O esgar


Acerco-me de ti e então meu ódio por não poder estar contigo, por não ter a chance de envelhecer contigo, de amparar-me e amparar-te, de desfrutar o imenso gozo em que me transformastes quando me entreguei, me põe assim, com um travo de angústia na boca, e me faz dizer o que meu coração condena.

Então te digo que não te quero mais, que não te desejo, e isso fica claro e inequivocamente dito, para que não tenhas mais nenhuma dúvida de que não te quero ver mais, que me fazes mal, e meu palato fica repleto de tais palavras de liquidação, de desafeto e meus dentes trincam a mensagem como se estivessem mordendo um pedaço macio de carne e minha língua explode em bílis quando te digo, quando te afirmo, quando vocifero isso, para que as minhas palavras saltem com mil ódios sobre o teu corpo e sobre os teus olhos.

Não quero que tenhas nenhuma dúvida a respeito do que eu disse, porque eu mesmo, eu que assim digo, que procedo desse modo, tenho de confranger meu coração, constranger meu espírito e tenho que tentar, pela milésima vez, abortar de mim o imenso amor que nutro por ti, um amor desmesurado, absurdamente grande, e meu coração fica assim como se fora um pedaço de nada abandonado no vazio de minha alma.

E mais eu digo, e mais eu falo para que entendas de uma vez por todas que não te quero, quando a minha vontade é te levar comigo para qualquer lugar, para uma vila distante, onde não conheça ninguém, para uma cidade em que não nos reconheçam, em que não saibam sequer se somos mudos ou não. Na minha mente explodem mil sóis, quatrocentas luas e uma miríade de luzes noturnas.

Desesperadamente abandono minha vontade, porque sei, constato a impossibilidade de me amares. Quero te levar para comermos um sorvete, e a sorveteria não há. Quero passear contigo nas praças, mas já não existem caminhos que nos levem. Definitivamente te perdi e meu último ato de improvisado desespero e de infinita tristeza é gritar ao mundo que não posso te possuir, que não me tens amor, que fostes um vento de verão, uma melancolia de outono, um rio cuja vazante secou.

Explodem em mim frustrações e descontinuidades, e os sentidos e os sentimentos me colhem como um trem, como uma explosão de ira, que esconde o temor enorme de viver sem tua boca, sem teus carinhos, sem teus afagos, sem a tepidez das tuas curvas, sem a tua palavra imensamente amiga e consoladora.

E agora que te disse tudo isso, e agora que não há mais lágrimas em meus olhos, que sou apenas uma folha morta, um pedaço ínfimo do que era, que estou aqui, alquebrado e meus sentimentos apenas me sufocam, me diminuem, me deixa ficar aqui, solitário, com meu orgulho ferido, com minha alma em frangalhos, como se eu fosse o que efetivamente sou. Um nada, um discurso feito de papelão, uma angústia que se nutre de si própria, do esgar do lobo que se inclina sobre meu corpo e, num minuto, o dilacera. HILTON BESNOS

 

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