão vários adolescentes para a escola, sem que aos mesmos ocorra qualquer interesse em relação ao fato, a não ser o de participar de um grande clube onde o ensino formal é a última coisa a ser, eventualmente, vista.

Nesses casos, estar na escola é uma obrigação, é um fardo, o cumprimento compulsório de uma obrigação. E aí as coisas começam a mudar de figura, especialmente se os sistemas educacionais não são providos de redes eficazes e eficientes para o tratamento de problemas de saúde mental e se a aprovação linkada ao conhecimento passa a ser uma piada, um jogo de palavras dentro de um pedagogismo demagógico e ineficaz.

A desproteção ao professor em seu exercício profissional é algo impressionante. De certo modo, é como se vivessemos sitiados. De outra forma, uma grande parte dos professores também de há muito abriram mão de sua autoridade, independentemente do motivo. Não, não estou pregando heroísmos, de forma alguma, estou apenas dizendo o que verifico no dia-a-dia.

Os professores desconhecem sua força política e, ao permanecerem inertes, são presas fáceis da violência simbólica e explícita que assola as escolas, de uma mídia que só os defende na hora de vender jornais ou conseguir um pouquinho mais de audiência e de políticas muito mais voltadas para o econômico e para o caixa do que para a aprendizagem.

Infelizmente o apoio ao mestre é constrangedor e o convívio com tais fatores enfraquece ainda mais uma classe dividida entre os que pretendem algo a mais do que apanhar o seu contracheque no final do mês e, quanto ao resto, desinteressar-se de modo deprimente.

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