O mundo exige alunos com formação global


FONTE ISTO É ENTREVISTA

http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/374673_O+MUNDO+EXIGE+ALUNOS+COM+FORMACAO+GLOBAL+

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Ignacio Berdugo

“O mundo exige alunos com formação global”. Um dos maiores especialistas do mundo em ensino superior, o ex-reitor da Universidade de Salamanca defende a validação sem burocracia de cursos feitos no Exterior e diz que o Ciência sem Fronteiras dará resultados a longo prazo.

por Camila Brandalise

“Se queremos favorecer o intercâmbio, é preciso investir no ensino de idiomas”, diz ele.

Uma universidade precisa garantir aos seus alunos educação de qualidade, oferecer boa formação profissional e possibilitar pesquisas inovadoras. Mas para o espanhol Ignacio Berdugo, 63 anos, reitor da Universidade de Salamanca, na Espanha, por dez anos e um dos maiores especialistas do mundo em ensino superior, há, hoje, um novo desafio: internacionalizar o aprendizado dos estudantes.

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“Há ótimas universidades aqui, como a USP e a UnB (foto). Não devem nada
às europeias. Um dos pontos fortes do Brasil é a pós- graduação”

 “É uma maneira de contribuir com a mobilidade do conhecimento e também com a geração de profissionais capacitados para atuar tanto local como globalmente”, afirma Berdugo, diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca e presidente do Comitê Organizador do III Encontro Internacional de Reitores Universia, que reunirá mais de mil reitores do mundo esta semana no Rio de Janeiro. Doutor honoris causa por dez instituições, Berdugo falou à ISTOÉ sobre a necessidade de possibilitar o intercâmbio de alunos e de pesquisas, o Ciência sem Fronteiras e a estrutura educacional do Brasil.

 ISTO É – Como modernizar a universidade?

IGNACIO BERDUGO –  Tornando-a globalizada. Criando centros de línguas, desenvolvendo a área de informática. Também é preciso fazer as coisas de um jeito diferente. Muitas universidades têm atitudes conservadoras, mantêm-se como estão. Uma instituição de qualidade tem que ter autocrítica sobre o que precisa melhorar. Por isso é um desafio. É preciso mudar para ter novas respostas.

ISTOÉ –  Por que é preciso internacionalizar a educação?
IGNACIO BERDUGO –  O mundo exige alunos com formação global. Acredito que é papel das universidades responder às demandas das sociedades em que estão inseridas. E entre as necessidades mais importantes e recorrentes da atualidade está a universalização do conhecimento e da formação prática esociocultural. A internacionalização contribui com a mobilidade do conhecimento e também com a formação de profissionais capacitados para atuar tanto local como globalmente. No mundo de hoje, esse é um fator que define um bom profissional. Quem tem que possibilitar isso? Todos os agentes da educação. A educação interessa à sociedade, ao Estado. É um direito, não um privilégio. E quem garante os direitos? O Estado. Nesse caso me refiro ao setor público em geral, em todo o mundo. Interessa a todos que a educação seja de qualidade, inclusive às empresas. Então, se para ela há benefícios nisso, também precisa investir.

ISTOÉ –   O que deve ser feito?
IGNACIO BERDUGO –  Estabelecer relações que possibilitem a mobilidade. Criar centros de pesquisa, políticas internas que facilitem as trocas de alunos e pesquisadores e de conhecimento. Se queremos favorecer o intercâmbio, é preciso investir no ensino de idiomas. São mercados que lidam com pessoas que falam diferentes línguas. Também significa reconhecer os estudos no Exterior. Se eu sair do Brasil e for estudar em Buenos Aires, não deve haver empecilhos para validar minhas aulas, a responsabilidade da universidade brasileira é reconhecê-las.

ISTOÉ –  Esse parece ser um grande entrave para a internacionalização do ensino no Brasil.
IGNACIO BERDUGO –  O reconhecimento de títulos de outro país é sempre um problema, não apenas no Brasil. Para a União Europeia, por exemplo, esse foi um fator-chave, pois se objetivava a mobilidade de profissionais e de capitais.

ISTOÉ –  Na Europa há muita interação entre as universidades. Por que o mesmo não acontece na América Latina?
IGNACIO BERDUGO –  Na União Europeia são 23 línguas, na América Latina, duas, que se parecem, e a princípio seria um elemento facilitador. Mas na comparação há um fator político lá que favorece essa internacionalização: o projeto da própria União Europeia. Um médico formado na Finlândia pode trabalhar na Bélgica. Um arquiteto espanhol pode construir na Alemanha. É preciso internacionalizar os conteúdos de formação de carreiras e na Europa houve esforço político para que os cursos se pareçam.

ISTOÉ –  O programa Ciência sem Fronteiras está atendendo às expectativas?

