Dando de ombros


Às vezes calar é um pouco de civilidade como, por exemplo, quando devemos escutar o outro, prestar atenção a algum ensinamento ou simplesmente o lugar que nos encontramos exige o silêncio. Calar também pode ser solidariedade, quando alguém apenas quer ser ouvido; muitas vezes não temos nada a dizer e um olhar é muito mais significativo do que um discurso, por melhor que ele seja (ou pareça…).

Há também o calar do “dar-de-ombros”, para demonstrar ao outro sua desimportância, a indiferença ao que esse outro diz. Esse calar, muitas vezes agressivo, pode vir seguido de alguma expressão que desqualifica o discurso alheio, um “não tô nem aí”, um “pára, não me interessa”, “não me irrita” e suas variações infinitas. Normalmente esse dar-de-ombros busca desestabilizar o outro interlocutor, muitas vezes colocando-o em um papel de ridículo. Dependendo da situação, pode ser uma afronta ao outro.

No entanto, normalmente esse é um calar submisso. Diferentemente da solidariedade, do compartilhamento, é um silêncio não-natural, que rescende à intolerância com o outro.

O “não importar-se”, aqui, é o não ocupar-se de algo que pode até ser relevante, mas que é relegado a um nada; o “dar-de-ombros” é o alienar-se de si próprio, é o compadrio com a submissão, o entregar-se ao vazio.

Em certa medida, tal atitude é o silêncio da solidão, do subtrair-se à si mesmo, e a agressividade, maior ou menor, será sempre dissolvida em outros comportamentos que podem levar à submissão e à resignação social.

O que é a alienação senão um passe para um comportamento submisso, uma autorização para a perda de autonomia, uma licença para que o outro exerça o mando? É logico que muitas vezes quem dá-de-ombros está fazendo menos que isso, mas pode estar fazendo mais, na medida em que não tiver uma consciência crítica do que ocorre em sua volta, do seu papel em relação à si mesmo e às suas cercanias sociais.

Por outro lado, se nada disso ocorrer, os infindáveis exércitos de massa de manobra, as incontáveis legiões de desafortunados e de marginalizados dentro de uma sociedade do conhecimento, acolherão essas pessoas indiferentes a si mesmas, tratando-as exatamente da mesma forma como as mesmas trataram seus possíveis interlocutores.

É uma questão de tempo e de opção, das possíveis escolhas que fazemos ou deixamos de fazer hoje. A utopia, aqui, de há muito abandonou o barco. O timão está à nossa frente, esperando que assumamos nossos próprios controles ou nos empurrando sem destino para qualquer lugar. Afinal, como sabemos, os oceanos são muito, muito extensos, e as correntezas também. Hilton Besnos

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s