Um breve relato pessoal


 

Na época em que eu era aluno de primário (hoje ensino fundamental) ou do segundo grau (hoje ensino médio), era impensável que você afrontasse um professor, ou o vaiasse ou o agredisse com palavrões, menos ainda fisicamente. As eventuais agressões com palavrões, por exemplo, eram ditos às socapas, na escondida, observando limites e limitantes bem marcados. Quando os mesmos não eram respeitados o sistema escolar reagia rapidamente, observando seus territórios.

Quando explodiu a ditadura militar no Brasil em 1964, eu tinha dez anos e estava no primário. Quando ele terminou, em 1984, eu já estava na faculdade. Hoje percebo que observei muito; professor de ensino fundamental nas áreas de ciências e de matemática, vi aos poucos se desagregar todo um sistema de ensino. Sempre trabalhando em escolas públicas do município de Porto Alegre, sempre em periferia, noto grandes diferenças entre meu início de carreira e hoje.

As tecnologias à disposição dos professores (ou educadores, em um sentido mais amplo) são incomparáveis às de trinta ou quarenta anos atrás, mas não o rigorismo na formação pedagógica dos professores.  Assisti ao crescimento de corporativismos e de violências reais e simbólicas patrocinadas por órgãos de governo, a quem incumbiria o implemento de políticas públicas de educação, bem como de desagregação profissional dos professores, enquanto classe de trabalho.

Houve uma década finalmente (a de noventa do século XX) na qual as pessoas, de modo geral, passaram a glorificar seu próprio umbigo, desiludidas com o que estava acontecendo no mundo e no Brasil. A marginalidade, alimentada por uma elite preconceituosa e absolutamente voltada para seu próprio bem estar, simplesmente explodiu, revelando cruamente as diferenças sociais em todos os níveis (econômico, financeiro, de acesso à educação, moradia, saúde, transportes, etc.) possíveis neste Brasil.

Finalmente, pude forçosamente verificar a queda do estado de bem estar  social (welfare  state) e  a ascenção das corporações e dos mass media. Aqui, com a queda cada vez maior das políticas públicas compensatórias de direitos, presenciei uma escalada cada vez maior de reducionismos e de indiferença social. Quanto maior a sociedade brasileira discursava a favor da educação, menos se comprometia com a mesma.

Toda e qualquer manifestação a favor do sistema educativo sempre foi bem vinda, desde que não implicasse em nenhum tipo de ônus. Greves não eram bem vindas, pois traziam desconforto às classes médias e baixa; greves atrasam as férias, deixam as crianças em casa e não há quem as cuide. Por outro lado, aumentar os valores dos vencimentos dos professores de escolas públicas implica em mais impostos, e “ninguém” quer pagar mais impostos. Enquanto, de um lado, surgiam várias discussões a esse respeito, a elite brasileira passava olimpicamente ao largo dessas questões, ou porque seus filhos estudavam em escolas particulares (onde eram tratados como clientes) ou porque estudavam já no exterior.

Enquanto isso, com a degeneração de algumas referências éticas importantes, com a solidariedade cada vez mais dando lugar ao egocentrismo e com as confusões artificialmente criadas entre  autoridade e autoritarismo, democracia e democratismo, pensar e não-pensar, caráter e esperteza, nos vimos, todos, lançados próximo ao caos.  Às incongruências da elite política seguiram-se o laissez faire e a indiferença com os fatos do mundo. O recrudescimento da violência, em face da desarticulação dos mercados de trabalho, do surgimento cada vez maior do desemprego e das crises setoriais que atormentavam a economia, fizeram com que o bom senso, o humanitarismo solidário e as tábuas de valores morais (não moralistas, morais) entrassem, igualmente, em dèbacle.

As comunidades mais carentes, expostas a todos esses fatores, e atravessada por uma série de contingências excludentes, sentindo a falta de políticas públicas, concluíram que deveriam  organizar-se para cobrar os direitos que lhes haviam sido histórica e cinicamente sonegados.  O país incrementou enormemente a universalização do estudo, o que se configurou através de um acréscimo bastante sensível em número de matrículas, mas os problemas ligados à qualidade de ensino, à reprovação e ao abandono da escola continuam persistindo no Brasil.  Esses três fatores implicam, à evidência, no prejuízo à mobilidade social, desejo das classes mais alienadas pela sociedade.

Os professores, que no dizer de ENGUITA, constituem uma semi-profissão, sentiram, no decorrer dessas três décadas, o esvaziamento não apenas de seu trabalho, graças às normativas mais rígidas das instituições regradoras do sistema educacional, mas o estiolamento de sua imagem pública enquanto profissionais da educação; por outro lado, as ondas de permeabilidades necessárias ao exercício da docência, em termos teóricos e metodológicos, mais fizeram crescer as indagações que as certezas, somadas a uma formação  nem sempre rigorosa do ponto de vista  formal.

Talvez o que se tenha dito a respeito de educação já tenha sido historicamente concluído, ou talvez o modelo público de escola não tenha conseguido resistir a todos esses fatores externos, que corroeram a instituição de ensino, ou mesmo aos fatores internos, que dilapidam uma concepção mais holística de educação. De todo modo, avançamos, embora o diálogo com a sociedade seja difícil e, por vezes, demasiadamente árduo e formal. É bem possível que uma maior flexibilidade, mais que possível, seja absolutamente indispensável no momento histórico em que vivemos. Para isso, contudo, devemos questionar seriamente  a própria instituição escola e, dentro de uma visão mais aberta de sociedade, sermos menos críticos e mais criativos.

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