Navegar é preciso, viver não é preciso


HILTON BESNOS, 18/11/2014 – Durante uma boa parte da minha vida fui professor, sempre em escola pública, o que significa que não apenas compartilhei com meus colegas questões comuns normalmente que são debatidas em todas as escolas, em maior ou menor grau, mas que conheci um pouco mais da realidade em comunidades carentes. Isso me levou a uma condição socialmente dúplice, qual seja a de, por ofício de profissão ter de gravitar entre dois mundos. Um deles mais agradável, outro mais carente. Um que me dava acesso à leitura, e aos demais bens que consumidores médios possam sustentar, e outro que me demonstrava o sofrimento de ter de pensar hoje no que vai alimentar-se no dia de amanhã.

Aprendi muito com esses contatos de realidades tão distintas, e em razão dos mesmos, decidi dedicar-me especificamente à educação, como o meio social e intelectual que me proporcionava a oportunidade real de efetivamente buscar melhorar em algo a vida dos meus alunos. No entanto, quando estamos efetivamente envolvidos nos processos educacionais formais, o que inclui reuniões, conselhos de classe, folhas ou cadernos de chamada, preenchimento de planilhas das mais variadas ordens, enfim um trabalho administrativo aliado à prática didático-pedagógica, observei que na atividade cotidiana do professor há pouco tempo disponível para pensar sobre a educação de modo geral, não apenas a curricular, o que cria um problema de fundo que parece insolúvel.

Por outro lado, não é apenas uma formação técnica que pode resolver ou pelo menos amainar os problemas que surgem no cotidiano. Seria necessário que nós, professores, pudéssemos ter um currículo muito mais amplo, mas não apenas aquele centrado em assuntos acadêmicos, mas em interesses que a vida política, social, econômica nos propõe. Melhor seria que pensássemos em um currículo no qual houvesse uma epistemologia mais humana, voltada não apenas ao raciocínio e ao cérebro, mas às integralidades de nossos talentos. No momento em que a escola não os patrocina e não tem projetos para incentivá-los, acaba premiando um tipo de educação que pouco interage com o que realmente importa a todos nós, ou seja, o desenvolvimento de nossas possibilidades de melhorarmos as nossas próprias vidas.

Creio que nós professores passamos pela angústia viceral da incerteza não apenas quanto aos nossos procedimentos didático-pedagógicos, mas especialmente em relação a formação.

Independente do que discutamos em educação ou em qualquer outra atividade produtiva, o profissional deve estar preparado para o que dele se espera. No caso dos professores, contudo, não se trata apenas de uma formação no sentido estrito de ensinar algo a alguém (ou a muitos) em um determinado tempo, mas é necessária que aquela seja (bem) mais ampla. Um professor deve saber mais do que lhe é exigido compulsoriamente, pelo simples motivo de que ele é um formador.

Agregue-se a esta realidade o fato de que a própria instituição escola é sangrada pelas necessidades de toda ordem – sistema escolar, produtivo, social, desejos despertados precocemente em relação a sexualidade, ao consumo, à inserção em um mundo de valores que são relativamente novos e, em boa parte, ainda não assimilados.

A questão da formação é primordial, mas há que pensarmos em uma formação convencional, para professores lidarem com os problemas do dia-a-dia, e uma formação não convencional, para melhorar a relação das pessoas com o mundo. Nessa última espécie de formação, o papel da escola é fundamental, especialmente quando a mesma repensar sua influência social sobre o local onde está inserida.

Uma formação não convencional implica em um deslocamento do enfoque privativamente acadêmico para a exploração das potencialidades criativas dos alunos. A escola, talvez, ao fim e ao cabo, talvez não seja a melhor sede para tal desenvolvimento, mas  buscar ações nesse sentido é tão fundamental quanto a exploração do currículo formal, sob pena de cristalizar-se em meio às neuroses educacionais que privilegiam especialmente as linguagens e as matemáticas. Navegar é preciso, viver, conforme ensina a escola, nem tanto.

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