O mito da racionalidade


Um dos melhores livros que tive o prazer de ler foi Televisao subliminar : socializando através de comunicacoes (Porto Alegre, Artmed, 1998, 288p.), de Joan Ferres, professor da Univ ersidade de Barcelona, Espanha. Logo no início do livro, que não tenho às mãos agora, e portanto não consigo referenciar exatamente, o autor fala de alguns mitos sobre os quais nós, ocidentais, procuramos pautar nossa existência em sociedade. Um deles é o mito da racionalidade, segundo o qual a maior parte dos nossos comportamentos é racional, ou seja, passa pelo crivo da razão.

Dizendo de outra maneira, nós nos cremos muito racionais, ou seja, nossas ações são estruturadas dentro da razão. Para o autor isso é um mito: na verdade os nossos comportamentos são muito mais guiados pelo não-racional, pelas nossas emoções. No entanto, o pensamento e a ideologia standard ou conservadora nos leva a crer que devemos agir de acordo com a razão. Talvez da combinação entre culpa e realidade advenha uma boa parte dos problemas e dos prazeres que enfrentamos ou gozamos ao longo de nossas vidas.

A realidade, contudo, seria construída, pontuada pelos mitos que desenvolvemos às custas da educação não formalizada e formalizada que recebemos durante nossas vidas e através das mediações de nossas aprendizagens com os outros, iniciando com as nossas primeiras impressões através do imprinting cultural ou pela famosa metáfora do espelho lacaniano.

Um dos mitos, justamente o da racionalidade é muito mais uma herança sócio-cultural do que uma realidade em sí. Somos todos muito mais a parte submersa do iceberg do que sua parte emersa.Somos muito mais a inconsciência que buscamos a tantos esforços mascarar do que a racionalidade que prepotentemente ostentamos como um tigre de papel.

A racionalidade fica por aí, perdida entre alguma rua entre a casa e o estádio de futebol, entre a educação e a barbárie, entre a inteligência e a estupidez? Não, ela ficou justamente onde sempre esteve e está,dentro de nós, sofrendo o ataque constante de ondas de emoções, por um trem de ira que talvez possa explicar porque somos tão atordoadamente violentos. Fanáticos, formadores profissionais de ódio, desatentos, tolos e ingênuos manipuláveis mantem a raiva porque somente em determinadas circunstâncias lhes é dado o direito para o gesto primal, para desabafar de modo incontinenti as suas raivas, impotências, frustrações.

Se fosse o contrário, seria igual. Esta uma face niveladora da violência: ela estupidifica em massa. Talvez fosse interessante citarmos aqui o que Simone de Beauvoir chamava de complexo de sardinha, o que seria muito apropriado. Também a violência grupal solidariza contra o outro, o terceiro, o pretenso inimigo, aquele a ser atingido, humilhado, massacrado.

Por fim, lembro de um Conselho de Classe havido em 2006 e no qual um dos temas era justamente de haver violência em aula. Uma professora entendia que quandoisso ocorresse, os professores deveriam ser mediadores do(s) conflito(s), para que não deixássemos que os sentimentos de ódio, de racismo, de ignorância continuassem a atormentar um ambiente que deveria ser voltado para o ensino e a aprendizagem, para a convivência pacífica, para o entendimento do outro.  Em outros termos, o “fazer vistas grossas”, o desincomodar-se, o “laissez faire” somente serviria para alimentar dissensões, fortalecer mágoas e incentivar novas práticas de todo indesejáveis.

Recordo-me que a mesma foi a muito criticada por duas colegas, que acharam um absurdo o que ela dizia. Apenas observei, embora tivesse vontade de dizer que a arrogância é um belo modo de se iniciar, se não uma guerra, pelo menos uma violência simbólica. Mas citar Bourdieu, em alguns casos, seria tomado quase que por uma ofensa pessoal, para quem somente se preocupa consigo próprio e prefere manter-se dentro de um ambiente estúpido e gerador de novos conflitos. Afinal, não há iceberg que possa se comparar com a extensão da ignorância e com os melindres de egos arranhados. HILTON BESNOS

 

Um pensamento sobre “O mito da racionalidade

  1. Pelo fato de não ser explicita não quer dizer que não seja violência . precisamos redefinir racionalidade e violência ou aceitarmos que não chegamos a ser homo sapiens ainda .

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