O exército anti-cotas e as vagas no ensino superior brasileiro


FONTE HUM HISTORIADOR

http://umhistoriador.wordpress.com/2012/08/18/o-exercito-anti-cotas-e-as-vagas-no-ensino-superior-brasileiro/

No dia 15 de agosto, uma marcha intitulada “Exército Anti-Cotas” foi realizada na cidade de Santa Maria-RS e ganhou força nas redes sociais durante a semana, causando certa polêmica em muitos perfis, inclusive o meu.

Duas imagens ligadas ao tema se destacaram: na primeira, publicada pela Revista O Viés, uma jovem de Santa Maria-RS reivindicava o fim ou a diminuição do índice de 50% de vagas oferecidas para cotistas brasileiros nas instituições públicas de ensino superior e técnico. Ela e seus colegas manifestantes bradavam gritos de ordem como “Cotas para quem estuda” e “Igualdade para todos”.

Apenas pra começar, considero bastante revelador, e ao mesmo tempo preocupante, um grupo contrário as cotas se auto-denominarem com um termo tão impróprio como “Exército”. Revelador pois demonstra que eles entendem que este tema deve ser encarado como uma luta para a qual é necessário haver um exército que defenda seus interesses. Preocupante, pois não sabemos a que ponto e que recursos esse auto-denominado exército está disposto a utilizar nessa “luta”.

Segundo reportagem da revista O Viés, intitulada “Deixa o preto estudar”, boa parte das pessoas que ingressaram neste grupo “são jovens que estudam em escolas particulares e cursinhos pré-vestibulares pagos, com representantes do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, de São Paulo e da Bahia” e, por enquanto,“além de compartilharem indignações e argumentos contrários à lei aprovada, os participantes do grupo estimulam a organização de manifestações nas cidades, exigindo o veto da presidenta Dilma ao projeto de lei já sancionado pelo Senado”.

Boa parte desses jovens que estavam na marcha, gritavam pedindo por “direitos iguais”, pois se sentiam prejudicados pela lei que aprovou a adoção das cotas sociais e raciais. À este respeito, já falei muito aqui neste blog e, neste momento, entendo bastar dizer que penso tal qual uma colega que me disse outro dia não haver nada mais injusto neste mundo do que tratar com igualdade os desiguais. Assim, sob minha perspectiva, é bastante claro que os manifestantes do exército anti-cotas, ao pedir por “direitos iguais”, estão pedindo para que o governo cometa uma INJUSTIÇA ao eliminar ou diminuir o índice de vagas no ensino superior aos cotistas.

A segunda imagem que mencionei logo no princípio deste post, talvez tenha surgido como resposta à foto daquela jovem segurando o cartaz “Quer uma vaga? Estude!”. Trata-se de uma charge de Carlitos, onde o autor aponta o perfil socioeconômico daqueles que reivindicam pelo fim ou diminuição das cotas. Ao explicitar esse perfil, Carlitos demonstra claramente a injustiça por trás da demanda de pessoas como os membros do tal Exército Anti-Cotas.

Ao postar esta imagem em meu perfil no facebook, me surpreendeu a reação de alguns colegas que se sentiram incomodados por serem contrários ao sistema de cotas, mas não se identificarem com as características apontadas pelo chargista na imagem. É claro que tal reação se deve ao fato de a charge, ao generalizar o comportamento dos anti-cotas, acabar expondo essas pessoas publicamente como preconceituosas e, até mesmo, racistas. Evidentemente, não creio que todas as pessoas que são contrárias às cotas sejam efetivamente preconceituosas ou racistas, contudo, acredito que acabam adotando e repetindo discursos/argumentos criados por pessoas marcadamente preconceituosas e racistas, o que é bastante preocupante.

Amigos e colegas postaram em meu perfil esse tipo de argumentação ao qual me referi: “cotas são atestado de incompetência do governo, já que o problema está no ensino público de base”, ou ainda “as cotas fazem com que a qualidade do ensino superior público tenha o nível substancialmente diminuído” e outras tantas argumentações sobre as quais já conversamos por aqui.

Na primeira argumentação, retruquei aos amigos e colegas que eles deveriam tomar cuidado ao fazer tais afirmações, pois sem perceber, assumiam uma posição bastante confortável de transferir a culpa para as costas do governo, sem propor nenhuma solução, mesmo que temporária.

Acho que é bastante evidente que quem articulou a argumentação de que “o ensino público de base é uma porcaria e, por isso, não se justifica a adoção das cotas até que o governo invista maciçamente em educação pública de base”, tinha justamente a intenção de não propor nenhuma solução ao problema de que pobres e afrodescendentes estão alijados do sistema superior de ensino neste país. O real objetivo desta argumentação é justamente manter a situação da forma como ela está e sempre esteve, impedindo a ascensão social de grupos considerados “indesejados” aos mesmos círculos dos que frequentam as universidades públicas.

Oras, que o ensino público de base não é bom todos sabemos, mas contrariamente do que pretende o tal exército anti-cota, tal constatação justifica sim a adoção das cotas como solução temporária enquanto o governo não investe pesadamente em educação pública fundamental para resolver este déficit educacional. Portanto, as cotas são soluções temporárias para o problema da má qualidade da educação pública no Brasil.

Quanto a segunda argumentação, a de que os cotistas abaixam o nível da educação superior das universidades públicas, trata-se de um mito que vem sido repetido incansavelmente e que muitos, por pura falta de interesse em pesquisar sobre o assunto, acabam repetindo para justificar um pensamento preconceituoso. As pessoas que defendem essa posição, sequer se dão ao trabalho de verem notícias como esta – COTISTAS TÊM MELHORES NOTAS EM UNIVERSIDADE – ou esta outra – COTISTAS ATINGEM NOTAS MAIS ALTAS EM 27 CURSOS – ou ainda esta – ESTUDANTES COTISTAS VALORIZAM MAIS A VAGA NA UNIVERSIDADE.

Como é de se imaginar, se estas pessoas sequer se dão ao trabalho de ler as notícias, quem dirá os estudos mais aprofundados sobre o tema: Sistema de cotas e desempenho dos estudantes nos cursos da UFBA, ou então, Cotistas e Não-Cotistas: rendimentos de alunos da Universidade de Brasília.

Todas estas notícias e estudos demonstram exatamente o contrário do que estão afirmando e acabam de vez com esta ideia tola de que os cotistas não conseguem acompanhar os cursos ou tem um desempenho pior do que os não cotistas.

Infelizmente para meus amigos e colegas que utilizaram tais argumentações, eles apenas reproduziram o pensamento preconceituoso e racista de quem as produziram e acabaram colando em si próprios este rótulo do qual deveriam se envergonhar e buscar rapidamente se livrar deles. Seguir divulgando tais mensagens, vão apenas reforçar essa identidade e contribuirão na transformação de mentiras em verdades absolutas, se já não o são, na cabeça da classe média brasileira que, justamente por isso, cada vez mais vai se mostrando preconceituosa e racista.

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