IGNACIO BERDUGO –  Acho que o Ciência Sem Fronteiras trará uma resposta a longo prazo. Dentro de dez, 15 anos, assim como a maioria das políticas educativas. Não é uma ponte, uma obra pública. Não se pode ver. Mas, se a ideia é reformar a universidade brasileira ou favorecer a internacionalização, esse é um começo. Os efeitos gerais sobre a sociedade não vão ser vistos de imediato. Mas são necessários, também, programas bilaterais. Seria bom, por exemplo, que o Ciência sem Fronteiras favorecesse os dois lados não só para enviar alunos brasileiros, mas também para receber estudantes de fora do Brasil. Nesse caso, os governos dos outros países teriam de pagar.

ISTOÉ –  Qual é sua visão sobre o ensino superior no Brasil?
IGNACIO BERDUGO –  Acredito que a história de cada país é um condicionante básico da realidade atual. A história da educação superior no Brasil é muito curta, a primeira instituição de ensino superior é do século XIX. O que havia antes? A elite ia para Portugal e se formava em Coimbra. Quando houve a independência, foram criadas faculdades de medicina e de direito. Outro condicionante é o positivismo, a ideia de que interessam soluções de curto prazo. Depois houve a conversa sobre a criação de universidades, não só faculdades profissionalizantes. Trata-se de uma discussão no Brasil que se divide entre formar um profissional no sentido estrito ou no sentido mais amplo. Há universidades de um lado e, de modo ilhado, centros universitários, institutos, escolas… É uma peculiaridade do sistema brasileiro.
ISTOÉ –  Como vê o ensino superior brasileiro?
IGNACIO BERDUGO – Há ótimas universidades aqui, como a Universidade de São Paulo, a Universidade Estadual de Campinas, a Universidade de Brasília. São de primeiríssima qualidade e não devem nada às europeias. Um dos pontos fortes do Brasil é a pós-graduação. ACapes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), o CNPq (Centro Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), aFapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) são instituições reconhecidas internacionalmente. São chaves para o desenvolvimento do pesquisador. A qualidade do mestrado aqui também é alta. Mas ainda faltam políticas para a dupla titulação: estudar em duas universidades, uma no Brasil e outra fora, que dividem o programa de formação, e quando acaba a formação ter o diploma reconhecido nos dois países.

ISTOÉ –  Como garantir vagas em universidades públicas para um maior número de pessoas, como ocorre na Europa?
IGNACIO BERDUGO –  Na Europa, o sistema, em sua maior parte, é público. É uma consequência da estabilidade demográfica. Mas aqui também há várias universidades privadas de ótima qualidade. Mas o tamanho da população é um problema. São muitas pessoas concentradas de maneira nada homogênea. Isso, de fato, dificulta.

ISTOÉ –  Muitas faculdades privadas têm sido abertas, mas várias delas de qualidade duvidosa. O que pensa disso?

IGNACIO BERDUGO –  Essa é uma questão muito complexa. Há universidades privadas de ótima qualidade. Mas e se fecho as universidades privadas que não são de tão boa qualidade? Pior é não tê-las. Esse é um debate ideológico que não se resolve de um dia para o outro. Uma coisa que chama a atenção no Brasil quando se fala em educação é a falta de coordenação do sistema educativo: o ensino básico é municipal, o médio estadual e o superior federal. E o ensino público dos níveis inferiores não é de grande qualidade. Os colégios privados são melhores. Mas as universidades públicas têm mais qualidade. Isso justifica políticas de reservar vagas para alunos de escolas públicas, por exemplo. É preciso criar mecanismos de organização entre os níveis de educação.

ISTOÉ –  O sr. acha que as políticas de cotas são uma saída para garantir a inclusão e o acesso ao ensino superior?
IGNACIO BERDUGO –  Meu conhecimento sobre a realidade brasileira não é o mesmo de um brasileiro quevivencia as oportunidades e suas disparidades. Mas posso dizer que as políticas de inclusão são ações destinadas a reduzir a desigualdade e, portanto, as considero positivas. Assim, para aspirar à igualdade, é preciso garantir que todos tenham acesso à educação, independentemente da classe social. E, no Brasil, a questão racial e a origemsocioeconômica direcionam as pessoas para diferentes rumos no sistema educacional, principalmente primário e médio, resultando em diferentes chances de entrar em determinadas instituições de ensino superior. Acredito que as ações afirmativas tenham resultado nesse sentido.

ISTOÉ –  Estudantes brasileiros ocupam reitorias para exigir mudanças nas estruturas de ensino. No Chile há um movimento estudantil forte. As universidades precisam ouvir mais os alunos?
IGNACIO BERDUGO –  Um dos temas para o encontro de reitores é esse: estamos dando respostas adequadas aos questionamentos dos nossos alunos? Mas há dois pontos distintos: existe um pedido por resposta política quando o único lugar onde eles podem fazer política é a universidade, exigindo mudanças no País. Por outro lado, há o debate educacional puro, sobre ser gratuita ou não. Cada geração está vinculada a mudanças e quer introduzir seu próprio desenho na sociedade. Não se pode limitar a liberdade, isso é um risco. Garanti-la é uma forma de melhorar o mundo em que vivemos. A mobilização estudantil é um sinal de uma geração saudável, que sabe pensar e argumentar. Mas sem recorrer à violência, porque aí seria a não razão.

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